Após greve geral e 3 mortos, Colômbia vive saques e toque de recolher

Governo informou que 273 pessoas ficaram feridas e 98 foram detidas nos protestos de quinta

Bogotá | Reuters

A greve geral que levou 250 mil pessoas às ruas em várias cidades na Colômbia na quinta-feira (21) deixou três mortos, centenas de feridos, quase cem presos e um rastro de saques e confrontos espalhados por algumas cidades ainda nesta sexta. Bogotá e Cali enfrentaram toque de recolher pelo segundo dia seguido. 

De acordo com o ministro da Defesa, Carlos Homes Trujillo, todas as mortes aconteceram no departamento de Valle del Cauca, no sudoeste do país: duas na cidade de Buenaventura e uma em Candelaria.

Ele afirmou que as forças de segurança reagiram a manifestantes que atiraram paus e pedras enquanto um grupo tentava saquear o shopping Buenaventura Mall —nesse confronto, houve duas mortes. Não há informações sobre a terceira vítima.

Ativista chuta bomba de gás lacrimogêneo no segundo dia de protestos em Bogotá; greve geral deixou rastro de saques e confrontos por algumas cidades  - Luisa Gonzales/Reuters

Segundo os números oficiais, 122 civis e 151 policiais ficaram feridos. Após as manifestações, 11 investigações preliminares sobre irregularidades na atuação das forças de segurança foram iniciadas em Bogotá, Cali, Manizales e Cartagena.

A ONG Anistia Internacional informou que recebeu "testemunhos, fotos e vídeos extremamente alarmantes" de uso excessivo da força pela polícia.

Imagens que circularam nas redes sociais mostram policiais ameaçando manifestantes, incluindo a cena de um agente que chuta uma pessoa no rosto.

Em um pronunciamento na noite desta sexta, o presidente Iván Duque, que está há 15 meses no cargo, defendeu a presença da polícia e do Exército nas ruas, bem como o uso da lei seca e do toque de recolher.

Ele disse ainda que, em uma democracia, os protestos devem ser pacíficos e que é preciso rechaçar formas de violência que ponham em risco a vida dos cidadãos.

O presidente informou que a partir da próxima semana vai se reunir com diferentes setores da sociedade em busca de uma agenda social que “permita construir uma paz com legalidade”.

Com números reduzidos em relação à véspera, milhares de pessoas voltaram a se reunir na sexta na praça Bolívar, no centro de Bogotá, convocadas pelo ex-candidato presidencial da oposição, Gustavo Petro, após um panelaço na noite anterior.

"Estamos aqui para continuar protestando contra o governo Duque", disse Katheryn Martinez, estudante de arte de 25 anos, enquanto batia uma panela com um garfo, acompanhada por seu pai Arturo.

A capital registrou ainda confrontos entre manifestantes e policiais perto de estações de transporte público, afetadas por depredações e bloqueios. Houve saques a supermercados e ataques contra ônibus públicos.

Os moradores enfrentaram muitos problemas no transporte público, com estações de ônibus fechadas e ruas bloqueadas —a polícia usou bombas de gás lacrimogêneo para tentar liberar os bloqueios.

O prefeito de Bogotá, Enrique Peñalosa, anunciou que a venda de álcool está proibida desde o meio-dia desta sexta. Ele estima que a reparação dos danos causados pelos protestos custará milhões de dólares.

Cali, capital do departamento onde ocorreram as mortes e uma das cidades mais violentas do país, também registrou confrontos e saques nesta sexta —e comerciantes do centro da cidade fecharam as portas. 

Os protestos começaram na quinta com uma greve geral em que mais de 250 mil pessoas marcharam para expressar seu descontentamento com a gestão de Iván Duque, que enfrenta sua pior crise de popularidade desde que assumiu.

Os atos contaram com a participação de vários sindicatos, grupos de estudantes, indígenas e ambientalistas.

O presidente, que reconhece a legitimidade de algumas reivindicações, disse na quinta-feira que vai acelerar a agenda social de seu governo e que ouviu a queixa nas ruas, embora não tenha respondido ao pedido de diálogo direto dos promotores da greve.

A paralisação foi convocada em reação a uma reforma trabalhista e outra previdenciária que tinham sido propostas pelo governo.

No entanto, Duque negou repetidamente que planeja propor leis com as mudanças citadas por grupos de manifestantes —entre elas, a redução do salário dos jovens, a adoção de remunerações diferentes para cada região do país e a privatização de um fundo de pensão estatal.

Há também críticas à política de segurança focada na luta contra o narcotráfico e a tentativa do presidente de modificar o pacto de paz que levou ao desarmamento da antiga guerrilha das Farc em 2016

Já os indígenas exigem proteção após o assassinato de 134 membros da comunidade desde que Duque assumiu o cargo.

Outros grupos de manifestantes protestaram contra o que eles dizem ser falta de ação do governo para impedir o assassinato de centenas de ativistas de direitos humanos, a corrupção nas universidades e outras questões.

Diferentemente da greve de quinta, os atos de sexta não foram apoiados pela Confederação Geral do Trabalho.

​"Teremos que esperar alguns dias para ver quando vamos nos encontrar com o presidente", disse Julio Roberto Gomez, referindo-se às reuniões prometidas por Duque em um breve discurso na noite de quinta-feira.

A Colômbia, nação de 48 milhões de habitantes, tem crescimento econômico acima da média da América Latina, mas altas taxas de desigualdade e desemprego.


Por que os colombianos marcham?

A lista de reclamações e demandas nos protestos que tomaram a Colômbia nesta semana é diversificada e inclui:

Rejeição a reformas para flexibilizar o mercado de trabalho e o sistema de aposentadorias; o governo de Iván Duque, no entanto, nega que haja propostas de reformas nesse sentido

Questionamento da política de segurança, que é focada no combate ao narcotráfico

Proteção aos indígenas após o assassinato de 134 deles desde o início da gestão, há 15 meses
Aumento de recursos para educação pública

Rejeição ao assassinato de 170 ex-combatentes das Farc, que assinaram o acordo de paz em 2016; nos últimos meses, guerrilheiros dissidentes anunciaram o retorno à luta armada, acusando o governo de violar seus compromissos no tratado de paz

Fim da violência contra líderes sociais, que deixou 486 mortos entre 1º de janeiro de 2016 e 17 de maio de 2019, de acordo com levantamento divulgado pela Defensoria Pública
Fonte: Reuters e AFP


AMÉRICA LATINA CONVULSIONADA

Peru
Em 30.set, o presidente Martín Vizcarra dissolveu o Congresso após uma disputa envolvendo a nomeação de membros do Tribunal Constitucional. Manifestantes apoiaram a agenda anti-corrupção do presidente

Chile
O aumento na tarifa do metrô de Santiago em 18.out levou milhares de pessoas à ruas. A pauta cresceu, e os chilenos protestam contra a desigualdade social e por melhorias na saúde e na educação. Até o momento, 23 morreram e cerca de 3.700 ficaram feridos

Bolívia
Vaivém na contagem de votos da eleição de 18.out e denúncias de fraude levaram à renúncia do presidente Evo Morales. Milhares saíram às ruas contra e a favor do líder indígena e foram reprimidos por polícia e Forças Armadas —32 morreram

Grupo saqueia loja em Bogotá durante protesto contra o governo do presidente Iván Duque - Raul Arboleda/AFP
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