Ernesto Araújo diz não ter ilusões de que kirchnerismo 2.0 seja diferente do 1.0

Em entrevista ao Clarín, chanceler comparou Alberto Fernández a matrioska, com Cristina, Lula e Chávez dentro

São Paulo

Em entrevista ao jornal argentino Clarín publicada nesta segunda-feira (19), o chanceler Ernesto Araújo disse não ter "muitas ilusões de que o kirchnerismo 2.0 seja diferente do 1.0".

Segundo Ernesto, a "roupagem de racionalidade" econômica que o candidato oposicionista à Presidência da Argentina Alberto Fernández vem mostrando nas entrevistas recentes seria apenas um conjunto de frases de efeito, que não difeririam de seu verdadeiro passado peronista.

Contudo, o chanceler não detalhou situações passadas do candidato para ilustrar sua fala.

O chanceler Ernesto Araújo - Pedro Ladeira/Folhapress

Conhecido pela postura conciliadora, Fernández é um peronista de longa trajetória —trabalhou no governo de Carlos Menem (1989-1999), foi uma das figuras mais importantes da administração Néstor Kirchner (2003-2007) e depois chefe de gabinete na primeira gestão de Cristina Kirchner.

Mas ele se transformou em um crítico do governo e acabou se afastando da então mandatária. Antes de lançar sua candidatura a presidente, Fernández tentou criar uma via do meio dentro do peronismo, sem obter sucesso.

Apesar disso, ficou conhecido por estabelecer diálogo entre correntes distintas no governo e no Congresso, o que lhe garantiu a fama de moderado.

Ao Clarín, o ministro das Relações Exteriores do governo brasileiro comparou Fernández a uma matrioska, brinquedo artesanal russo caracterizado por reunir uma série de bonecas de tamanhos variados colocadas uma dentro das outras.

"Há Alberto Fernández. Você o abre e encontra Cristina Kirchner, a abre e encontra Lula, e depois Chávez." 

Ernesto advertiu que o governo brasileiro não aceitará a reversão do Mercosul ao estado em que, segundo ele, encontrava-se durante os governos Lula e Dilma, no Brasil, e Néstor e Cristina Kirchner, na Argentina: um "centro de coordenação política" sem resultados econômicos.

O chanceler criticou Fernández e sua vice, Cristina Kirchner, por usarem o Mercosul "para fins ideológicos". 

"Havia a sombra de um Mercosul em que não havia comércio interno, no qual, durante o governo Kirchner, a Argentina colocava barreiras muito altas aos produtos brasileiros, violando o compromisso de livre comércio e sendo tolerada por governos brasileiros anteriores em detrimento de nosso interesse, mas em nome de um projeto ideológico ligado ao Foro de São Paulo, do qual esses governos faziam parte."

Tal ligação seria um dos motivos pelos quais a administração Bolsonaro cogitou deixar o Mercosul, logo após a vitória nas eleições e antes da posse. O outro seria o suposto bloqueio do bloco às negociações do acordo com a União Europeia, que se arrastaram por décadas até o pacto ser firmado neste ano, já na gestão atual do governo brasileiro.

​Mesmo que Fernández tenha dito que não pretende fechar a economia argentina caso eleito, Ernesto disse que tal afirmação não dissipa as preocupações do governo brasileiro, e que seria preciso considerar o passado político do candidato para ter ideia do que ele realmente pretende fazer —mas não citou situações que ilustrassem seu argumento. 

Para ele, a ideia de Bolsonaro é, junto com o presidente argentino, Mauricio Macri, construir um Mercosul que negocie ativamente com o resto do mundo, tanto em relação ao acordo comercial já fechado com a União Europeia quanto com a perspectiva de negociação com os Estados Unidos. O trabalho aconteceria em função de uma visão comum "de abertura, de competitividade" das duas administrações.

Ernesto comparou Fernández de maneira negativa a Lula, que teria criado um país "com problemas de corrupção, estagnação econômica, e de uma economia que não consegue proporcionar empregos aos brasileiros". 

Por fim, disse que não há diálogo com o candidato oposicionista por dois motivos. Primeiro, por considerar "muito complicada" a visita de Fernández a Lula na prisão, que teria sido ofensiva contra as instituições e o processo judicial brasileiro porque os cidadãos se mobilizaram para apoiar as investigações da Lava Jato. Segundo, pelo fato de Fernández ter chamado Bolsonaro de racista

Ao ser perguntado se seria possível frear a escalada de ofensas, disse que "ninguém quer" essa escalada.

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