Em mostra, Susan Meiselas joga luz sobre caos de sandinistas e curdos

Fotógrafa da agência Magnum expõe imagens de conflitos em retrospectiva de 50 anos de carreira

João Perassolo
São Paulo

A fotografia mostra um blusão branco de mangas compridas muito sujo após ter sido desenterrado. Outra imagem exibe um acessório roxo que parece um lenço feminino, disposto ao lado de duas longas tranças de cabelo.

Ambos os itens foram desenterrados de valas comuns: são resquícios dos milhares de curdos que moravam no norte do Iraque e foram dizimados pela ditadura de Saddam Hussein no final dos anos 1980.

A Operação Anfal se valeu de bombardeios, deportações em massa e do uso de gás mostarda e sarin para eliminar cerca de 100 mil pessoas que o governo iraquiano considerava um problema à unidade nacional.
As imagens fazem parte da mostra “Susan Meiselas: Mediações”, que entra em cartaz na terça (15), no Instituto Moreira Salles de São Paulo.

Trata-se de uma retrospectiva de meio século do trabalho de uma das mais importantes fotógrafas de conflitos sociais contemporâneos.

Meiselas registrou os rastros da devastação no Iraque três anos após o fim da operação. Há imagens de casas destruídas em ruas desertas, de um muro onde uma pintura com o rosto de Saddam foi apagada e de um jovem baleado nas costas —ele sobreviveu ao ataque e testemunhou no julgamento do ditador, em 2015.

“Não estava vendo uma comunidade viva, mas olhando para os mortos. Então a questão era: por que Saddam queria aniquilar os curdos? Quem são eles?”, diz Meiselas, completando que a única forma de fazer o trabalho no Curdistão era olhar para o passado.

Maior nação apátrida do mundo, com entre 30 e 40 milhões de pessoas com cultura e idioma próprios, os curdos lutam há décadas para terem um Estado independente.

A exposição chega a São Paulo no momento em que a etnia luta contra uma nova onda repressiva —a Turquia iniciou nesta semana uma ofensiva aos curdos no norte da Síria.

O ataque começou após o presidente dos EUA, Donald Trump, ordenar que as tropas americanas, até então aliadas dos curdos, deixassem a região.

No início dos anos 1990, “George H. Bush inspirou os [curdos] no Iraque a se rebelarem contra Saddam, mas os americanos não vieram protegê-los, e isto é exatamente o que está acontecendo agora, em uma repetição da história”, afirma Meiselas. “Nós não os protegemos, eles estão totalmente vulneráveis de novo.”

Presidente da agência Magnum, a fotógrafa de 71 anos ganhou reconhecimento internacional no final dos anos 1970, quando documentou o levante popular na Nicarágua que pôs fim à ditadura de décadas da família Somoza.

Ela partiu de Nova York, onde morava, para Manágua, sozinha e sem conhecer ninguém. Chegou dias antes de o general Anastasio Somoza Debayle ser deposto e permaneceu pelas semanas seguintes —uma parede na mostra exibe imagens deste período, em uma narrativa visual preparada pela artista.

Em 1979, o retrato do sandinista Pablo de Jesus “Bareta” Araúz segurando uma metralhadora com uma mão e arremessando um coquetel molotov com a outra correu o mundo em jornais e revistas, oferecendo um ícone para a revolução.

“O Homem Molotov”, eleita pela revista Time como uma das imagens mais importantes da história, tem uma ala especial na exposição. O retrato virou uma espécie de ícone pop, “como o Che, mas menos comercializado e mais restrito à Nicarágua”, diz Meiselas.

Um ano depois de ter registrado aquele momento, ela se deparou com caixas de fósforos estampadas com um desenho da imagem, a primeira vez que via seus registros fora das páginas da imprensa. “Comprei um monte e levei para casa. Foi incrível.”

Susan Meiselas: Mediação

  • Quando Ter. a dom. e feriados, das 10h às 20h. Qui., das 10h às 22h. Abertura ter. (15), às 18h. Até 1º.mar.20
  • Onde IMS Paulista, av. Paulista, 2424
  • Preço Grátis
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