'Todos estão arrumando as malas para voltar', diz refugiado boliviano no Brasil

Segundo advogado, cerca de 1.500 bolivianos deixaram o país por perseguição política durante governo de Evo

Brasília

Um grupo de refugiados bolivianos no Brasil fez um ato público na fronteira do Acre com a cidade boliviana de Cobija na quinta-feira (14) para simbolizar o retorno ao país, após a queda do presidente Evo Morales, que renunciou sob pressão de militares e de protestos nas ruas.

“Todo o mundo está arrumando as malas para retornar. Estivemos aguardando esse dia nesses 11 anos, e esse dia chegou. Você não sabe como explicar aquela felicidade que está no nosso peito, mas chegou o dia e a gente vai voltar”, disse à Folha o advogado Roger Zabala, 45, considerado um líder dos refugiados bolivianos no Brasil.

Zabala foi chefe de gabinete do ex-governador de Pando Leopoldo Fernández, um opositor de Evo preso pelo governo boliviano em 2008.

Zabala vive com mais seis parentes há 11 anos em Epitaciolândia, no Acre, separada apenas por uma ponte da cidade boliviana de Cobija.

No ato, os bolivianos que vivem no Brasil foram recepcionados por um grupo de bolivianos, atravessaram a ponte e pisaram em Cobija, onde houve discursos. Há 108 bolivianos na condição de refugiados somente no município acreano, segundo Zabala.

No ato, o advogado disse à plateia: “Eu sempre disse, um dia saí da Bolívia, mas a Bolívia jamais saiu do meu coração”. 

Evo Morales na chegada ao México, país que lhe concedeu asilo político - Edgard Garrido/Reuters

Ele afirmou que a deposição de Evo foi “um movimento cívico”. “Há uma confusão de sentimentos porque não regressamos todos. Houve amigos que nos deixaram, que faleceram no exterior”, disse Zabala, citando o ex-senador Roger Pinto Molina, que morreu no Brasil em 2017 após um acidente aéreo perto de Brasília.

“Não vamos voltar com ódio, não vamos voltar com vingança, vamos voltar com amor, porque nossos antepassados ensinaram que o mais importante é o amor. Para seguir construindo a República. E quero dizer, obrigado Brasil por haver nos recebido.” 

Zabala disse que a estimativa oficial de órgãos internacionais é que cerca de 1.500 bolivianos deixaram o país por algum tipo de perseguição política durante o governo de Evo.

Ele não sabe dizer quantos estão no Brasil, mas estima em mais de 300, principalmente no Acre, no Mato Grosso do Sul, em Rondônia e em São Paulo.

A ideia de Zabala de retorno imediato dos refugiados ainda não será seguida, contudo, por pelo menos um personagem que ganhou vulto na Bolívia a partir de 2009, o ex-promotor de Justiça Marcelo Soza, que vive refugiado desde 2014 em Brasília, onde é aluno de relações internacionais na UnB (Universidade de Brasília).

Em 2009, Soza foi designado pela sua chefia na Procuradoria em La Paz para atuar no caso que ficou conhecido como Terrorismo 1, um intrincado episódio político e de espionagem.

Em abril daquele ano, três pessoas foram chacinadas por agentes do governo de Evo em um hotel de Santa Cruz de la Sierra: os húngaros Eduardo Rósza-Flores e Árpád Magyarosi e o irlandês Michael Martin Dwyer.

Segundo a versão do governo boliviano, eles faziam parte de um complô que pretendia matar Evo em conexão com um projeto político-empresarial separatista na região.

Ao investigar o caso, porém, Soza apontou problemas na perícia, sugerindo que eles foram mortos à queima-roupa e sem reação, e não em um tiroteio como dizia a versão oficial.

A partir disso, segundo ele, passou a ser alvo de perseguição política do grupo de Evo. Enfrentou dois processos ao mesmo tempo sobre o mesmo assunto em duas cidades diferentes.

Ele procurou refúgio em Brasília em 2014 e não voltou mais para a Bolívia. Seu casamento acabou e passou anos sem poder visitar a filha de 11 anos.

Soza disse que seu trabalho tocou interesses do grupo político de Evo, mas também de setores da oposição que hoje aparecem relacionados ao novo governo boliviano.

“Os compatriotas que saíram pela perseguição do governo vão voltar. Eu sou o único que fui perseguido pelo governo e por ala da própria oposição, porque queriam matar essas pessoas [no hotel] e queriam me utilizar como bode expiatório", diz ele.

"Não cometi crime nenhum. Eu vou continuar me defendendo. Prefiro passar fome aqui [no Brasil], mas a minha honra não vai ser pisoteada. É um grupo de várias pessoas da elite política que está dirigindo tudo. A minha luta era contra essas elites políticas.”

Tanto Zabala quanto Soza rejeitam a ideia de que houve um golpe de Estado contra Evo e fazem menção às manobras políticas e judiciais feitas pelo ex-presidente boliviano para garantir um terceiro mandato e tentar uma nova eleição neste ano. 

“No meu país, a Constituição permite apenas dois mandatos. Evo Morales estava no terceiro mandato, que ele conseguiu porque teve o apoio do Poder Judiciário, do tribunal constitucional. Com um argumento irrisório conseguiu ir a um terceiro mandato. Para um quarto mandato, ganhou as eleições com fraude, segundo a OEA [Organização dos Estados Americanos]”, disse Soza.

Zabala afirmou que a queda de Evo traz esperança. “Sempre ficamos convencidos de que não devíamos [à Justiça boliviana], não éramos criminosos, então não temos por que continuar fugindo."

Segundo ele, o Estado Democrático de Direito está retornando ao nosso país. "A Justiça está voltando, então a gente vai voltar. Nós nunca nos afastamos da fronteira. Vivíamos essa situação difícil, tão perto e tão longe de alcançar nosso objetivo”, afirmou o advogado.

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