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Convulsões políticas e desafios econômicos para a Argentina

Alberto Fernández brigou com Bolsonaro e Trump, e sabemos que em 2020 inflação e recessão continuarão a fazer estragos

Alexander Güvenel
Latino América 21

O processo de transição na Argentina está muito focalizado em questões políticas nacionais e internacionais.

Disputas internas, divisão de cargos, simbologia política, uma América Latina extremamente volátil e até mesmo erros pessoais levaram o presidente eleito a ingressar em conflitos de política internacional, se descuidando, por enquanto, das definições no âmbito econômico, que é a área em que Alberto Fernández deveria se concentrar para enfrentar o déficit fiscal e a dívida pública, a desconfiança dos credores e investidores quanto a setores de seu governo e a falta de competitividade da economia e escassez de infraestrutura.

O ano de 2020 já aparece no horizonte com algumas certezas. Sabemos que a inflação e a recessão continuarão a fazer estragos, que as restrições à compra de moedas estrangeiras devem continuar e que a renegociação da dívida pública estará entre as prioridades da nova equipe econômica.

As eleições primárias da Argentina foram uma bomba considerável para uma economia já complicada. Os salários, que de janeiro a agosto haviam recuperado terreno com relação à inflação, voltaram a despencar por conta da desvalorização que surgiu como resultado da enorme diferença de votação em favor do então candidato Fernández.

As reservas do Banco Central argentino caíram para menos de US$ 20 bilhões, o risco-país quase triplicou e a incipiente recuperação terminou sepultada. Das primárias ao dia 27 de outubro, as medidas adotadas pelo governo tenderam à estabilização, praticamente a única variável que podia ser abordada nas circunstâncias.

O presidente eleito da Argentina, Alberto Fernández, concede entrevista depois de encontro com o presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez, em Montevidéu
O presidente eleito da Argentina, Alberto Fernández, concede entrevista depois de encontro com o presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez, em Montevidéu - Mariana Greif - 14.nov.2019/Reuters

Entre as vantagens com que poderia contar o governo de Alberto Fernández com relação ao de Mauricio Macri estão sua proximidade com os sindicatos e também com alguns empresários.

É dessa forma que surge a possibilidade de um acordo de preços e salários, para moderar a inflação. Uma ferramenta que nunca funcionou para controlar um fenômeno eminentemente monetário, mas que poderia servir como forma de conter os protestos por uma economia inerte. O acordo poderia resultar na baixa de alguns preços, enquanto são realizadas mudanças estruturais, se é que existe vontade de realizá-las.

Tendo em vista o acontecido na passagem anterior do kirchnerismo pelo poder, não pareceria haver muito espaço para que a solução do problema da inflação seja voltar a falsificar as estatísticas oficiais por meio de uma intervenção no Instituto Nacional de Estatísticas e Recenseamento (Indec, na sigla em espanhol), como aconteceu em 2007, quando o presidente eleito era chefe de gabinete do então presidente Néstor Kirchner.

No dia 17 de novembro, um conhecido colunista de humor político do jornal Clarín, Alejandro Borensztein, sinalizou com absoluta justiça que qualquer comerciante sabe que não deve comprar brigas com quem lhe empresta dinheiro e com quem compra seus produtos.

Ainda assim, nessas semanas de transição, Alberto Fernández brigou publicamente com o presidente Jair Bolsonaro, do Brasil, o principal parceiro comercial da Argentina, e com Donald Trump, presidente dos Estados Unidos e, como tal, maior cotista do Fundo Monetário Internacional (FMI), com quem a Argentina terá de renegociar sua dívida.

Não parecem decisões muito razoáveis, a não ser em termos de política interna. É provável que não seja difícil para Fernández se aproximar de Trump apesar desses curtos-circuitos superficiais, ainda que a relação entre ele e o líder brasileiro seja mais complexa, porque o apoio de Fernández ao recentemente libertado Luiz Inácio Lula da Silva não parece ser um detalhe menor.

Os principais desafios que a economia argentina enfrenta, para além dos ciclos de crescimento e recessão próprios de um pais instável, se mantêm inalterados: uma economia pouco competitiva, fruto, entre outras coisas, das leis trabalhistas restritivas que prejudicam a produtividade; um sistema de aposentadorias que requer uma reforma urgente para se tornar sustentável; uma proporção de economia informal que subsiste apenas por não ingressar no emaranhado de leis e impostos sobre o trabalho; um setor exportador que só é dinâmico e competitivo naquilo que se relaciona com a agricultura; um país grande e federal, onde são poucas as províncias que geram o superávit necessário a sustentar aquelas que só “produzem” empregos públicos; um importante déficit de infraestrutura, problema que o governo de Macri tentou resolver, e um setor cuja evolução deve ser prejudicada pela crise iniciada no ano passado.

São esses os desafios que o presidente eleito pela Frente de Todos terá de enfrentar, enquanto, como indica o nome de sua coalizão, lida também com as correntes internas do peronismo, um partido que sempre se considerou como um movimento e que conta com características anárquicas que só os líderes fortes foram capazes de enfrentar.

A novidade nesse verticalismo é que a pessoa que usará a faixa presidencial não é a que levou mais votos à coalizão; e se isso fosse pouco, a figura em questão é a polêmica Cristina Fernández de Kirchner, alvo de múltiplos processos, e cujas opções passarão por interferir diretamente na política do governo ou se concentrar em lidar com os diferentes processos que a envolvem, para o que certamente pedirá algum apoio ao candidato, agora presidente, que ela mesma selecionou.

Alexander Güvenel é cientista político e colunista de veículos como Clarín, La Nación, Perfil, Infobae e El Cronista, e do programa Las Cosas de la Vida, na FM Urquiza. É membro do Club Político Argentino.

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Tradução de PAULO MIGLIACCI

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