Exposição itinerante aborda história de negros perseguidos pelo nazismo

Para tentar tirar assunto da invisibilidade, Museu do Holocausto de Curitiba promove evento no RS

Katna Baran
Curitiba

“Por que vamos para Berlim? Para sermos invisíveis.” A conversa encenada no filme “Onde as Mãos Tocam”, da cineasta britânica-ganense Amma Asante, mostra a tentativa de uma mãe branca de proteger a filha negra da perseguição nazista nas décadas de 1930 e 1940.

Apesar de ficção, a história é baseada em registros que apontam a existência de milhares de negros e mestiços na Alemanha no período. Acuados pelo regime, muitos deles foram esterilizados para manter a preservação da “raça pura”.

Na tentativa de tirar da invisibilidade essas histórias da época, mais conhecida pelo sofrimento judeu, o Museu do Holocausto de Curitiba promove a exposição itinerante “Nossa Luta: A Perseguição aos Negros durante o Holocausto”, que marca os 80 anos do início da 2ª Guerra Mundial.

A mostra fica até 17 de setembro na Câmara Municipal de Porto Alegre. 

Ao menos 25 mil negros viviam na Alemanha na época da ascensão do partido nazista. Eles foram alvo de perseguições idênticas às impostas ao povo judeu: não podiam ter relações com pessoas de “sangue alemão”, foram excluídos de escolas, submetidos à esterilização e a experimentos médicos. Alguns desapareceram.

A mostra tem como proposta contar trajetórias individuais. Uma delas é a de Theo Wonja Michael, filho de pai camaronês e mãe alemã. Ele teve o passaporte recolhido no período e se tornou apátrida. Rodou a Europa num zoológico humano, em que negros eram expostos como seres exóticos.

Theo foi convidado pelos nazistas para participar de um filme, que na verdade era uma propaganda nazista. E ficou preso em um campo de concentração por um ano, até sua liberação, em 1943. Hoje, vive em Colônia, na Alemanha, e é membro ativo da comunidade negra local.

Ao contrário dos judeus, os negros nunca foram indenizados pelos ataques sofridos. 

O historiador Michel Ehrlich, curador da mostra, aponta como motivos para isso a quantidade menor de negros atingidos, na comparação com os judeus, e a falta de preservação dos registros desta perseguição.  

Ehrlich aponta que mesmo as potências vencedoras da guerra, como os EUA, não poderiam escancarar esse tema, já que os próprios americanos segregaram os negros.

Além da mostra, que passa até o final do ano por seis cidades do país, o Museu do Holocausto de Curitiba prepara outros materiais, sobre a perseguição a pessoas com deficiência e homoafetivas.

“Utilizamos o Holocausto como ferramenta para transmitir princípios. A personificação facilita o processo educativo”, diz o coordenador-geral do museu, Carlos Reiss.

Nossa Luta: A Perseguição aos Negros durante o Holocausto - Câmara Municipal de Porto Alegre - av. Loureiro da Silva, 255, Centro Histórico, Porto Alegre, RS. Seg. a sex.: 8h30 às 18h. Até 17/9. GRÁTIS

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