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Denúncia sobre promessa de Trump a líder estrangeiro liga alerta nos EUA

Parte das alegações envolveria a Ucrânia; outros países podem estar implicados

Washington | The Washington Post

A denúncia de um informante que provocou tensão entre o setor de inteligência dos EUA e o Congresso envolve diálogos do presidente Donald Trump relacionados à Ucrânia, de acordo com duas pessoas familiarizadas com o assunto.

A interação de Trump incluiu uma promessa que foi considerada tão preocupante que levou um funcionário a registrar uma queixa formal junto ao inspetor-geral da área de inteligência do governo americano, afirmaram duas ex-autoridades, que concordaram em falar sob condição de anonimato.

A denúncia foi feita cerca de 20 dias após o líder americano conversar por telefone com Volodimir Zelenski, presidente da Ucrânia, que foi eleito em maio. 

Segundo um resumo do contato feito pelo governo ucraniano, Trump afirmou durante o telefonema que estava convencido de que a gestão de Zelenski rapidamente melhoraria a imagem do país e investigaria denúncias de corrupção que "marcavam a interação" entre as duas nações. 

De acordo com membros do governo americano envolvidos na condução da política externa, Rudolph Giuliani, advogado de Trump e ex-prefeito de Nova York, encorajou o governo ucraniano a investigar questões que poderiam constranger os adversários políticos do presidente e ajudar sua campanha à reeleição. 

Segundo esses funcionários, a atuação de Giuliani criou a impressão de que o apoio de Trump a Zelenski estava condicionado à disposição do governo ucraniano de realizar esse tipo de investigação. 

O jornal New York Times relatou que a queixa do informante não envolveria apenas uma promessa de Trump, mas múltiplas, nem se restringiria ao contato com um só líder estrangeiro.

O telefonema entre Trump e Zelenski já estava sendo investigado pela Câmara dos Deputados, onde o Partido Democrata, de oposição, tem maioria. Os parlamentares requisitaram uma transcrição completa do diálogo e uma lista com os nomes daqueles que participaram da ligação.

A chamada faz parte de inquérito que busca determinar se Trump e Giuliani tentaram manipular o governo ucraniano para que ele ajudasse na campanha de reeleição do americano.

O presidente Donald Trump visita muro na fronteira dos EUA com o México, na Califórnia
O presidente Donald Trump visita muro na fronteira dos EUA com o México, na Califórnia - Nicholas Kamm - 18.set.19/AFP

O episódio levanta novas questões sobre o tratamento de informações confidenciais pelo presidente e pode prejudicar ainda mais seu relacionamento com as agências de espionagem dos EUA.

A Casa Branca não respondeu aos pedidos de comentários. O Gabinete do Diretor da Inteligência Nacional (DNI, na sigla em inglês) e um advogado que representa o denunciante não quiseram se manifestar.

O inspetor-geral do setor de inteligência, Michael Atkinson, determinou que a denúncia era verossímil e preocupante o suficiente para classificá-la como uma questão de “preocupação urgente”, um limite jurídico que exige que as comissões de supervisão do Congresso sejam notificadas.

Mas o diretor em exercício da inteligência nacional, Joseph Maguire, se recusou a compartilhar com os parlamentares detalhes da suposta transgressão de Trump, desencadeando uma disputa política e legal que provocou especulações de que ele estaria protegendo inadequadamente o presidente.

Maguire concordou em testemunhar perante a Comissão de Inteligência da Câmara na próxima semana, de acordo com uma declaração do presidente do órgão, o deputado democrata Adam Schiff. 

A denúncia foi registrada no gabinete de Atkinson em 12 de agosto, data em que Trump estava em seu clube de golfe em Nova Jersey.

Os registros da Casa Branca indicam que o presidente teve conversas ou interações com pelo menos cinco líderes estrangeiros nas cinco semanas anteriores, além de ​Zelenski.

Entre elas, havia um telefonema com o presidente russo, Vladimir Putin, que a Casa Branca iniciou em 31 de julho.

Trump também recebeu pelo menos duas cartas do líder norte-coreano, Kim Jong Un, durante o verão, descrevendo-as como mensagens “lindas”. 

Em junho, Trump disse publicamente que se opunha a certas operações de espionagem da CIA contra a Coreia do Norte.

Referindo-se a uma reportagem do Wall Street Journal de que a agência havia recrutado o meio-irmão de Kim, Trump disse: “Eu diria a ele que isso não aconteceria sob meus auspícios”. 

Trump se reuniu com outros líderes estrangeiros na Casa Branca em julho, incluindo o primeiro-ministro do Paquistão, o primeiro-ministro da Holanda e o emir do Qatar.

A condução de informações sigilosas pelo republicano tem sido motivo de preocupação para as autoridades de inteligência dos Estados Unidos desde o início de sua Presidência. 

Em maio de 2017, Trump revelou informações confidenciais sobre operações de espionagem na Síria a altas autoridades russas no Salão Oval, o que provocou a ação de funcionários da Casa Branca para limitar os possíveis danos.

Declarações e cartas trocadas entre os escritórios do DNI e a Comissão de Inteligência da Câmara nos últimos dias apontaram para a Casa Branca sem implicar diretamente o presidente.

Schiff disse ter sido informado de que a denúncia dizia respeito à “conduta de alguém fora do setor de Inteligência”. 

Jason Klitenic, conselheiro-geral do DNI, afirmou em uma carta enviada aos líderes do Congresso na terça-feira (17) que a atividade na origem da denúncia “envolve comunicações confidenciais e potencialmente privilegiadas”. 

A disputa colocou Maguire, que assumiu o cargo no DNI após a renúncia de Daniel Coats no mês passado, no centro de um conflito politicamente perigoso com implicações constitucionais.

​Schiff exigiu a divulgação completa da denúncia. Maguire defendeu sua recusa, afirmando que o assunto está fora da jurisdição da comissão de deputados. 

Os defensores do diretor contestam o argumento de que ele esteja subvertendo os requisitos legais para proteger Trump, dizendo que ele foi apanhado em uma situação jurídica legítima e que deixou claro seu descontentamento com autoridades do Departamento de Justiça e da Casa Branca.

Depois de receber a denúncia em 12 de agosto, Atkinson a enviou a Maguire duas semanas depois. Por lei, Maguire é obrigado a transmitir essas queixas ao Congresso dentro de sete dias.

Mas nesse caso ele se absteve de fazê-lo depois de pedir orientação jurídica a membros do Departamento de Justiça.

Em um sinal do desconforto de Atkinson com essa situação, o inspetor-geral informou às Comissões de Inteligência da Câmara e do Senado sobre a existência da denúncia —sem revelar seu conteúdo— no início de setembro.

Schiff respondeu com indignação quase imediata, disparando uma carta que exigia uma cópia da denúncia e avisando que estava preparado para intimar autoridades de inteligência dos Estados Unidos. 

O DNI afirmou que os advogados determinaram que não havia exigência de notificação porque a queixa do denunciante não constituía uma preocupação urgente “dentro da responsabilidade e autoridade” do escritório de Maguire.

Especialistas jurídicos disseram que há cenários em que as comunicações de um presidente com um líder estrangeiro podem chegar ao nível de uma “preocupação urgente” para o setor de inteligência, mas também observaram que o presidente tem ampla autoridade para decidir unilateralmente quando tornar as informações sigilosas ou não.

Revelar como os EUA obtiveram informações confidenciais pode “comprometer meios e métodos de inteligência e potencialmente a vida das fontes”, diz Joel Brenner, ex-inspetor-geral da Agência de Segurança Nacional.

Não ficou claro se o denunciante testemunhou a comunicação do presidente americano com o líder estrangeiro ou a soube por outros meios. 

Resumos dessas conversas geralmente são distribuídos entre a equipe da Casa Branca, embora o governo tenha imposto novos limites a essa prática depois que se soube das revelações feitas por Trump a autoridades russas.

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