Turquia aciona tropas na fronteira com a Síria e prepara ataque

Ação ocorre após Trump ordenar retirada de militares americanos

Patrícia Campos Mello
São Paulo

A Turquia reforçou nesta terça-feira (8) suas posições militares na fronteira com a Síria e afirmou estar pronta para atacar as forças curdas sírias.

As forças armadas turcas “nunca irão tolerar o estabelecimento de um corredor terrorista em nossa fronteira. Os preparativos para a operação estão completos”, escreveu o ministério da Defesa em postagem em uma rede social. 

caminhões do exército carregam cargas
Exército turco avança em direção à fronteira com a Síria  - Bulent Kilic/AFP

Ancara considera terroristas as milícias curdas sírias que vivem no nordeste do país e compõem as Forças Democráticas da Síria (SDF). 

Os curdos sírios eram os principais aliados dos EUA na região e foram a força mais efetiva no combate ao grupo terrorista Estado Islâmico (EI).

No entanto, no domingo (6), o presidente Donald Trump sinalizou por meio de diversos tuítes que estaria abandonando os curdos ao retirar as tropas americanas da região, abrindo caminho para a invasão turca.

“Já está na hora de sairmos dessas ridículas guerras sem fim e trazermos nossos soldados de volta”, disse.

Dezenas de soldados americanos deixaram a área de segurança na segunda-feira (7). Após sua retirada, comboios turcos de caminhões com soldados e dezenas de veículos militares foram enviados para a região da fronteira.

Após uma saraivada de críticas, Trump pareceu recuar. 

“Estamos no processo de sair da Síria, mas não estamos abandonando os sírios, que são um povo especial e guerreiros maravilhosos”, disse. Ele também ameaçou a Turquia em mensagem numa rede social. “Se a Turquia fizer algo que eu considere fora dos limites, vou destruir totalmente a economia turca”, disse.

Mas os turcos disseram que não iriam se curvar a ameaças, e Trump depois moderou a retórica contra a Turquia e anunciou uma visita do presidente Recep Erdogan à Casa Branca em 13 de novembro.

“O estabelecimento de uma zona de segurança é essencial para que sírios possam ter uma vida segura”, disse o ministério turco de Defesa, aludindo ao plano do presidente Erdogan de reassentar até 2 milhões de refugiados sírios no nordeste da Síria, área atualmente ocupada pelos curdos.

A Turquia abriga a maior população de refugiados sírios do mundo —são 3,6 milhões de pessoas, que causam impacto à economia do país. A proposta de reassentar grande parte deles no território curdo alarmou entidades internacionais e tem o potencial de causar um desastre humanitário e conflitos. 

A maioria dos refugiados sírios na Turquia são árabes sunitas, o que poderia causar um conflito com os curdos que já moram naquela região.

Desde o início, o apoio americano aos curdos sírios, que foram essenciais no combate ao EI, foi um ponto de atrito entre os EUA a Turquia, que faz parte da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Os curdos sírios são alinhados com o Partido dos Trabalhadores Curdos (PKK) da Turquia, facção separatista que está na lista de organizações terroristas do país.

A retirada anunciada por Trump foi descrita como uma traição aos curdos, já que abre caminho para a invasão de Ancara. Erdogan pretende criar uma zona de segurança ao longo de 480 quilômetros de fronteira com Síria, e até 30 quilômetros para dentro do território sírio.  

Os curdos já estão se movimentando diante do que veem como uma traição dos EUA. Um porta-voz da SDF afirmou que, caso haja uma invasão turca, eles terão de retirar suas forças das prisões que abrigam prisioneiros do Estado Islâmico e de áreas recentemente liberadas da facção terrorista —há milhares de integrantes do EI em prisões administradas pelos curdos.

A SDF também anunciou que pode negociar com a Rússia e com o regime do ditador sírio Bashar al Assad para bloquear o ataque turco. 

O vice-ministro das relações exteriores da Síria, Faisal Mekdad, instou os curdos a ficarem do lado do regime. “A pátria recebe todos os seus filhos”, disse. O governo sírio “irá defender todo o território sírio e não aceitará a ocupação de nenhuma região”.

Com Reuters

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