Filme relembra 11 de Setembro pela ótica de jovens imigrantes de escola vizinha às torres

Jovens imaginavam que ataques dariam fim a sonho americano que nutriam

João Perassolo
São Paulo

Há 18 anos, estudantes de uma escola pública de Nova York acompanharam das janelas de suas salas de aula as torres do World Trade Center serem atacadas e desmoronarem.

Com idade média de 15 anos, os jovens eram descendentes de coreanos, ucranianos, bengaleses e de imigrantes de outros países que foram fazer a vida nos EUA. Eles cursavam o último ano do ensino secundário no colégio Stuyvesant, a poucos quarteirões do WTC, ao sul de Manhattan.

A Quatro Quadras das Torres: O 11 de Setembro em Stuyvesant hbo divulgação
Cena do filme "A Quatro Quadras das Torres: o 11 de Setembro em Stuyvesant" - HBO/Divulgação

Hoje adultos e bem-sucedidos profissionalmente, eles rememoram o atentado que inaugurou o século 21 no documentário “A Quatro Quadras das Torres: o 11 de Setembro em Stuyvesant”, que estreia nesta quarta (11) na HBO.

Os depoimentos explicitam a perplexidade com o que viram. Os jovens imaginavam que os ataques dariam fim ao seu sonho americano, por terem herdado dos familiares a idealização de que os Estados Unidos eram o país perfeito.

A diretora Amy Schatz conta que não era sua intenção inicial focar comunidades étnicas que viriam a sofrer represálias após o atentado, mas sim fazer um filme para crianças.

“Estava interessada em falar com ex-alunos da escola porque pensava que a experiência de jovens durante o 11 de Setembro seria interessante para um programa [sobre os ataques] voltado a crianças”, diz. “Foi por acidente que encontrei esses entrevistados.”

Os personagens do filme foram escolhidos por terem participado de uma peça de teatro sobre o 11 de Setembro apresentada na escola Stuyvesant nas semanas seguintes à queda das torres. Era uma forma de os adolescentes lidarem com o horror que vivenciaram.

Enquanto colhia os depoimentos para o documentário, Schatz se deu conta de que o conteúdo valia um filme à parte do projeto voltado para quem não era nascido antes do 11 de Setembro. 

Um dos entrevistados relembra a história de uma garota chamada Nazia: ela fugia do local dos atentados e, pelo fato de vestir um hijab (véu usado por algumas mulheres muçulmanas para cobrir a cabeça), foi chamada de “vadia”.

Aquele momento seria um dos primeiros de uma espécie de vingança desencadeada em Manhattan contra comunidades de imigrantes do Oriente Médio e do Sudeste Asiático, então responsabilizadas pelos atentados que deixaram 2.753 mortos.

Nos meses seguintes, muçulmanos e paquistaneses perderam empregos, e mesquitas foram pichadas com palavras de ódio —episódios pouco enfatizados pela imprensa à época, segundo o documentário.

Quase duas décadas mais tarde, não é difícil compreender como tal desprezo ainda persiste nos EUA.

Logo após assumir a Presidência, em janeiro de 2017, Donald Trump baniu temporariamente vistos de cidadãos de sete países, a maioria deles muçulmanos.

Além das conhecidas imagens dos aviões se chocando com os arranha-céus, o documentário de cerca de 30 minutos traz cenas impressionantes da multidão abandonado os prédios ao redor das torres. 

Milhares de pessoas corriam desesperadas enquanto os edifícios colapsavam e o céu era engolfado por uma gigantesca nuvem de fumaça. 

Jatos de guerra sobrevoavam a região, e o metrô não funcionava, o que só aumentou o caos.

​Schatz, documentarista com especialidade em produções para crianças a respeito de temas sensíveis como o Holocausto e as mudanças climáticas, não abandonou a ideia de fazer um filme sobre o atentado para os pequenos.

Seu outro documentário, “O Que Aconteceu em 11 de Setembro”, de tom didático e conteúdo mais leve, também será lançado nesta quarta (11).

A Quatro Quadras das Torres: o 11 de Setembro em Stuyvesant

  • Quando Estreia na quarta (11), às 22h, na HBO e HBO GO
  • Produção EUA, 2019
  • Direção Amy Schatz
Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.