DC Comics apaga postagem com Batman de brasileiro após elo com Hong Kong

Desenhista Rafael Grampá diz que desenho não remete a manifestações no território chinês

São Paulo

Depois dos videogames e do basquete, os protestos de Hong Kong chegaram aos quadrinhos. 

A polêmica se deve a uma arte promocional do livro "Dark Knight Returns: The Golden Child" (O Retorno do Cavaleiro das Trevas: A Criança Dourada), com traços de um artista brasileiro, mostrando uma versão alternativa do Batman prestes a arremessar um coquetel molotov.

No fundo, está escrito “the future is young” (o futuro é jovem, em tradução literal), em rosa pink.

Nas redes sociais, os comentários relacionaram a imagem à realidade: o coquetel molotov seria a arma empregada pelos manifestantes; o traje preto com detalhes em amarelo do Batman (que no caso, é uma Batwoman), uma alusão às roupas dos ativistas; o subtítulo da publicação (a criança dourada), uma ligação com o amarelo simbólico.

Por fim, a frase “the future is young” apontaria ao principal slogan entoado pelos jovens nas ruas: “libertem Hong Kong, a revolução do nosso tempo”.

A arte é do desenhista gaúcho Rafael Grampá, 41. “Você cria ficções baseadas na realidade, e depois a realidade se apropria do que você criou, é um vai e volta”, afirmou o artista à Folha, na primeira entrevista após a repercussão.

Ele nega ter pensado na questão política de Hong Kong em seu desenho, que é também uma das capas da publicação.

A postagem, que havia sido feita no Instagram e no Twitter da DC Comics —ambas plataformas censuradas na China, mas liberadas em Hong Kong—, recebeu uma enxurrada de comentários polarizados. Foi deletada minutos depois, sem que a editora tenha dado uma razão oficial.

A DC Comics foi procurada pela reportagem para esclarecer por que apagou o post, mas não respondeu até a publicação deste texto. “Ela nem precisa falar nada, a publicação vai falar por si”, afirma Grampá, sem dar detalhes da história.

​Como a memória da internet e dos prints é eterna, a arte viralizou. Veículos locais, como o jornal South China Morning Post, e internacionais, como Variety e The Guardian, repercutiram.

O artista chinês Ai Weiwei, notório opositor do governo chinês, também postou sobre o assunto.

Novas atualizações no perfil da editora são inundadas por comentários que fazem referência à imagem deletada. Apesar de ser um grande lançamento no calendário da DC Comics, não há nenhuma novidade sobre a publicação nas redes sociais da editora há pelo menos um mês.

A polêmica rompeu os limites das redes sociais. Muros de Hong Kong foram pichados com a frase "the future is young", segundo fotos do veículo independente pró-democracia Hong Kong Free Press.

Desenhado por Grampá (autor de "Mesmo Delivery") e escrito por Frank Miller ("Sin City", "300", entre outros), o livro de 48 páginas é uma continuação de "Cavaleiro das Trevas", um dos maiores clássicos dos anos 1980.

Com Batman, Miller foi um dos grandes responsáveis por abrir o quadrinho comercial americano a expressões autorais e adultas. Além de "Cavaleiro das Trevas", ele é o autor da série "Batman Ano Um".

Batman é protagonista de outra HQ clássica da época, "A Piada Mortal", de Alan Moore. E é do autor inglês "V de Vingança", que popularizou a máscara do soldado inglês Guy Fawkes (1570-1606), símbolo de manifestações no mundo todo desde a adaptação cinematográfica, dirigida por James McTeigue, em 2005.

“A adoção da arte como um símbolo de protestos em Hong Kong mostra como as pessoas são carentes de símbolos”, diz Grampá. “A imagem não foi criada para ser relacionada com a revolução, é uma interpretação deles.”

Ele afirma ter feito a arte em 2018 e que não estava pensando na situação conflituosa da China e Hong Kong.

Sem publicar quadrinhos há seis anos, o artista diz ter passado o ano focado na criação de quadrinhos, sem acompanhar a convulsão política na região.

Segundo o quadrinista, o post da DC Comics teve um corte mal feito e seria deletado de qualquer maneira por aquele erro.

A arte ocultou o nome dos autores e o título da obra, deixando a frase “the future is young” em ainda mais evidência.

“Parecia um statement [declaração]”, diz Grampá, que afirma apoiar as reivindicações dos manifestantes. Depois de toda a repercussão, ele postou a mesma versão apagada pela editora em seu Twitter.

A controvérsia é mais um desdobramento dos protestos que tomam as ruas da ex-colônia inglesa há meio ano.

Ativistas reivindicam a manutenção do regime conhecido como "um país, dois sistemas", que garante liberdades desconhecidas na China continental, punição a policiais que agrediram ativistas, entre outras demandas.

Por mais que as reivindicações tenham apelo a valores globais, a calculadora fala mais alto. Os 1,3 bilhão de potenciais consumidores chineses fazem as empresas ocidentais capitularem diante das vontades do Partido Comunista.

Apple e Google censuraram aplicativos que facilitavam a organização de protestos antigoverno. Um tuíte de um dirigente de time da NBA fez com que partidas da competição americana de basquete deixassem de ser transmitidas.

A produtora de games Activision-Blizzard puniu um competidor do game "Hearthstoneque proferiu frases favoráveis a Hong Kong durante a transmissão de uma de suas competições.

Em reação a isso, o movimento pró-democracia adotou a personagem chinesa Mei, do jogo "Overwatch", da Blizzard, como outro símbolo.

A China é um mercado importante da Warner Bros., proprietária da DC. "Aquaman", dirigido por James Wan, foi o primeiro filme interconectado da DC (o chamado “universo expandido") a ter bilheteria de US$ 1 bilhão.

Um quarto desse faturamento veio dos cinemas chineses.

Não é a primeira vez que o Batman causa comoção política. Nos anos 1950, o livro "Seduction of the Innocent" (sedução do inocente), escrito em 1954 pelo psiquiatra americano Fredric Wertham, sugeria que Batman e Robin inspiravam homossexualidade em jovens.

O livro desencadeou uma caça aos quadrinhos, acusados de serem os responsáveis por diversos males da sociedade.

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