Protestos violentos contra aumento de tarifas fecham metrô de Santiago

Governo invocou Lei de Segurança de Estado para punir manifestantes que depredarem sistema

Santiago | AFP

Uma série de protestos violentos contra o aumento de preço das tarifas de transporte levou ao fechamento do metrô de Santiago, no Chile, nesta sexta-feira (18). Ônibus, estações e edifícios foram incendiados, e houve saques e confrontos de manifestantes com a polícia.

O governo invocou uma lei de segurança que estabelece penas mais duras contra quem causar danos ou impedir o funcionamento de estabelecimentos públicos e privados de serviços básicos. 

Recrutados nas redes sociais sob o lema #EvasionMasivaTodoElDia (evasão massiva o dia todo), milhares de pessoas —principalmente estudantes—  se organizaram ao longo desta semana para derrubar os portões das estações, destruir as catracas e passar pelos controles de acesso para protestar pelo aumento das passagens (3,75%) nos horários de pico. As manifestações se intensificaram entre a quinta-feira (17) e esta sexta.


A empresa ferroviária metropolitana informou que a totalidade do metrô de Santiago, que transporta cerca de 3 milhões de passageiros por dia, deixou de operar após ataques de manifestantes.

"Toda a rede de metrô se encontra fechada por distúrbios e destroços que impedem contar com as condições mínimas de segurança para passageiros e trabalhadores", anunciou a empresa por meio de uma mensagem no Twitter.

Na noite desta sexta, o edifício da companhia elétrica Enel, localizado no centro da cidade, foi incendiado. O fogo foi parcialmente controlado após uma hora. Bombeiros tentam apagar as chamas. Não se sabe se há relação entre esse incêndio e os protestos.

Prédio da Enel em Santiago pega fogo em meio a caos de protestos contra aumento de tarifas de metrô
Prédio da Enel em Santiago pega fogo em meio a caos de protestos contra aumento de tarifas de metrô - Javier Torres/AFP

A Enel —questionada pela alta nas tarifas de eletricidade— informou que, por volta das 22h, "um grupo de desconhecidos atacou as dependências do prédio", mas todo o pessoal que trabalhava no local conseguiu sair ileso.

Perto dali, um supermercado foi atacado e saqueado, revelou a TV local.

Várias estações do metrô também foram incendiadas com coquetéis molotov.  

Com base no aumento do preço do petróleo, no dólar e na modernização do sistema, o valor do bilhete do metrô de Santiago nos horários de pico (de manhã e à tarde) subiu de 800 (cerca de R$ 4,63) para 830 pesos (R$ 4,80). Desde 2010, não havia um aumento dessa proporção. 

O aumento não afetou o valor das passagens para estudantes e idosos, mas se soma ao aumento geral de 20 pesos (R$ 0,12) nas tarifas decretadas em janeiro passado. 

O ministro do Interior, Andrés Chadwick, anunciou nesta sexta que o governo decidiu invocar a Lei de Segurança de Estado, que permite acelerar processos judiciais e aplicar penas mais rígidas contra quem destruir o patrimônio público.

Na tarde desta sexta-feira, os protestos —que não têm um líder aparente— já haviam paralisado as operações nas linhas 1 e 2, que cruzam o centro de Santiago, na linha 6 e em dezenas de estações em outras rotas. 

O fechamento forçou os usuários do metrô a subirem à superfície, sobrecarregando o sistema de ônibus da cidade e tendo que caminhar pelas ruas para suas casas, evitando conflitos entre a polícia e os manifestantes.

Na estação de La Moneda, em frente à sede do governo, dezenas de manifestantes depredaram instalações no início da tarde. A polícia respondeu com jatos d'água e bombas de gás lacrimogêneo.

Horas mais tarde, os protestos aumentaram, com manifestantes atirando paus e pedras em direção às forças policiais, que reagiram com o uso de carros de choque. A sede do governo foi cercada por um perímetro de segurança. 

Na quinta-feira, os protestos deixaram 133 presos após ações simultâneas em pelo menos cinco das 164 estações, com danos calculados pela empresa estatal em 400 e 500 milhões de pesos (cerca de R$ 2,3 milhões).

Moradora de Santiago há quatro anos, a engenheira florestal brasileira Liviam Cordeiro, 46, teve que caminhar mais de uma hora para ir do trabalho para casa. Ela pegou metrô de manhã normalmente, mas na hora de ir embora, às 17h, encontrou uma multidão na rua e a estação fechada. “A cidade parou. Estava um caos. Os pontos de ônibus completamente cheios, o trânsito colapsado.”

Liviam não conseguiu pegar Uber e não encontrou bicicletas nem patinetes para alugar. Depois de meia hora, decidiu caminhar parte dos 12 quilômetros do trajeto. Parou para descansar e, após 20 minutos, conseguiu um táxi para o restante do deslocamento. No total, levou mais de quatro horas para chegar em casa. “Os chilenos têm bastante costume de protestar e costumam fazer manifestações com frequência, mas desta vez foi diferente, mais impactante”, afirma.

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