Brasileira desafia presidente da Câmara por vaga no Congresso dos EUA em 2020

Agatha Bacelar aposta em eleitorado jovem da Califórnia para tentar desbancar Nancy Pelosi

Marina Dias
Washington

Ela sabe que parece loucura, mas prefere usar a palavra audaciosa para definir sua decisão.

Aos 27 anos, a brasileira Agatha Bacelar resolveu disputar uma vaga no Congresso americano contra a democrata mais poderosa dos EUA, a presidente da Câmara, Nancy Pelosi.

Junto a outros dois candidatos, Agatha compõe a lista do Partido Democrata dos que buscam bater o favoritismo da deputada em 2020.

Desde 1987 Pelosi representa o distrito da Califórnia que abrange a cidade de São Francisco. De lá para cá, nunca teve alguém do mesmo partido como adversário na eleição geral.

A brasileira Agatha Bacelar, 27, que concorrerá a uma vaga no Congresso dos EUA em 2020
A brasileira Agatha Bacelar, 27, que concorrerá a uma vaga no Congresso dos EUA em 2020 - Divulgação

Para tentar acabar com esse ineditismo, a brasileira aposta no eleitorado jovem e progressista que não se sente representado por Pelosi. E mais: clama por bandeiras vistas com cautela pela presidente da Câmara.

Agatha diz que pretende debater projetos de saúde grátis para todos e o Green New Deal —plano que propõe combater mudanças climáticas.

“Pelosi entrou no Congresso antes de eu nascer. Desde então, São Francisco mudou muito. Está mais jovem, diversa e tecnologicamente avançada. Pelosi não nos representa nessas áreas e não responde a essas demandas”, diz a brasileira, que chegou aos EUA com um ano de idade.

Nascida em São Paulo, filha de uma brasileira e um americano que não se casaram, cresceu com a mãe em Miami, com visitas anuais ao Brasil para, segundo ela, não perder o contato com a cultura e a língua.

Foi alfabetizada em inglês, fala português com sotaque e muitas vezes não encontra a expressão que deseja no idioma de seu país de origem.

Formada em engenharia mecânica pela Universidade Stanford, uma das mais tradicionais dos Estados Unidos, a brasileira que vive em São Francisco há dez anos faz contas.

“Para ganhar preciso de 170 mil votos, e tem mais de 200 mil millennials [geração entre 25 e 36 anos] em São Francisco. Tenho que convencê-los a sair de casa para votar em mim.”

Democratas da Califórnia dizem que aquele que ficar em segundo lugar na corrida do próximo ano será o herdeiro político da presidente da Câmara.

O mandato de deputado nos EUA é de dois anos, e esta deve ser a última vez que Pelosi, 79, concorre a uma cadeira no Congresso.

Os comitês democratas que dão apoio a jovens candidatos do partido fazem justamente essa promessa a Agatha.

A presidente da Câmara dos Deputados dos EUA, a democrata Nancy Pelosi, durante entrevista em Washington
A presidente da Câmara dos Deputados dos EUA, a democrata Nancy Pelosi, durante entrevista em Washington - Win McNamee - 27.jun.19/Getty Images/AFP

“Alguns me disseram que não é uma prioridade concorrer contra Nancy, mas, se eu ficar em segundo lugar em 2020, eles dizem que aí os apoios e recursos virão com facilidade.”

As primárias na Califórnia estão marcadas para março de 2020. Os dois primeiros colocados, independentemente do partido, vão para a eleição geral.

Ao lado da brasileira, Tom Gallagher e Shahid Buttar estão na corrida para tentar vencer ou se colocar na fila atrás de Pelosi, e outros nomes podem entrar na disputa até lá.

A filha da presidente da Câmara, Christine, e a prefeita de São Francisco, London Breed, aparecem como possíveis sucessoras da deputada.

As dificuldades de ser desconhecida e enfrentar políticos muito mais experientes sem apoio do partido são só parte do que Agatha precisa superar.

Ela pediu demissão de uma empresa na qual trabalhava há cinco anos para se dedicar à política e tem pouco dinheiro para fazer campanha.

Até o segundo trimestre deste ano, havia arrecadado cerca de US$ 9,3 mil, mais da metade de seu próprio bolso.

Buttar, por exemplo, que ficou em terceiro lugar na eleição do ano passado, arrecadou o dobro disso. Pelosi, por sua vez, costuma fazer campanha na casa dos milhões.

Desde que decidiu disputar uma eleição, em 2018, após trabalhar como voluntária para registrar eleitores e ouvir lamúrias sobre o cansaço em relação à política tradicional, Agatha se deparou com conselhos desanimadores.

Membros do partido diziam que era melhor não se candidatar ou então esconder que era rival de Pelosi ao pedir votos.

 

“No começo me assustei. Estava preocupada de estar fazendo algo ruim. Tinha gente me dizendo que ela era a única que enfrentava [o presidente Donald] Trump de frente e, contra ela, eu dividiria ainda mais os votos e o apoio democrata.”

Preferiu, porém, ouvir aqueles que diziam gostar da presidente da Câmara, mas nunca tiveram uma opção com perspectivas mais arejadas à disposição na Califórnia.

Mudar a maneira de fazer política e ser um candidato cada vez mais próximo e presente no dia a dia do eleitor não é novidade nas eleições americanas.

O discurso remete à inspiração óbvia de Agatha, a deputada democrata Alexandria Ocasio-Cortez, eleita por um distrito de Nova York em 2018 e destaque entre a ala progressista de oposição a Trump.

“Ela é muito inspiradora, assisto aos seus vídeos no Instagram todo santo dia”, afirma.

“Estava pensando em entrar na política antes de ela ganhar, e quando realmente ganhou me fez acreditar que é possível. Se eu vencer, serei a primeira brasileira eleita ao Congresso americano.” 

A congressista democrata Alexandria Ocasio-Cortez durante entrevista em Washington
A congressista democrata Alexandria Ocasio-Cortez durante entrevista em Washington - Alex Wong - 27.jun.19/Getty Images/AFP
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