Descrição de chapéu Brexit

Legado de Boris Johnson como prefeito de Londres inclui mais erros que acertos

Líder da capital inglesa por oito anos, conservador foi eleito novo premiê do Reino Unido

Lucas Neves
Londres

Um teleférico que liga pontos semidesertos de Londres, uma torre que ganhou um tobogã para atrair mais visitantes e o projeto abortado de um aeroporto sobre uma ilha do Tâmisa compõem o legado de Boris Johnson como prefeito (2008-16).

Por outro lado, seus oito anos à frente do governo municipal viram ênfase inédita em transporte limpo (principalmente em bicicletas) e assistiram a uma redução da criminalidade.

O líder conservador Boris Johnson - Tolga Akmen/AFP

Johnson foi eleito para suceder Theresa May como líder do Partido Conservador e, por conseguinte, primeiro-ministro do Reino Unido nesta terça (23). 

Em dois mandatos na prefeitura, Johnson se notabilizou por obras vistosas, que garantiam espaço na mídia, mas quase sempre estavam destinadas a se tornar elefantes brancos.

Foi assim com o teleférico sobre o Tâmisa que abre este texto, vendido pelo alcaide como uma “ligação vital” no sudeste londrino. 

Quando ele anunciou a construção, em 2010, o custo estimado era de 25 milhões de libras (R$ 117 milhões, pela cotação atual), a serem bancados por uma companhia aérea. Na inauguração, dois anos depois, a conta chegara a 60 milhões de libras (R$ 280 milhões), mais de 40% financiados pelos contribuintes.

No começo, 40 mil pessoas usavam o transporte toda semana. Hoje, são 25 mil. Para se ter uma ideia do alcance do serviço, Londres tem 8 milhões de habitantes.

O teleférico sobre o rio Tâmisa na época de sua inauguração, em 2012
O teleférico sobre o rio Tâmisa na época de sua inauguração, em 2012 - Olivia Harris/Reuters

O bilhete para ida e volta custa 9 libras (R$ 42) —a viagem aérea leva cerca de dez minutos. O bondinho conecta a península de Greenwich, onde fica uma grande arena multiuso, à região das docas, em que se destacam um centro de convenções e um dos seis aeroportos da cidade.

Quando não há shows ou eventos esportivos de um lado do rio ou congressos do outro, a frequência cai consideravelmente.

Folha fez a travessia Greenwich-docas neste domingo. Às 18h15 de um dia de tempo bom, cerca de 80 pessoas aguardavam para subir. 

No ar, nossa cabine cruzou com várias outras ocupadas pela metade —cada módulo pode acolher oito viajantes. O público era formado sobretudo por turistas ou famílias com crianças

A mensagem exibida em uma telinha na cabine escancarava a ironia: a construção foi parcialmente bancada pelo Fundo para o Desenvolvimento Regional da União Europeia (UE).

No plebiscito sobre permanência do Reino Unido no bloco, em 2016, Johnson foi o principal garoto-propaganda do “leave” (sair). Na campanha atual pelo comando do partido, prometeu entregar o brexit em 31 de outubro (a terceira data-limite até agora).

Além do bondinho, a torre do Parque Olímpico entrou para o folclore johnsoniano. O prefeito encomendou o projeto para “incrementar” o QG dos Jogos de 2012, que julgava simplório.

O premiado artista indo-britânico Anish Kapoor desenhou então uma espécie de molécula de DNA ensandecida de 115 metros de altura. Lá do alto, veem-se dois canteiros de obras colossais, um canal semicoberto de lodo e uma linha de trem, entre outros itens pouco formosos —a subida custa 12,50 libras (R$ 58).

A obra foi custeada por uma siderúrgica, mas a manutenção cai no colo da prefeitura. Para tornar a atração mais popular, Johnson teve a ideia de lhe acrescentar um escorregador (por 3 milhões de libras adicionais).

O apêndice foi inaugurado em 2016. Dois anos depois, o público total já tinha voltado a cair —o déficit acumulado de operação é de 13 milhões de libras (R$ 60 mi).

Há ainda o capítulo dos planos nunca tirados do papel, mas que consumiram verba pública em consultorias, estudos prospectivos e croquis.

Aí entram o aeroporto que Johnson queria ver erguido sobre uma ilha, a Garden Bridge (coberta de vegetação) e o redivivo Crystal Palace (centro expositivo).

Até nos ônibus vermelhos de dois andares o prefeito quis mexer. Saiu-se com um design futurista, mas que transformava o segundo pavimento em estufa. Acabou sendo convencido a incorporar janelas ao traçado, por um acréscimo de 2 milhões de libras (R$ 9 milhões) na fatura.

Na rubrica dos acertos, mesmo detratores reconhecem que ele implantou um bem-sucedido sistema de aluguel de bicicletas e criou condições para que o transporte limpo florescesse ao espalhar ciclovias.

Também durante sua gestão, o funcionamento do metrô londrino (o mais antigo do mundo, do fim do século 19) registrou melhora significativa, segundo a autarquia responsável pelo transporte.

Por fim, Johnson diz que, em sua passagem pela prefeitura, cortou o índice de homicídios pela metade. Os crimes dessa natureza de fato caíram bastante, mesmo que não em 50%. E voltaram a subir a partir de 2014, quando ele ainda era o chefe.

 

Boris Johnson, prefeito de Londres

Acertos

  • Sistema de empréstimo de bicicletas foi implantado com sucesso; capital ganhou amplo circuito de ciclovias
  • Obras e ajustes nas linhas tornaram mais fluente a operação do trem subterrâneo mais antigo do mundo

Erros

  • Torre-mirante do Parque Olímpico e o teleférico sobre o Tâmisa não atraem público suficiente nem para cobrir custos de operação
  • Tradicionais veículos de dois pisos receberam um “lifting” a pedido do prefeito, mas problemas de refrigeração fizeram do segundo andar dos novos modelos cenários saarianos 
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