Descrição de chapéu

'Humor' advindo do 'blackface' praticado por Trudeau pode ser tudo, menos inocente

Caso do primeiro-ministro pôs luz sobre o privilégio de brancos de ignorar as pautas e produções intelectuais negras

Hélio Menezes
São Paulo

O antropólogo e crítico de arte Hélio Menezes escreveu, a pedido da Folha, artigo de opinião no qual argumenta que o gesto racista do primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, é condenável.

Em oposição, o escritor e doutor em ciência política João Pereira Coutinho traz artigo no qual se coloca a favor do direito de defesa do primeiro-ministro. Seu texto pode ser lido neste link.

Leia, abaixo, o texto de Hélio Menezes.

O "blackface" começou a aparecer de maneira sistemática nas primeiras décadas do século 19, em shows de menestréis e peças de “humor” no teatro dos EUA, em plena vigência do modelo escravista.

A prática, realizada a partir da atuação de atores brancos com o rosto pintado de preto, consistia em ridicularizar personagens afro-americanos, sobretudo escravizados, apresentando-os como preguiçosos, malvados, subservientes ou ardilosos.

O premiê canadense em foto de 2001, em que aparece com rosto pintado de marrom  - Reprodução

Desde então, o "blackface" vem sendo reproduzido em peças, filmes e publicações, apresentando-se sob novas formas e linguagens no cotidiano, em caraterizações supostamente humorísticas, como a “Nega Maluca”, mas que na realidade só reforçam e criam novas violências simbólicas sobre grupos sociais e raciais já excluídos e marginalizados.

Nos últimos dias, o assunto voltou a ser tema de discussão internacional, após a divulgação de fotografias do primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, com o rosto pintado de preto

O politico admitiu o erro, do qual se desculpou sob a alegação de não compreender, mesmo sendo docente de uma escola privada à época, que se tratava de uma prática historicamente racista.

O “humor” advindo dessa prática pode ser tudo, menos inocente: ao distorcer características físicas e culturais de origem africana, o "blackface" normaliza e torna “natural” um tipo de imagem e de imaginação sobre pessoas negras que integram uma longa tradição colonial de desumanização, reduzindo-as a tipos, personagens genéricos, fantasias a serem vestidas.

Ao passo que reforça, por contraste relacional, um imaginário social do branco como superior, cultivado e universal.

Nas entrelinhas desse tipo de humor, ecoa a presunção, talvez inconsciente, mas inconfessável, da plateia em se colocar em oposição àqueles que são o alvo do riso, dessa prática que o jurista Adilson Moreira acertadamente cunhou de “racismo recreativo”.

A reiteração do "blackface" produz, ainda, maior dificuldade de inserção de atores negros na produção cultural, garantindo uma boa reserva de mercado a atores brancos, que passam a interpretar (e a lucrar com) todo tipo de personagem, mesmo os afrodescendentes. 

O gesto do premiê canadense reacendeu o debate sobre a dimensão estrutural do racismo, que se manifesta mesmo em gestos não deliberados.

E, por conseguinte, pôs luz sobre o privilégio de sujeitos brancos como Trudeau —abastado, influente, com acesso aos melhores cursos universitários— de ignorar as lutas, pautas e produções acadêmicas e intelectuais negras, chegando com (muito) atraso a um debate já antigo.

Afinal, a objeção a esse tipo de prática vem sendo realizada há muito tempo; não se trata, definitivamente, de uma novidade ou discussão recente.

No Brasil, ao menos desde a década de 1940, ativistas e intelectuais negros vêm criticando de maneira contundente o uso de maquiagem em artistas brancos visando a mimetizar tons de pele negra.

Vale lembrar, por exemplo, que Abdias Nascimento fundou o Teatro Experimental do Negro (TEN) no Rio de Janeiro, em 1944, justamente após ter visto, naquele mesmo ano, uma montagem da peça "O Imperador Jones", de Eugene O'Neill, na qual um ator branco interpretava o personagem principal com o rosto pintado de preto.

No ano seguinte, o TEN apresentou a mesma peça, dessa vez com um elenco inteiramente negro, no Teatro Municipal do Rio, acompanhado de críticas cada vez mais fortes a esta e outras práticas preconceituosas no campo das artes.

Críticas que a intelectualidade e a classe artística brancas no Brasil, tal como Trudeau, talvez só mais recentemente tenham começado a se inteirar.

O agora, porém, é sempre o melhor momento da mudança, da ampliação do olhar e da bibliografia.

James Baldwin tinha razão. “Nem o amor nem o terror deixam a gente cega: só a indiferença faz isso.”

 

Hélio Menezes é antropólogo e crítico de arte, foi um dos curadores da mostra ‘Histórias Afro-Atlânticas’, no Masp e Instituto Tomie Ohtake

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