Descrição de chapéu Governo Trump

'Não tenho um só osso racista', diz Trump após insultar deputadas democratas

Congresso debate aprovar resolução condenando tuítes do presidente, criticados também por republicanos

Washington | AFP

O presidente Donald Trump disse nesta terça-feira (16) que não considera ter sido racista nos tuítes que fez no domingo, quando escreveu que deputadas democratas "deveriam voltar aos países de onde vieram".

"Esses tuítes NÃO eram racistas. Eu não tenho um só osso racista no meu corpo!", postou Trump.

O presidente Donald Trump, durante reunião na Casa Branca - Leah Millis/Reuters

Nesta terça, legisladores dos EUA se preparam para votar uma resolução condenando seus comentários, classificados como racistas por diversos parlamentares e criticados também por líderes de outros países. 

Trump criticou a iniciativa. "O que eles chamaram de votação é uma farsa. Os republicanos não devem mostrar 'fraqueza' ou cair em sua armadilha", tuitou. Ele também afirmou que os legisladores deveriam se pronunciar sobre a "linguagem chula e as mentiras contadas pelos democratas".

No domingo, em um tuíte, o presidente disse às congressistas democratas para voltarem aos "países totalmente infestados pela criminalidade de onde vêm". Três delas nasceram nos Estados Unidos.

Ele não citou nomes, mas a crítica foi claramente dirigida a um grupo de quatro jovens democratas: Alexandria Ocasio-Cortez (representante de Nova York, de origem porto-riquenha), Ilhan Omar (de Minnesota, americana nascida na Somália), Ayanna Pressley (de Massachusetts, afro-americana) e Rashida Tlaib (de Michigan, de ascendência palestina). 

Em entrevista coletiva conjunta, na noite de segunda-feira, as quatro rebateram duramente as acusações do presidente. 

"Não vai nos calar", disse Pressley, pedindo aos americanos que "não mordam a isca". Segundo ela, os ataques são uma maneira de Trump tentar desviar a atenção da população para os verdadeiros problemas do país.

"Com este ataque abertamente racista", Trump busca apenas desviar a atenção. Essa é a agenda dos nacionalistas brancos", afirmou Omar. 

As quatro congressistas, apelidadas como "o Esquadrão", destacaram que o debate político deve se concentrar em questões como a cobertura de saúde e imigração, particularmente no sensível tema dos solicitantes de refúgio na fronteira com o México.

As deputadas Ilhan Omar, Alexandria Ocasio-Cortez, Rashida Tlaib e Ayanna Pressley (da esquerda para a direita) respondem aos ataques de Trump durante entrevista em Washington
As deputadas Ilhan Omar, Alexandria Ocasio-Cortez, Rashida Tlaib e Ayanna Pressley (da esquerda para a direita) respondem aos ataques de Trump durante entrevista em Washington - Brendan Smialowski/AFP

"Mentes e líderes fracos discutem sobre lealdade ao nosso país para evitar perguntas e debates sobre suas políticas", disse Ocasio-Cortez. Para ela, Trump "não sabe como defender suas políticas, então o que faz é nos atacar em nível pessoal". 

Na corrida pela reeleição em 2020, Trump parece decidido a reavivar as chamas da tensão racial para reforçar sua base eleitoral, majoritariamente branca, mas também para semear divisões entre seus opositores políticos.

Ao ser questionado se ficava preocupado que algumas pessoas pudessem considerar seus comentários racistas, Trump respondeu: "Não me preocupa, porque muita gente está de acordo comigo".

Os ataques de Trump também causaram críticas em seu próprio partido. A senadora Susan Collins, republicana do Maine, rompeu o silêncio inicial de seus correligionários e pediu ao presidente que apague o tuíte: "Foi totalmente fora de lugar".

O senador negro republicano Tim Scott também criticou Trump por usar "ataques pessoais inaceitáveis e linguagem racialmente ofensiva".

Mitt Romney, senador e ex-candidato à Presidência pelo mesmo partido de Trump, classificou suas declarações como "destrutivas e degradantes".

No campo democrata, houve uma onda de indignação. A presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, denunciou os comentários "xenófobos" e pediu aos congressistas que apoiem uma moção na Casa para condená-los explicitamente.

A estratégia política de Trump parece clara: reforçar as tensões existentes entre os democratas ao atacar quatro jovens congressistas da ala mais progressista do partido.

"Com suas palavras deliberadamente racistas, Trump quer elevar o perfil das pessoas afetadas para pressionar os democratas a defendê-las e transformá-las em símbolos de todo partido", avaliou David Axelrod, antigo assessor de Barack Obama.

"É um cálculo frio e cínico", acrescentou, no Twitter.

Horas mais tarde, o próprio presidente validou essa análise, ao explicar, em um tuíte, que os democratas haviam tentado se distanciar das quatro legisladoras, mas depois "se viram obrigados a defendê-las".

"Isso significa que apoiam o socialismo, o ódio a Israel e aos Estados Unidos", concluiu.

Para Joe Biden, vice-presidente de Obama durante oito anos e atual pré-candidato democrata à Casa Branca, nenhum chefe de Estado americano "foi tão abertamente racista como este homem".

No exterior, a primeira-ministra britânica, Theresa May, considerou na segunda-feira (15) "totalmente inaceitáveis" as palavras do presidente americano. Já a premiê da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, destacou que "é evidente" que "discorda completa e totalmente" de Trump.

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