Família catarinense que morreu no Chile viajava para comemorar aniversário da filha

Vítimas de vazamento de gás foram encontradas em apartamento no centro de Santiago

Florianópolis , Campinas e São Paulo

A família dos seis turistas brasileiros encontrados mortos em um apartamento no Chile havia viajado para Santiago para comemorar o aniversário de Karoliny Nascimento de Souza, uma das vítimas, que faria 15 anos nesta sexta-feira (24). 

Além de Karoliny, também morreram seu pai, Fabiano de Souza, 41; sua mãe, Débora Muniz Nascimento de Souza, 38; seu irmão Felipe Nascimento de Souza, 13; e seus tios Jonathas Nascimento, 30, e Adriane Kruger, 27. Jonathas era irmão de Débora.

Familiares identificaram as vítimas na manhã desta quinta-feira (23). Ainda não há informações sobre data e local do velório e sepultamento dos corpos. A prefeitura de Biguaçu, na Grande Florianópolis (SC), onde viviam quatro das seis vítimas, afirmou que há planos para um velório coletivo. 

Os pais dos dois adolescentes moravam no Balneário de São Miguel em Biguaçu. Jonathas também era catarinense, mas vivia em Hortolândia (a 97 km de São Paulo), na região de Campinas. 

Em Hortolândia, Jonathas era funcionário do departamento pessoal do Iatec (Instituto Adventista de Tecnologia). A empresa atende exclusivamente a rede de igrejas adventistas com consultoria, suporte e manutenção de sistemas de informática.

Em nota, o Iatec lamentou o ocorrido e informou que Jonathas estava em período de férias. "O Iatec está oferecendo todo apoio aos familiares neste momento difícil e de profundo pesar", disse.

Apaixonada por educação, Débora se formou em Pedagogia na Universidade do Vale do Itajaí, em 2012. Ela lecionava para os alunos de uma escola de Florianópolis, onde era coordenadora pedagógica. Fabiano trabalhava como autônomo e prestava serviços para o setor pesqueiro.

“A Débora conversou conosco e liberamos o Felipe das aulas [para a viagem]. Ele tinha ótimas notas. Sabíamos que a viagem era importante porque era um presente de 15 anos para a Karoliny”, diz Grasiela Monteiro Epping, diretora da escola Professor José Brasilício, onde Felipe cursava o 9º ano do Ensino Fundamental.

“Felipe era brincalhão, conhecido na escola como Felipinho porque era o menor da turma, o nosso chaveirinho. A Karoliny era mais tímida e mesmo assim tinha amizade com todo mundo. Eles eram crianças extremamente doces. Alunos exemplares”, diz Epping.

Os tios dos adolescentes, Adriane e Jonathas, adoravam viajar e foram acompanhar a família para comemorar o aniversário da sobrinha (Karoliny) no Chile.

Adriane era natural de Alta Floresta, no Mato Grosso. Ela era a caçula entre quatro irmãos e tinha o apelido de Tuca. Ainda jovem, saiu da cidade natal para estudar.

“Ela era muito tímida, prestativa, meiga e doce. A simplicidade estava dentro dela”, diz a amiga de infância Cibele Garjoso. Em Blumenau (SC), se formou em Engenharia e se casou com Jonathas, que também morreu na tragédia.

“Eram pessoas maravilhosas, queridas por onde passavam. Jovens que estavam em plena vida, lutando e correndo atrás”, diz a prima de Jonathas, Noemi Fortunato Nascimento.

Da esq. p/ a dir.: Felipe, Débora Muniz, Fabiano e Karoliny de Souza, que morreram após vazamento de gás no Chile
Da esq. p/ a dir.: Felipe, Débora Muniz, Fabiano e Karoliny de Souza, que morreram após vazamento de gás no Chile - Reprodução/Facebook

Os corpos foram encontrados na tarde de quarta-feira (22) em um apartamento em Santiago. Os turistas estavam a passeio no país havia cerca de uma semana, e se hospedavam em um imóvel reservado pelo site de locações Airbnb.  O edifício fica na esquina das ruas Santo Domingo e Mosqueto, na região conhecida como Bellas Artes, centro da cidade.

A tragédia foi antecedida por outra perda familiar: a mãe de Jonathas e Débora, que tinha câncer, morreu em Florianópolis na terça-feira. Iete Isabel Muniz foi cremada na manhã desta quinta-feira em Palhoça, na Grande Florianópolis. A família já tinha sido informada e planejava antecipar o retorno para estar presente no velóri ​

Familiares no Brasil dizem que as mortes foram causadas por vazamento de gás —mesma suspeita da polícia chilena. O comandante da polícia do país, Rodrigo Soto, disse ao jornal El Mercurio que os policiais encontraram um forte cheiro do gás quando entraram no apartamento. 

Os bombeiros, porém, testaram o ar dentro do apartamento e encontraram altas concentrações de monóxido de carbono, um gás incolor e inodoro cuja inalação pode levar à morte. 

Ao todo, 25 bombeiros chilenos participaram da ocorrência —eles fazem a perícia para comprovar  o vazamento. Trabalham com três hipóteses: o gás pode ter vazado do aquecedor de água, do aquecedor geral ou do gás de cozinha.

Autoridades chilenas ainda não identificaram a causa do vazamento do gás nem seu local exato. Tampouco se sabe por quanto tempo os brasileiros foram expostos a ele.

As janelas do apartamento, que fica no sexto andar, estavam fechadas. Pelas condições que foram encontrados os corpos, presume-se que a intoxicação aconteceu muito tempo antes.

O site do jornal local La Hora noticiou que a noite de terça (20) foi a mais fria registrada no país: as temperaturas chegaram a -1ºC na região central de Santiago. Isso, supostamente, justificaria a necessidade de se fechar as janelas e ligar a calefação.

O casal Adriane Padilha Kruger e Jonathas Muniz durante a viagem, em foto postada na terça-feira (21) nas redes sociais
O casal Adriane Padilha Kruger e Jonathas Muniz durante a viagem, em foto postada na terça-feira (21) nas redes sociais - Arquivo Pessoal

A informação está de acordo com as médias registradas pelo site de medição de temperatura Weather.com, segundo o qual os dias 21 e 22 de maio foram os mais frios do mês na capital chilena.

O investigador chileno Carlos Albornoz disse ao jornal El Mercurio que e o apartamento onde estavam alocados fora alugado de uma pessoa que não seria a real proprietária do imóvel. "Tanto a proprietária do apartamento quanto a que o sublocava estão sujeitas a prestar depoimentos", disse.

O Ministério das Relações Exteriores, por meio do Consulado-Geral do Brasil em Santiago, afirmou em nota que acompanha o caso, prestando assistência com a expedição de atestados de óbito e contato com autoridades locais. Afirma ainda que "não há previsão legal para o pagamento" do traslado dos corpos até o Brasil pelo Governo Federal.

No início da tarde de quinta (23), o Airbnb afirmou que pagará pelo translado dos corpos. O anúncio veio depois que a família dos turistas criou campanha para arrecadar fundos para esse fim. 

O Airbnb possui um seguro para proteger danos aos imóveis e indenizar os proprietários se ocorrerem problemas. Em situações de acidentes com turistas, as situações são avaliadas caso a caso, segundo a assessoria de imprensa da empresa. 

“Estamos profundamente consternados com este trágico incidente. Nós nos solidarizamos com os familiares e estamos em contato para prestar todo apoio necessário aos familiares neste momento difícil", disse o aplicativo, em nota.

Vanessa da Rocha, Luís Freitas e Rafael Balago
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