Descrição de chapéu Brexit

Conheça o 'rottweiler' do brexit que quer tirar Reino Unido da UE de qualquer jeito

Braço direito de Boris Johnson, Dominic Cummings comanda ala linha-dura do governo britânico

Lucas Neves
Paris

Não há meias palavras para descrever Dominic Cummings, 47, o conselheiro que rapidamente se firmou como homem-forte do novo governo britânico, liderado por Boris Johnson.

Rottweiler, carreirista psicopata e Rasputin (o monge que foi a eminência parda de Nicolau 2º, último czar da Rússia) são algumas das imagens e expressões usadas por analistas e ex-colegas (ou chefes) para retratar esse entusiasta da saída do Reino Unido da União Europeia (UE) –com ou sem acordo.

Dominic Cummings, assessor especial do premiê Boris Johnson, deixa sua casa em Londres
Dominic Cummings, assessor especial do premiê Boris Johnson, deixa sua casa em Londres - Hannah McKay - 20.ago.19/Reuters

Segundo a imprensa inglesa, Cummings é um dos artífices do plano de forçar um brexit em 31 de outubro, a atual data-limite definida pela UE, e marcar eleições gerais para dias depois da ruptura.

Se a cronologia vingasse, seria possível rotular Johnson como “o premiê que concretizou” a separação definida no plebiscito de junho de 2016.

Isso tudo porque espera-se que, na volta de seu recesso de verão, no começo de setembro, o Parlamento britânico vote uma moção de desconfiança na gestão recém-iniciada.

Vinda da oposição, a proposta já teria simpatizantes na ala do Partido Conservador (governista) que defende um divórcio negociado com o bloco de 27 países.

Cummings não tem paciência nem tempo para essa turma. Políticos e servidores de carreira são para ele espantalhos, burocratas anódinos que só atrasam a tomada de decisões e a marcha do progresso.

Só não está claro qual progresso o conselheiro tem no horizonte.   

Ecoando um discurso cada vez mais comum, diz ser apartidário e simplesmente “seguir projetos” de seu agrado.

Obcecado por física, matemática e computação, demonstra apreço por uma abordagem hiper-racionalista, cientificista da política.

Nessa linha, já escreveu que partidos deveriam ser abolidos em prol de um sistema comandado por técnicos selecionados entre os jovens mais brilhantes do país e treinados para a vida pública desde os 15 anos.

No que diz respeito ao brexit, a aversão de Cummings ao establishment se manifesta na convicção de que o desligamento britânico da UE tiraria o funcionalismo e a máquina do governo do suposto torpor em que se encontram há 46 anos –desde a adesão ao consórcio.

O adeus ao bloco, seguindo esse raciocínio, ofereceria uma janela de oportunidade para sair da inércia, da delegação de poderes a Bruxelas (sede da governança europeia).   

Não é à toa que se atribui a ele a criação do slogan “retomar o controle” (“take back control”), martelado com sucesso três anos atrás pela campanha pró-saída da UE.

O egresso de Oxford (onde cursou história) foi um dos pontas de lança do movimento eurofóbico. No fim dos anos 1990, já havia capitaneado a mobilização contra a adoção por Londres da moeda comum.  

Desde o plebiscito de junho de 2016, os métodos da equipe do “leave” (sair) são alvo de suspeitas.

O jornal The Observer, por exemplo, mostrou que a campanha a favor do brexit destinou quase metade de seu borderô a uma empresa canadense ligada à Cambridge Analytica, firma de extração e análise de dados pessoais investigada pela atuação na eleição que levou Donald Trump à Casa Branca.

Há um ano, a Comissão Eleitoral do Reino Unido condenou os dirigentes do “leave” por gastarem mais do que o permitido.

Em março passado, Cummings se recusou a testemunhar diante de uma comissão de deputados que apura a interferência de notícias falsas na consulta popular sobre o brexit.

A proeminência do agora conselheiro naquela votação está registrada no telefilme "Brexit", em que seu papel é interpretado por Benedict Cumberbatch (o Sherlock Holmes da série homônima).

Bem antes do cataclismo que desorientou a política britânica, o estrategista passou uma temporada na Rússia tentando colocar nos ares uma companhia aérea. Não deu certo.

Antes dos 30, virou assessor do então líder do Partido Conservador, Iain Duncan Smith, mas o voo foi ainda mais curto: ele saiu da função depois de oito meses, chamando o chefe de incompetente.

Em 2010, quando os conservadores voltaram ao poder, Cummings virou chefe de gabinete do ministro da Educação, Michael Gove.

Ao longo dos quatro anos que passou no posto, conquistou a fama de workaholic, irascível e marcial.

Despediu-se vestindo a carapuça, ao descrever o então premiê David Cameron como “esfinge sem rugas”, e o ministro David Davis, responsável à época pela condução do brexit, estúpido, preguiçoso e vaidoso.

Na função de agora, segundo jornais locais, Cummings disse a auxiliares que sofrerão represálias se vazarem qualquer informação.

É possível que resida nesse ímpeto bélico a razão que fez Johnson trazê-lo novamente para as raias do governo.

O premiê precisa de um general de pulso firme e convicção inabalável para liderar as tropas rumo a um divórcio litigioso daqui a dois meses, “sem ‘ses’ ou ‘poréns’”, como ele disse ao assumir.

O comandante dos bastidores tem, no entanto, uma nota dissonante em seu currículo impecavelmente antieuropeu: conforme revelou o mesmo Observer, ele é coproprietário de uma fazenda que recebeu um total de 235 mil libras (R$ 1,1 milhão, na conversão atual) em ajudas da UE de 2000 a 2009 –e também em 2014, 2017 e 2018.  

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