Ucranianos sabiam da suspensão de ajuda dos EUA desde agosto

Novo fato na investigação do impeachment de Trump contraria defesa do presidente

São Paulo e Kiev (Ucrânia) | The New York Times

Congressistas republicanos que defendem o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, têm uma resposta simples para as acusações de que o mandatário teria feito uma troca de favores com a Ucrânia: não é possível fazer um toma lá, dá cá se o outro lado não sabe o que ganharia com o arranjo.

O "dá cá" de Trump, no caso, era a reabertura de uma investigação que envolvia o filho do democrata Joe Biden, um de seus principais adversários políticos e pré-candidato à Presidência. 

O "toma lá" era um pacote de ajuda militar de US$ 391 milhões (cerca de R$ 1,6 bilhão).

O imbróglio está no centro do inquérito de impeachment aberto na Câmara dos Representantes contra o líder americano

O pedido de Trump foi feito em um telefonema a seu par ucraniano, Volodimir Zelenski, em 25 de julho. Uma semana antes, no dia 18, o envio da ajuda foi suspenso, mas, à época, Kiev não foi informada.  

Se os ucranianos não sabiam o que ganhariam —ou se ganhariam algo— caso atendessem o americano, então não houve troca de favores, argumentam os apoiadores do presidente.  

No entanto, evidências encontradas nos últimos dias tornaram esse discurso difícil de sustentar.

Entrevistas e documentos obtidos pelo New York Times revelam que oficiais de Kiev tomaram conhecimento, na primeira semana de agosto, de que os recursos haviam sido suspensos e que a razão para isso não era burocrática —para reverter a situação, eles deveriam contatar o chefe interino de gabinete da Casa Branca, Mick Mulvaney.

O momento das comunicações sobre o congelamento, que não havia sido determinado antes, mostra que a Ucrânia tinha ciência de que a Casa Branca estava retendo os recursos semanas antes de oficiais dos dois países reconhecerem publicamente o fato.

Além disso, segundo a cronologia dos eventos, os oficiais ucranianos sabiam do problema enquanto o advogado pessoal de Trump, Rudy Giuliani, e dois diplomatas dos EUA pressionavam Zelenski a se comprometer publicamente a reabrir o inquérito mencionado pelo presidente americano. 

Mulvaney reconheceu em uma entrevista coletiva na semana passada que o envio do pacote foi suspenso por ordens de Trump, já que o presidente tinha dúvidas sobre um servidor de computadores do Comitê Nacional Democrata que supostamente estaria na Ucrânia.

A questão do servidor é uma teoria da conspiração já desmentida, segundo a qual a Ucrânia, e não a Rússia, teria interferido nas eleições de 2016 nos EUA. Para isso, um servidor de computadores do Comitê Nacional Democrata teria sido mantido em algum lugar na Ucrânia.

"Ele mencionou para mim no passado a corrupção ligada ao servidor do Comitê Nacional Democrata? Absolutamente. Sem dúvida", disse Mulvaney, referindo-se a Trump. "É por isso que retivemos o dinheiro."

Em seu depoimento a deputados na terça-feira (22), o mais alto diplomata americano na Ucrânia, Bill Taylor, afirmou que o congelamento das verbas estava diretamente ligado à pressão de Trump pela reabertura do inquérito. 

A acusação contra o filho do democrata Joe Biden, Hunter, já foi descartada, e o Ministério Público da Ucrânia afirmou que não encontrou nada de errado na atuação dele como membro do conselho de administração da empresa ucraniana Burisma. 

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