Como os nova-iorquinos aproveitaram o blecaute na noite de sábado

Cidade teve queda da energia no sábado, em uma noite quente de verão

Sarah Maslin Nir
Nova York | The New York Times

Um grande blecaute derrubou a energia em boa parte do West Side de Manhattan na noite de sábado (13), mas Danielle Allen estava acomodada à porta um edifício com a cara satisfeita de alguém que está tomando um banho de sol.

"Que bonito", disse a compositora Allen, contemplando calçadas cheias de pessoas que haviam saído de seus apartamentos (calor demais) e o tráfego que se movimentava ainda mais devagar do que costuma (semáforos desligados).

Painéis de Times Square apagados durante blecaute em Nova York - Thomas Urbain - 13.jul.2019/AFP

"Se isso não acontecesse, todo mundo estaria dentro de casa com o ar condicionado ligado", ela disse. "E agora eles estão na rua em Hell's Kitchen, curtindo a brisa".

A falha de energia, aparentemente causada por um defeito em uma subestação, perturbou a vida de centenas de milhares de pessoas em Manhattan por algumas horas, em uma noite quente de verão no final de semana.

Mas pessoas como os homens que preparavam hot-dogs usando velas, na calçada, e as amigas que usaram a desculpa do degelo do freezer para abrir garrafas de champanhe não pareciam estar amaldiçoando a escuridão: esses nova-iorquinos pareciam estar curtindo.

Na Times Square, as luzes se apagaram na Broadway cerca de uma hora antes do horário em que sobem as cortinas, e os teatros ficaram no escuro. Mas os atores e atrizes fizeram serenatas de improviso nas calçadas, para animar os espectadores decepcionados.

Diante do teatro em que "Hadestown" está em cartaz. André De Shields cantava uma versão improvisada de seu número de abertura, incluindo na letra temas relacionados ao blecaute.

No pavimento diante do teatro onde "Come From Away" está em cartaz, a banda e elenco completos da peça tocaram a primeira canção da trilha.

É claro que algumas pessoas nada viram de divertido no blecaute. A situação foi apavorante para os passageiros que ficaram presos por algum tempo no metrô. Outras pessoas, especialmente as mais velhas, temiam não conseguir deixar seus apartamentos porque os elevadores pararam de funcionar.

 
Passageiros em metrô na estação da rua 66, durante o blecaute que atinge Nova York - Aleksandra Michalska - 13.jul.2019/Reuters

Empresas, de restaurantes e bares a salas de cinema, perderam dinheiro. E para os policiais, bombeiros e outros trabalhadores de serviços de emergência, a noite foi frenética.

As autoridades afirmaram que não havia informações sobre mortes causadas pelo blecaute.

A energia caiu às 18h47min, horário local, e demorou pelo menos três horas para que começasse a voltar, aos poucos.

Na rua 46, ela voltou em um semáforo que piscou do amarelo para o verde rapidamente.

Um homem começou a dançar ao atravessar a rua, cantando as palavras "can you feel it?"

Então, as luzes brilhantes do Health Mart, na rua 45 com 10ª avenida, se acenderam, mostrando o caixa da loja, Alla Saleh, respirando aliviado por trás do balcão.

"Perdi muito sorvete, muita comida", ele disse. "Muito dinheiro perdido".

Mas 10 quarteirões mais ao sul, o blecaute continuava —quase— completo na AM-PM Deli. 

Mohsen Nadi, 56, o dono do estabelecimento, pediu emprestado o gerador de um amigo que vende cachorros quentes. Posicionado diante da loja, o aparelho gerava energia suficiente para acender uma lâmpada do lado de dentro.

"Poderíamos ter fechado, mas não é pelo dinheiro. Queríamos curtir", disse Nadi, papeando com um filho e um amigo na loja. "Queremos diversão, diversão, diversão".

Mas muita gente resmungou sobre as áreas da cidade que escaparam ao blecaute, e mantiveram ligados os seus aparelhos de ar condicionado enquanto o pessoal sem energia tinha de suar.

Porque o calor estava sufocante em seu apartamento, Larry Moran, que trabalha com imóveis, saiu à rua em Hell's Kitchen.

"Li na internet que a rua 40 e Columbus Circle estavam sem luz, e eu estava na rua 37 de luz acesa. Uma hora depois, a luz deles estava ligada e a minha caiu", ele disse. "Parece que há uma agenda oculta sendo seguida".

Quando o porteiro ligou para uma mulher chamada Katherine para avisar que a luz tinha voltado em seu edifício na rua 52 Oeste, ela voltou para casa, vinda de Chelsea, iluminando a calçada com uma pequena lanterna, ao passar por um pedaço escurecido da cidade. Ela passou o blecaute no apartamento de uma amiga.

Pessoas andam em Times Square durante queda de energia que atinge Nova York - Jeenah Moon - 13.jul.2019/Reuters

“Liguei para a minha amiga e ela disse que tinha luz e ar condicionado", disse Katherine. "Eu respondi que tinha uma garrafa de champanhe que ia degelar, e decidi visitar Chelsea".

"É uma ótima história sobre Nova York. Você pode ter enfrentado uma dificuldade por um minuto ou dois, mas as pessoas se ajudam", ela disse.

Ela continuou a iluminar o caminho com a lanterna, revelando as pessoas que lotavam as calçadas no escuro. "O mundo está aqui fora".

Pela meia-noite, a luz tinha voltado em toda Manhattan.

Alex Cedeno, 53, que trabalha com construção civil, passou o blecaute sentado na soleira de sua porta em Hell's Kitchen. Seu televisor e ar condicionado pararam de funcionar, mas ele encontrou outra forma de diversão, disse: ver as "mulheres bonitas passando".

Meia hora depois de as coisas voltarem ao normal, ele continuava sentado na porta de casa. "Foi bacana", ele disse. "Adorei o escurinho".

Pessoas caminham nos arredores de Times Square durante queda de energia - Jeenah Moon - 13.jul.2019/Reuters
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