Veterano da política argentina, candidato de Cristina Kirchner é camaleão ideológico

Provável postulante à Presidência, Alberto Fernández é visto como articulador habilidoso

Alberto Fernández, ao lado de sua candidata a vice, Cristina Kirchner, em ato em Buenos Aires

Alberto Fernández, ao lado de sua candidata a vice, Cristina Kirchner, em ato em Buenos Aires Agustin Marcarian - 25.mai.19/Reuters

Sylvia Colombo
Buenos Aires

Nas primeiras aparições como provável candidato à Presidência pelo kirchnerismo —corrente do peronismo liderada por Cristina Kirchner—, Alberto Fernández, 60, tem reforçado o vínculo que teve com o ex-presidente Néstor Kirchner (1950-2010), antecessor e marido de Cristina.

Passada a surpresa dos argentinos de que Cristina não se apresentaria, ao menos num primeiro momento, como candidata a presidente, e sim a vice, colocando Fernández no alto da chapa, as atenções agora estão todas voltadas a esse veterano da política argentina.

Seus discursos têm reforçado o fato de que, como chefe de gabinete do governo de Néstor (2003-2007), Fernández ajudou “a reconstruir o país a partir das cinzas”.

Isso porque a gestão de que fez parte assumiu a Presidência após a hecatombe política e econômica de 2001. A Argentina estava numa situação dramática, com o peso desvalorizado, internacionalmente desmoralizada e com a pobreza beirando os 50% da população.

“Sabemos sair do labirinto porque já fizemos isso antes”, repete hoje Fernández, comparando aquela crise com a situação atual da Argentina, sob a batuta do cada vez mais impopular presidente Mauricio Macri, com inflação de 15,6% acumulada em 2019, 33% de pobreza e a perspectiva de encolhimento do PIB até o fim do ano.

O pré-candidato à Presidência da Argentina, Alberto Fernández, após se encontrar com o ex-presidente uruguaio Jose Mujica em Montevidéu
O pré-candidato à Presidência da Argentina, Alberto Fernández, após se encontrar com o ex-presidente uruguaio Jose Mujica em Montevidéu - Dante Fernandez/AFP

Porém, vincular-se exclusivamente ao exitoso mandato de Néstor Kirchner, no qual a Argentina, ao sabor do “boom das commodities”, chegou a crescer 8% ao ano, é contar apenas uma parte de sua história.

A biografia de Alberto Fernández começou antes e tem elementos para agradar ou desagradar distintos campos ideológicos. Seu início na política, quando ainda era estudante de direito, deu-se por meio de uma pequena agrupação nacionalista de direita, na qual se destacou como bom orador.

Nos anos 1980, com a redemocratização do país após o regime militar (1976-1983), Fernández integrou o governo de Raúl Alfonsín (1983-1989), do partido que na época era o principal rival do peronismo, a União Cívica Radical. Lá, ocupou o cargo de subdiretor geral de assuntos jurídicos do ministério da economia.

Com o fim desastroso da gestão Alfonsín, que teve de deixar o cargo antes da data prevista devido a um processo hiperinflacionário, Fernández abandonou a sigla e se aproximou do peronismo, que voltava ao poder com a eleição de Carlos Menem (1989-1999).

Durante o menemismo, Fernández foi superintendente de seguros da nação argentina. Nesta época, começou a se relacionar com muita habilidade com os grandes meios de comunicação do país, como o Clarín e o La Nación.

Para alguns analistas políticos, como Carlos Pagni, a escolha de Cristina ao colocar Fernández como cabeça da chapa presidencial tem a ver, também, com isso.

Cristina sempre teve péssima relação com a mídia independente, que até hoje segue linha editorial anti-Cristina. Fernández poderia servir como amenizador desses ataques.

Do menemismo —que foi um peronismo identificado com o neoliberalismo—, Fernández saltou para o kirchnerismo —um peronismo que se considera de esquerda. Primeiro, foi chefe da campanha de Néstor.

Depois, passou a comandar seu gabinete de ministros. Permaneceu no posto durante toda a gestão e no primeiro ano do governo de sua sucessora e mulher, Cristina.

Depois disso, curiosamente, foi se afastando do kirchnerismo e passou a criticar com intensidade o governo de Cristina —nas últimas semanas, vídeos com seus ataques à viúva de Néstor e memes com suas frases anti-Cristina explodiram nas redes. Por isso, a surpresa de todos ao saber que ela concorreria como vice de Fernández foi ainda maior.

Mas o que se pode esperar de uma eventual gestão de Alberto Fernández como presidente, se é que a chapa será realmente inscrita desta forma (o prazo final para alterar é 22 de junho)?

Fernández posiciona-se contra algumas bandeiras clássicas do kirchnerismo, e por isso poderia diminuir o alto nível de rejeição que Cristina carrega (acima de 50%). Fernández se opõe a uma reforma do Judiciário, que o vincule mais ao Executivo. Também é contra o aumento da tributação dos grandes empresários rurais, que causou grande cisão durante a gestão Cristina.

E Fernández seria mais amigo do livre mercado, o que pode trazer ao núcleo duro dos eleitores tradicionais do kirchnerismo parte dos descontentes com o desempenho de Macri.

Fernández, no entanto, não pode ser caracterizado como de centro. Economicamente, defende uma abertura, mas mantendo certas travas protecionistas e uma abordagem de ação do Estado na economia.

Afirmou, por exemplo, que a Argentina não dará calote no FMI (Fundo Monetário Internacional), com quem Macri assumiu dívida de US$ 57 bilhões. Porém, quer renegociar o empréstimo, e pagar a conta não seria uma prioridade. Fernández também é a favor da volta do controle cambial.

Uma de suas principais tarefas será diminuir o clima de agressividade contra Cristina. Conhecido pelo pragmatismo, é hábil em negociar com parlamentares e ministros.

Na política externa, embora de perfil nacionalista-protecionista, Fernández não tem as características de um líder carismático populista nem guarda semelhanças com os governantes ditos bolivarianos com os quais Cristina tanto se identificava.

Neste sentido, pode também ser um fator de conciliação na região, sem assustar investidores internacionais.

Neste sábado (1º), afirmou ser “a favor de seguir a onda feminista em direção ao aborto seguro, legal e gratuito”. “Mas um passo de cada vez.” Para ele, o que deveria ser aprovado logo é a descriminalização —depois os outros passos.

A declaração é feita no momento em que o​ Congresso argentino começa uma nova discussão sobre a lei do aborto, que deve ser votada até o fim do ano ou começo de 2020.

Tudo ainda depende, porém, da confirmação dessa candidatura e, se assim for, como ele e Cristina irão dividir as tarefas caso vençam.

É preciso lembrar que, na Argentina, o vice-presidente está longe de ter um papel decorativo, uma vez que chefia o Senado e encaminha a pauta de votações do Legislativo.

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