Descrição de chapéu The New York Times

Como mulheres teriam recrutado garotas para bilionário americano abusador

Acusado de fazer sexo com menores, Jeffrey Epstein foi encontrado morto na cadeia

The New York Times

​Haley Robson era uma estudante de 16 anos do ensino médio, do sul da Flórida, quando um conhecido da escola a abordou em uma piscina local com uma oferta interessante: ganhar dinheiro extra fazendo massagens em um bilionário em Palm Beach.

Ela concordou. Quando Jeffrey Epstein tentou apalpá-la enquanto ela estava lhe fazendo massagem, vestindo nada além de uma tanga, ela afastou a mão dele, disse Haley Robson em depoimento, em 2009, em um processo civil.

Ela ainda foi mais uma dezena de vezes à mansão de Epstein, mas em um novo papel lucrativo: recrutadora de outras adolescentes de sua escola.

"Eu não precisava convencê-las", disse ela no depoimento. “Eu fazia a proposta e elas aceitavam.”

Ghislaine Maxwell, uma das suspeitas de buscar garotas para Epstein
Ghislaine Maxwell, uma das suspeitas de buscar garotas para Epstein - Laura Cavanaugh - 20.set.13/AFP

Após o suicídio de Epstein em uma cela em Manhattan no início de agosto, as autoridades federais voltaram a investigar os mais de meia dúzia de funcionários, namoradas e colaboradores nos quais, dizem os promotores, ele confiava para alimentar seu apetite insaciável por meninas, segundo duas pessoas com conhecimento do inquérito.

Haley Robson, agora com 33 anos, fazia parte desse grupo de pessoas.

Uma análise do New York Times sobre ações judiciais, registros e depoimentos judiciais abertos para consulta, além de novas entrevistas, apresenta alegações graves sobre como esse pequeno grupo de mulheres ajudou Epstein.

A urgência da investigação sobre as colaboradoras de Epstein foi reforçada na terça-feira, quando cerca de duas dúzias de mulheres, diante de um tribunal lotado em Manhattan, apresentaram relatos dolorosos de como elas foram sexualmente abusadas por ele.

Várias delas imploraram aos promotores federais que continuassem investigando as mulheres no círculo íntimo de Epstein.

"Jeffrey não está mais aqui, mas as mulheres que o ajudaram estão", disse Teresa Helm, que contou ter sido recrutada para o mundo de Epstein há 17 anos.

O procurador para o Distrito Sul de Nova York, Geoffrey S. Berman, cujo gabinete apresentou as acusações contra Epstein, disse após o suicídio dele que a investigação da conspiração sobre tráfico sexual não havia terminado.

Uma das mulheres sob investigação, a ex-namorada de Epstein, Ghislaine Maxwell, foi acusada em vários processos de alta repercussão de supervisionar as atividades para aliciar meninas e jovens mulheres para ele, acusação que ela negou categoricamente.

Mas Epstein também é acusado em ações civis de confiar em uma rede organizada de subordinados: aqueles que treinavam as meninas para satisfazê-lo sexualmente; assistentes de escritório que reservavam carros e viagens, além de recrutadores que garantiam que ele sempre tivesse um novo fornecimento de adolescentes à disposição.

Nenhum dos colaboradores de Epstein foi acusado. Mas as autoridades federais estão planejando possíveis acusações, disseram as duas pessoas com conhecimento da investigação.

Quatro mulheres foram apontadas como possíveis “co-conspiradoras” e receberam imunidade penal em um acordo judicial amplamente criticado que Epstein fez com promotores federais da Flórida há mais de uma década.

As quatro —Sarah Kellen, Lesley Groff, Adriana Ross e Nadia Marcinkova— ainda podem estar sujeitas a acusações criminais em Nova York.

Três mulheres alegaram em ações judiciais que o grupo de tráfico sexual de Epstein operava com uma hierarquia, tendo o bilionário e Ghislaine Maxwell como chefes.

"Ela orquestrava tudo para Jeffrey", disse Sarah Ransome, que processou Maxwell e outros colaboradores em 2017.

Ghislaine, filha do magnata da imprensa britânica Robert Maxwell, era companheira de longa data de Epstein.

"Eles eram como parceiros de negócios", disse Janusz Banasiak, administrador da casa de Epstein, em depoimento. O mordomo de Epstein, Alfredo Rodriguez, descreveu Ghislaine em depoimento como "a chefe".

Nem Ghislaine nem seus advogados responderam aos pedidos de entrevistas para esta reportagem.

As acusadoras de Epstein argumentam em documentos judiciais que Ghislaine gerenciava a rede de recrutadores e ajudou a elaborar o manual de como atrair jovens mulheres para a rede de Epstein.

Os recrutadores teriam sido orientados a visar mulheres jovens desesperadas financeiramente e a prometer-lhes ajuda para melhorar sua educação e carreira, de acordo com essas acusações cíveis.

Virginia Roberts Giuffre disse em depoimento que tinha 16 anos quando conheceu Ghislaine.

Ela disse que se lembrava do argumento da recrutadora: se ela fizesse massagem em um homem rico, um mundo inteiro de oportunidades se abriria para ela.

“Se o cara gosta de você, sabe, as coisas dão certo para você”, Virginia contou em depoimento sobre o que Ghislaine teria lhe dito. "Você vai ganhar um bom dinheiro."
 

A 'tenente'

Logo abaixo de Ghislaine, na cadeia de comando, estava Sarah Kellen, que foi acusada em vários processos de buscar meninas para fazer sexo com Epstein em sua mansão em Palm Beach.

Ela foi chamada de "tenente" em um processo. David Rodgers, piloto de Epstein, disse em depoimento que Sarah era "como uma assistente de Ghislaine".

Sarah mantinha nomes e telefones de todas as meninas que faziam massagens eróticas em Epstein, de acordo com os relatórios policiais de Palm Beach e o depoimento de Haley Robson, e as chamava sempre que Epstein estava na cidade.

"Ela se considerava a chefe", disse Spencer T. Kuvin, advogado de West Palm Beach que representou várias acusadoras em ações judiciais.

"Sarah era quem realmente administrava essa organização, trazendo e retirando meninas da casa de Palm Beach."

Sarah não respondeu aos pedidos de entrevista. Seus advogados não responderam aos pedidos para comentar o caso.

Jennifer Araoz (centro), uma das mulheres que acusam Epstein de abuso sexual - Yana Paskova - 27.ago.2019/AFP

As assistentes

Lesley Groff, assistente-executiva de Epstein por quase 20 anos, foi uma das possíveis co-conspiradoras citadas no acordo de 2008.

Ela disse em uma entrevista de 2005 ao New York Times que era responsável por atender o telefone e administrar a agenda de Epstein.

Mas Sarah Ransome disse em seu processo que Lesley, hoje com 53 anos, também organizava viagens e acomodações para as adolescentes e jovens que faziam massagens eróticas em Epstein.

O advogado de Lesley Groff, Michael Bachner, disse que sua cliente trabalhava como parte de uma equipe de profissionais.

"Em nenhum momento durante o tempo em que Lesley trabalhou para Epstein, ela se envolveu em má conduta e nunca organizou viagens para menores de 18 anos", disse Bachner.

Outra das assistentes de Epstein, Adriana Ross, também foi citada como possível co-conspiradora no acordo de 2008.

Quando a polícia de Palm Beach estava investigando Epstein em 2005, Adriana retirou três computadores da mansão na Flórida, disse Banasiak, administrador da casa, em depoimento.

Adriana Ross não respondeu às ligações e aos emails pedindo comentários.

"Quanto mais você faz, mais você ganha"

Nadia Marcinkova, ex-modelo e piloto, foi investigada pela polícia de Palm Beach em 2005.

Uma menina de 16 anos disse aos detetives que estava fazendo massagem em Epstein quando ele disse que ela poderia ganhar US$ 200 a mais se fizesse sexo oral em Nadia Marcinkova.

A garota concordou com relutância, de acordo com os relatórios da polícia de Palm Beach. Esse encontro foi o primeiro de muitos encontros sexuais que a adolescente disse à polícia que foi forçada a ter, tanto com Nadia quanto com Epstein.

Os registros policiais também mostram que os investigadores tinham indicações de que Nadia era menor de idade quando se envolveu com Epstein.

Nadia se recusou a responder perguntas sobre o suposto abuso de meninas por Epstein quando depôs em um processo, invocando a Quinta Emenda.

Contatados pelo New York Times, os advogados de Nadia Marcinkova, Erica T. Dubno e Aaron Mysliwiec, disseram que, "como outras vítimas, ela está e foi severamente traumatizada" e "precisa de tempo para processar e entender o que ela passou antes de poder para se pronunciar”. 

Os promotores podem enfrentar questões legais delicadas ao decidir se acusarão algumas das colaboradoras de Epstein, como Haley Robson e Nadia Marcinkova, já que elas mesmas podem ter sido vítimas inicialmente.

“Determinar a responsabilidade criminal é sempre uma decisão complexa se uma pessoa foi explorada por sexo e depois usada para recrutar outras pessoas”, disse Lauren Hersh, ex-promotora de tráfico sexual.

"Se elas não tivessem sido exploradas, elas não teriam feito isso", disse. "Torna-se muito, muito complicado."

Haley Robson não estava entre as quatro mulheres que receberam imunidade no acordo da Flórida.

Mas seu papel na operação de Epstein foi significativo o suficiente para que a polícia de Palm Beach planejasse acusá-la mais de uma década atrás, de acordo com uma declaração do detetive principal.

Ela também foi processada duas vezes e descreveu seu papel na operação de Epstein em um depoimento.

Quando Epstein voava para a Flórida, Haley disse que recebia uma ligação de Sarah Kellen. As duas planejavam a logística.

"Eu arrumava uma garota que estaria disponível para certas datas e horários", disse Haley em depoimento em 2009.

As meninas sabiam no que estavam se metendo, disse Haley Robson. As regras eram implícitas, mas eram entendidas. "Quanto mais você faz, mais você ganha", disse Haley no depoimento.

Procurada pelo New York Times, Haley Robson respondeu: "Não tenho nada a dizer".

Tradução de AGFox

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