Descrição de chapéu Brexit

Favorito para premiê no Reino Unido defende linha-dura com União Europeia

Boris Johnson é um dos principais candidato a suceder Theresa May

Lucas Neves
Paris

Não para nas madeixas louras milimetricamente desgrenhadas a excentricidade do deputado Boris Johnson, 54, prefeito de Londres entre 2008 a 2016 e favorito a suceder Theresa May na liderança do Partido Conservador e, por extensão, à frente do governo do Reino Unido.

Na campanha para a consulta popular do brexit, Johnson se posicionou na dianteira do “leave”, mobilização pró-divórcio da EU. Dentro desse grupo, era das vozes mais estridentes em favor de um rompimento a seco, caso o bloco europeu não concordasse com as condições fixadas por Londres.

Tudo parecia conspirar para que ele sucedesse Cameron, mas o parlamentar amarelou, retirando sua candidatura a nº 1 do campo conservador ainda nas fases iniciais do certame.

Suas credenciais “brexiteers”, porém, serviam a May para mostrar sua determinação em levar a separação a cabo —ela havia votado pela permanência do Reino Unido no colegiado europeu.

Assim, Johnson foi nomeado secretário (o equivalente a ministro no Executivo britânico) das Relações Exteriores. Mas não demorou para disparar fogo amigo na direção da chefe.

Em 2017, contrariado com o rumo das negociações entre Londres e Bruxelas acerca dos termos do brexit, disse abertamente que um acordo hipotético que alinhasse regulações de lado a lado faria o Reino Unido passar de Estado-membro da UE a Estado vassalo do consórcio.

Um ano depois, já fora do governo, voltou a recorrer à imagem e instou secretários de May a pedir demissão em bloco, após o pacto fechado por ela com a Europa ser bombardeado nas fileiras conservadoras.

Nesta sexta, Johnson mais uma vez propalou uma linha dura na condução do brexit.

“Sairemos da UE em 31/10 [atual data-limite acordada com o bloco, depois de dois adiamentos], com ou sem acordo”, afirmou em uma conferência na Suíça. “Um novo líder terá a oportunidade de fazer as coisas de modo diferente e com o ímpeto [momentum, no original] de uma nova administração.”

Ele deu a entender à plateia de Interlaken que até tentaria conversar com a UE sobre a possibilidade de editar o acordo, mas que não daria murro em ponta de faca.

Nos últimos dias, quando ficou claro que a gestão May estava na reta final, a imprensa britânica noticiou que Johnson começou a fazer acenos à ala mais moderada do Partido Conservador, que defende um brexit suave, negociado.

Por mais que vá caber à base de filiados à legenda (“brexiteer” de carteirinha) escolher o novo líder, ele sabe que precisa de um mínimo de trânsito entre as várias correntes para se legitimar na cúpula partidária. A ver se ele consegue restringir a lógica de caos e cizânia a seu design capilar.

A disputa pelo comando do país deve ter, além de Johnson, o deputado Dominic Raab, ex-ministro de May (justamente na pasta encarregada de organizar o brexit) e considerado ainda mais “pavio curto” do que o ex-prefeito londrino.

Na ala mais moderada, são aventados os nomes de Jeremy Hunt, atual ministro das Relações Exteriores, e Michael Gove, titular do Ambiente e apoiador obstinado da em breve ex-primeira-ministra.

Seja quem for o escolhido para o cargo, precisará ter seu nome aprovado no Parlamento britânico, e a tendência é que isso aconteça, já que a atual aliança entre os conservadores e o partido norte-irlandês DUP tem maioria na Casa. 

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