Barcelona vê criação de patrulhas cidadãs para conter violência

Aumento das estatísticas de crimes assusta moradores na capital catalã, conhecida pelos batedores de carteira

Patu Antunes
Barcelona

Patrulhas cidadãs têm se tornado a arma encontrada por moradores de Barcelona, principal motor do turismo espanhol, para combater o aumento da delinquência, principalmente roubos com violência, enquanto o poder público sinaliza uma reação mais articulada ao problema.

O alarme na capital catalã, que recebe 16 milhões de visitantes anuais e é famosa pelos batedores de carteira, vem da comparação entre os dados do primeiro semestre deste ano e o anterior: foram 31% mais roubos com intimidação ou violência, ou cerca de 40 por dia; mais 20% de roubos em geral (exceto os de veículos), e uma alta de 9,3% de todos os tipos de delitos e crimes. 

Apenas no primeiro semestre deste ano, foram registradas 113.542 ocorrências. 

multidão em frente a prédio
Aglomeração diante da entrada de um dos principais pontos turísticos de Barcelona, o prédio La Pedrera - Samuel Aranda/The New York Times

No Barômetro Pós-Eleitoral, pesquisa realizada depois das eleições municipais de junho, 27% dos 799 entrevistados consideraram a cidade insegura. Em 2017, 25,6% disseram ter sido vítimas de algum delito. 
Para Eliana Guerrero, conhecida como a “caça-batedores de carteira”, a ação de delinquentes nos metrôs é constante há anos — a diferença é que agora são mais agressivos e às vezes andam armados com facas. 

“Patrulho o metrô há 12 anos e há até pouco tempo sofria uma tentativa de agressão por ano. Agora sofremos ao menos uma por mês. O conto da não violência dos batedores está mudando”, afirma. 

Guerrero é o rosto mais visível da Patrulha Cidadã, um grupo de 40 voluntários que percorrem o metrô com um apito, alertando a presença indesejada de ladrões e os expulsando a gritos de “fora daqui, suas ratazanas!”.

Ela administra dois grupos em redes sociais nos quais expõe os acusados em fotos e vídeos e é cofundadora do Salvalona, uma plataforma recém-criada com taxistas e uma empresa de segurança para exigir medidas do poder público. 

Desde 2014 existe ainda o grupo Residentes de Barcelona contra Roubos, o Roar, que conta com 28 ativistas. 

Mery Peña, cofundadora do grupo, defende uma mudança na lei com punição para os reincidentes, assim como uma solução para os chamados “mena” —menores imigrantes não acompanhados, geralmente do norte da África. Das quase 8.500 prisões realizadas no semestre passado, 551 foram desse grupo.

“O conflito social é muito complexo. São jovens sem esperança, abandonados pelo Estado. E, se não têm esperança, não têm nada a perder.”

Para ela, a falta de reação dos usuários, mesmo quando veem os batedores em ação, é determinante para que os ladrões se sintam mais à vontade. 

Avisos não faltam. Ao entrar no metrô em Barcelona, ouvem-se orientações sobre como cuidar de objetos pessoais. Às vezes, o próprio condutor avisa: “Temos batedores viajando conosco. Cuidem de seus objetos”. Tampouco é incomum a presença de seguranças e de policiais à paisana.

Segundo os Mossos d’Esquadra —a polícia local—, 33% dos furtos na cidade acontecem no transporte público (metrô, ônibus, trem e bonde). Foram cerca de 21,6 mil ocorrências no primeiro semestre —cerca de 120 por dia. As estações mais visadas são Espanya, Barceloneta e Sants.

Um policial à paisana que patrulha o metrô afirma que chega a abordar —e expulsar— os mesmos indivíduos até oito vezes na mesma jornada. 

Ele afirma que muitos estrangeiros agem na linha 5, que leva à Sagrada Família, a atração mais visitada da cidade. Na semana passada, três deles atacaram um segurança, que teve de ser atendido pelo serviço médico de emergência. 

Outro grupo conhecido por policiais e patrulheiros, formado por mulheres, circula pela linha 3, que corta as Ramblas e o Passeio de Gràcia (as ruas mais conhecidas do centro).

Elas, aliás, já são maioria entre os batedores do metrô, dizem os policiais. Há desde jovens até mulheres com idades entre 40 e 50 anos. 

Para Guerrero, a inércia dos barceloneses só foi abalada quando a violência começou a afetar mais estabelecimentos comerciais —estatísticas policiais apontam aumento de 66% nos roubos à força a comércios no primeiro semestre em relação ao ano passado. 

O incremento no número de policiais à paisana é uma das demandas da população. 

Na semana passada, a Junta de Segurança —com empresários, moradores e governo— anunciou um pacote de medidas para combater a reincidência dos delinquentes e dar mais apoio às vítimas.

A prefeita de Barcelona, Ada Colau, alertou para o aumento de roubos e furtos apesar da maior presença policial e das prisões. “Temos um problema judicial com os furtos, já que a reincidência deixou de ser um agravante”, explicou.

Além da mudança no Código Penal, algo que dependerá do novo governo espanhol ainda não constituído, a prefeita anunciou a incorporação de 600 guardas urbanos (distintos dos mossos) e mil novas vagas para agentes nos próximos quatro anos. Neste mês, 31 agentes foram somados à segurança do metrô.

O secretário catalão do Interior, Miquel Buch, anunciou o acréscimo de 187 mossos. Com isso, o efetivo de Barcelona passará a ter 2.700 agentes.

Já o responsável pela segurança, Albert Batlle, polemizou ao afirmar que a prefeitura combateria as patrulhas. 

“A responsabilidade pela segurança, ordem pública e ordenamento da convivência em uma democracia corresponde ao poder público. Não pode haver auto-organização, é perigosíssimo”, afirmou.

Mas a declaração não impressionou os grupos de patrulha. “Quando houver uma mudança real, paramos as patrulhas. Antes, não”, diz Guerrero.

“Ele deveria parar e pensar por que pagamos um bilhete de metrô, compramos um spray de pimenta e passamos horas do nosso tempo livre lá embaixo, patrulhando. Antes de nos perseguir, ele deveria perseguir os delinquentes.”

Em 2015, uma reforma do Código Penal deixou de considerar os furtos como “falta” para considerá-los “delito leve”, caso o montante subtraído for inferior a 400 euros (R$ 1.700). Nesse caso, paga-se multa de 180 euros (R$ 757) por um a três meses. 

No caso dos reincidentes com ao menos três condenações nos seis meses anteriores, o código previa uma pena de até três anos de prisão. 

No entanto, em 2017, o Tribunal Supremo entendeu que o critério da reincidência não pode ser levado em conta se o delito for leve. Com isso, os batedores pequenos saíram beneficiados e podem reincidir infinitamente sob pena de multas que nunca pagam.

Apesar do clima geral de insegurança, 58% das ocorrências policiais em Barcelona são furtos e a maior parte deles ocorre nos três bairros de maior interesse turístico: Ciutat Vella, Eixample e Sants-Montjuïc. 

Cerca de 35% dos furtos acontecem nas ruas; 33%, no transporte público, e 28%, em estabelecimentos comerciais (lojas e restaurantes). Menos de 5% acabaram em prisão no semestre passado.

As prisões são normalmente em flagrante. Um exemplo foi a ação policial ocorrida no festival de música Sónar, no fim de semana passado, quando 83 celulares de preço superior a 400 euros foram recuperados, e 20 ladrões, presos em flagrante.

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