Descrição de chapéu

Dou benefício da dúvida a Trudeau por algo que ele não perdoaria

Condenar premiê implica saber primeiro qual foi o contexto e qual foi a intenção

João Pereira Coutinho
Lisboa

O escritor e doutor em ciência política João Pereira Coutinho escreveu, a pedido da Folha, artigo de opinião no qual argumenta que o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, tem o direito de defesa no caso do vazamento de fotos nas quais aparece com o rosto pintado com tinta marrom, gesto considerado racista.

Em oposição, o antropólogo e crítico de arte Hélio Menezes traz artigo no qual interpreta a atitude como condenável. Seu texto pode ser lido neste link.

Leia, abaixo, o texto de João Pereira Coutinho.

Justin Trudeau, o premiê mais politicamente correto que o Ocidente produziu em toda a sua história, enfrenta um escândalo sério em plena campanha eleitoral. Motivo?

No passado, quando tinha 20 e tal anos, pintou o rosto de marrom em festas colegiais. O premiê canadense, confrontado com as fotos, já veio lamentar os seus pecadilhos racistas. Mas também acrescenta que não sabe quantas vezes se entregou ao delito.

O premiê canadense em foto de 2001, em que aparece com rosto pintado de marrom  - Reprodução

Confesso: nada me daria mais prazer do que ver um moralista da virtude a cair do seu pedestal pela força do moralismo alheio. Quem com ferros mata, com ferros morre. 

O homem que corrigia os outros por dizerem “mankind”, e não “peoplekind”, afinal entregava-se ao “brownface” e ao “blackface”?

Essa última palavra —“blackface”— evoca uma história de horror. Falo dos “minstrel shows”, bastante comuns na América do século 19, nos quais atores brancos gostavam de pintar o rosto de negro para divertir as plateias.

Não eram espectáculos inocentes, claro: nesses shows, os negros eram apresentados como seres infantis, idiotas, sub-humanos —ou, pior ainda, como escravos felizes nas suas plantações de fantasia. 
Um dos personagens mais conhecidos desses vaudevilles infames dava pelo nome de Jim Crow, uma criação do ator (branco) Thomas Rice. 

Posteriormente, Jim Crow deixou de ser apenas o nome de um personagem e passou a designar todo o sistema de segregação racial no sul dos Estados Unidos.

Por outras palavras: o crime do “blackface” precisa de um contexto e de uma intenção. No século 19, o contexto era óbvio (a supremacia branca escravocrata, embora os shows fossem sobretudo populares no norte do país) e a intenção era óbvia também (manter os negros numa posição de inferioridade moral e intelectual).

Condenar Justin Trudeau implica saber primeiro qual foi o contexto e qual foi a intenção. As festas serviam para ele ridicularizar, humilhar ou violentar as minoriais? Ou eram apenas festas de 
álcool e idiotia, sem a intenção declarada de causar dano a terceiros?

Como não gosto de vestir os trajes de moralista público, dou o benefício da dúvida ao premiê canadense, coisa que Justin Trudeau e outros jacobinos como ele jamais dariam a gente “impura”.

Até porque não é de excluir que uma visão literalista de tudo —rosto pintado = racismo— transforme qualquer gesto ou brincadeira, por mais inocentes que sejam, em crimes de lesa-majestade.

Como sustentar que uma fantasia de caubói não será em breve uma apologia do grande genocídio americano? Como afirmar, honestamente, que posar de Pocahontas não será uma apropriação colonialista? E quem disse que um homem heterossexual vestido de mulher em pleno Carnaval não representará um insulto aos verdadeiros travestis?

Esse literalismo acusatório, onde você é condenado pelas aparências sem possibilidade de defesa, é típico do pensamento totalitário. Ou, em menor grau, do tipo de pensamento que um progressista intolerante como Justin Trudeau praticou como político.

João Pereira Coutinho é escritor e doutor em ciência política pela Universidade Católica Portuguesa

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