Descrição de chapéu The Washington Post

Em campanha, favorito a enfrentar Trump conta história emocionante e falsa

Ato de heroísmo de militar americano relatado por Joe Biden mistura casos diferentes

Matt Viser Greg Jaff
Hanover (EUA) | The Washington Post

Joe Biden pintou uma cena vívida para as 400 pessoas reunidas no salão nobre de uma faculdade.

Um general quatro estrelas pedira ao então vice-presidente que fosse à província de Kunar, no Afeganistão, uma incursão perigosa num “fim de mundo”, para homenagear o heroísmo notável de um capitão da Marinha.

Algumas pessoas lhe disseram que seria arriscado demais, mas Biden teria descartado essas preocupações.

“Podemos perder um vice-presidente. Mas não podemos perder mais desses jovens. Não estou brincando”, disse.

Biden recordou na noite de sexta-feira (23) que o capitão da Marinha desceu um paredão de 18 metros com rapel, sob fogo inimigo, e recuperou o corpo de um companheiro americano, carregando-o nas costas.

Agora o general queria que Biden condecorasse o herói americano com uma Estrela de Prata. Apesar de sua bravura, o capitão sentia que tinha fracassado.

O ex-vice presidente Joe Biden, que disputa a indicação democrata, durante evento na Carolina do Sul
O ex-vice presidente Joe Biden, que disputa a indicação democrata, durante evento na Carolina do Sul - Sean Rayford/Getty Images/AFP

“Ele falou: ‘Senhor, não quero nada!’”, contou Biden, com o maxilar cerrado e a voz se elevando em um grito. “Não ponha isso em mim! Por favor, senhor. Não faça isso. Ele morreu. Ele morreu!”

A sala estava em silêncio.

“Essa é a verdade de deus”, disse Biden quando contou a história. “É minha palavra de Biden.”

Só que quase todos os detalhes da história parecem ser incorretos.

Com base em entrevistas feitas com mais de uma dúzia de militares americanos, seus comandantes e funcionários da campanha de Biden, parece que o ex-vice-presidente confundiu elementos de pelo menos três incidentes reais, juntando-os em uma só história de bravura, compaixão e pesar –uma história que nunca aconteceu.

Biden visitou a província de Kumar em 2008, quando era senador, não vice-presidente.

O militar que realizou o resgate descrito por Biden foi um especialista do Exército de 20 anos de idade, não um capitão da Marinha muito mais velho. 

E Biden nunca prendeu uma Estrela de Prata sobre o uniforme daquele soldado, Kyle White.

Numa cerimônia na Casa Branca, seis anos após a visita de Biden a Kumar, o presidente Barack Obama pendurou uma Medalha de Honra, a mais elevada condecoração nacional por bravura, no pescoço de Kyle White.

Resultado: bastaram três minutos para Biden errar o momento no tempo, o local, o ato heroico, o tipo de medalha, o ramo das Forças Armadas e o grau militar do homenageado, além do papel que ele próprio exerceu na cerimônia.

Um elemento da história contada por Biden é fundamentada num acontecimento real.

Em 2011 o vice-presidente de fato prendeu uma medalha no uniforme de um soldado, o sargento do Exército Chad Workman, que estava arrasado e achou que não merecia a honra.

Em comunicado na quinta-feira (29), o porta-voz da campanha de Biden, Andrew Bates, disse que a bravura de Workman foi “emblemática do serviço e dos sacrifícios feitos pela geração de veteranos do 11 de setembro”.

A campanha de Biden não contestou nenhum dos fatos publicados na reportagem do jornal The Washington Post, publicada na tarde de quinta (29).

Em entrevista ao colunista de opinião do Washington Post Jonathan Capehart depois de a reportagem ser publicada, Biden sugeriu que teria contado a história de Workman em New Hampshire, embora quase nenhum dos detalhes que relatou correspondessem ao que de fato ocorreu com Workman.

“Eu quis destacar como essas pessoas são valorosas, como é incrível essa geração de guerreiros, esses anjos caídos que perdemos”, disse Biden. “Não sei qual é o problema. O que foi que falei de errado?”

Em sua campanha presidencial, Biden, 76, vem cometendo gafes e fazendo afirmações equivocadas que remetem a seus problemas políticos passados e chamam a atenção para sua idade.

Em 1987, Biden desistiu da corrida presidencial em meio a acusações de que teria plagiado os discursos de um político britânico e de outras pessoas.

Uma grande pergunta com que se defrontam candidatos e eleitores mais de 30 anos depois é se as mentiras contadas rotineiramente por Donad Trump mudaram os critérios pelos quais devem ser julgados outros candidatos à Presidência, incluindo Biden.

Entre o início de sua Presidência e o meio de julho. Trump já fez mais de 12 mil afirmações falsas ou enganosas, segundo contabilizou o Washington Post. E ele continua a elevar esse total desde então.

Joe Biden vem usando histórias de guerra para elogiar os sacrifícios de militares e criticar a versão de patriotismo de Trump, baseada na agressividade e no poder de fogo.

Como Trump, o ex-vice-presidente nunca serviu nas Forças Armadas. Mas seu filho Beau Biden, morto de câncer cerebral em 2015, foi enviado ao Iraque como advogado do Exército em 2008, e o candidato encerra quase todos seus discursos dizendo “Deus proteja nossos soldados”.

Na história da medalha contada por Biden estão embutidos os elementos fundamentais de sua longa carreira: experiência e conhecimento de política externa, patriotismo e perseverança em meio à dor.

O primeiro relato público que Biden apresentou de sua viagem à província de Kunar, feito pouco após seu retorno, no início de 2008, foi fiel aos fatos em sua maior parte, mas menos carregado de emoção que as versões que ele contaria mais tarde durante a campanha.

Em 2008 o então senador Joe Biden, acompanhado pelos senadores Chuck Hagel, republicano do Nebraska, e John Kerry, democrata do Massachusetts, voaram de helicóptero da Base Avançada de Operações de Naray, próxima da fronteira do Afeganistão com o Paquistão.

Ali, observaram enquanto o general David Rodriguez entregou uma Estrela de Bronze por bravura ao especialista Miles Foltz, que enfrentou fogo pesado do Taleban para resgatar um soldado ferido.

O especialista Tommy Alford manejava sua metralhadora sobre uma coluna quando um projétil do Taleban atravessou seu maxilar e pescoço. 

Foltz arrastou Alford atrás de uma pedra, estancou sua hemorragia e assumiu a arma de seu amigo.

Dois soldados morreram na emboscada, mas Alford sobreviveu e chegou a retornar à unidade alguns meses mais tarde para concluir seu turno de combate.

“O que Foltz fez naquele dia exigiu muita coragem”, comentou o coronel da reserva Chris Kolenda, que foi o comandante de Foltz no Afeganistão. “Foi espantoso. Ele salvou muitas vidas.”

Para Foltz, a recordação da visita de Biden e da Estrela de Bronze ainda é emocionante, mas também triste.

“Escrevi sobre isso numa aula de inglês na faculdade”, comentou. “Não me lembro exatamente como expressei, mas é como se a medalha me ajudasse a reprimir meu sentimento de culpa por tudo o que eu deixei de fazer naquele dia.”

Biden voltou de sua viagem em 2008 preocupado com a ideia de que os EUA estariam perdendo a guerra e comovido pela cerimônia de entrega da medalha no campo de batalha.

Em discurso ao Conselho de Relações Exteriores, comentou: “Sei que isso soa um pouco sentimental, mas acho que não havia ninguém no recinto que não tivesse ficado com lágrimas nos olhos”.

Ele parece ter parado de contar a história até o verão de 2016, quando a campanha presidencial estava a pleno vapor e Trump estava despontando na dianteira das pesquisas.

Em julho desse ano, Biden contou a história numa cerimônia na Austrália ligada à Segunda Guerra Mundial.

Nessa versão, Foltz, um soldado jovem, tinha dado lugar a um capitão da Marinha apócrifo e bem mais velho que, segundo o relato de Biden, “desceu um paredão de uns 60 metros” e recuperou seu amigo ferido, que morreu.

A Estrela de Bronze ganhou um upgrade: virou Estrela de Prata.

Dessa vez, Biden disse que foi ele, não o general, quem pregou a estrela no peito do oficial. “Senhor, com todo o devido respeito, não quero isso”, Biden disse que o oficial lhe falou.

Meses mais tarde, quando a campanha presidencial polarizada e hostil de 2016 se intensificou, a história de Biden sobre a entrega da medalha foi ganhando tons mais lancinantes e menos exatos.

Ele a contou num comício em outubro da candidata democrata Hillary Clinton, respondendo a comentários de Trump sugerindo que alguns soldados não teriam a força mental necessária para encarar os rigores do combate.

Dessa vez Biden deslocou a história do Afeganistão para o Iraque. Em vez de descer uma ravina com rapel, um capitão do Exército tirou um soldado morto de um veículo militar incendiado.

“Ele morreu. Ele morreu, sr. vice-presidente”, Biden disse que se recordava de ouvir o militar lhe dizer. “Não quero a medalha.”

Fazendo um gesto no ar com seu dedo indicador, Biden gritou: “Quantas noites esse rapaz teve que tentar dormir enxergando essa imagem na cabeça, tentando passar por cima dela?”.

O Pentágono não tem nenhum registro de um capitão do Exército recebendo uma Estrela de Prata no Iraque no período citado por Biden.

Três meses mais tarde, enquanto fazia comício por Jason Kander, veterano da Guerra do Afeganistão que se candidatou ao Senado pelo Missouri, Biden contou as versões iraquiana e afegã em sequência, no mesmo discurso.

Primeiro foi o capitão da Marinha quem desceu a ravina em Kunar, com a ajuda de cordas. “Ele morreu. Ele morreu. Eu não mereço”, o soldado agraciado com a medalha teria dito a Biden.

Em seguida, Biden falou do oficial do Exército, do Humvee incendiado e do Iraque. “Esta é a verdade de Deus”, disse Biden.

“Quando me aproximei dele em plena formação, ele sussurrou para mim: ‘Senhor, senhor, não me dê isso, por favor. Não prenda isso no meu peito. Ele morreu, senhor. Ele morreu. Eu não fiz meu trabalho. Ele morreu'.”

Então, na sexta-feira, chegou a vez de New Hampshire ouvir a história. O palco foi uma reunião aberta ao público para falar de saúde.

Alguém fez uma pergunta sobre saúde mental, e Biden começou a falar em transtorno de estresse pós-traumático e do custo pesado das guerras no Iraque e Afeganistão.

Ele tirou sua agenda diária do bolso de seu blazer azul, com um pin no formato de bandeira americana preso à gola.

Nos últimos 13 anos a rotina diária de Biden incluiu uma contagem dos mortos e feridos americanos nas diversas zonas de guerra pelo mundo.

“Todo dia eu telefono ao Departamento de Defesa –estou falando a sério— para saber exatamente quantos homens e mulheres foram mortos no Afeganistão e Iraque”, contou aos presentes.

“Não há nada que me incomode mais do que ouvir alguém dizer que morreram aproximadamente 6.000 militares americanos. Não –eram 6.883 até hoje pela manhã.”

E então Biden contou a versão mais recente, e possivelmente mais distante da realidade, de sua história do Afeganistão.

“Já entrei e saí do Afeganistão e Iraque mais de 30 vezes”, disse (sua campanha esclareceu mais tarde que o número correto é 21).

Biden falou da província de Kunar, do capitão da Marinha –“a Marinha, a Marinha”, destacou—, a ravina profunda, o amigo morto e o momento em que Biden pregou a medalha sobre o uniforme do militar.

A versão da história que é verdadeira –e igualmente comovente— é uma que Biden raramente relata.

Aconteceu não na província de Kunar, mas em Wardak, logo ao sul de Cabul. O militar que recebeu a medalha foi Workman, 35, que entrara em um veículo em chamas para salvar seu amigo à beira da morte.

Quando Workman conseguiu abrir a porta do veículo e mergulhou dentro das chamas, já era tarde demais.

“Nunca cheguei a tirá-lo lá de dentro, porque ele já estava derretendo”, recordou Workman em entrevista por telefone que deu nesta semana na base conjunta Lewis-McChord, perto de Tacoma, no estado de Washington.

O comandante da companhia de Workman lhe disse que o vice-presidente lhe daria uma Estrela de Bronze por seu heroísmo.

“Tentei dar um jeito para não ir”, contou Workman, que desde então foi promovido a primeiro sargento. “Eu não queria aquela medalha.”

Mesmo assim, em 11 de janeiro de 2011, um dia cinzento e frio, Workman bateu continência enquanto Biden prendeu a medalha em seu peito.

O momento foi imortalizado numa foto que está na Casa Branca e numa entrevista que Biden deu à revista National Geographic em 2016.

Veja como Biden se recorda do que aconteceu: “Eu vi a expressão dele. Ele estava dizendo ‘senhor, não quero. Não quero a medalha. Ele morreu. Ele morreu’.”

A versão contada por Workman é igual, mas com um detalhe a mais. Ele se recorda de Biden ter olhado em seus olhos. Workman disse ao vice-presidente que não queria a medalha.

“Sei que você não quer”, Biden respondeu em tom suave.

Hoje, oito anos mais tarde, Workman ainda se lembra de como Biden olhou para ele.

“Ele tem aquele olhar em que os olhos dele enxergam dentro dos meus olhos”, falou Workman. “Senti que ele realmente me compreendeu.”

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