Vítima de ataque brutal em Hong Kong, conselheiro pensou em desistir da política

Stanley Ho foi eleito no conturbado distrito de Sai Kung, mas carrega marcas de ataque sectário por ativistas pró-Pequim

Hong Kong

“Eu pensei em desistir, porque não queria ver minha família machucada. Tive medo. Mas no fim, achei que concorrer na eleição seria um modo de não deixar essa intimidação prosperar”, diz Stanley Ho.

Ele mostra o preço que pagou por ter entrado na política: cortes profundos ainda não totalmente cicatrizados na cabeça, que protege com uma boina, e um dedo indicador que ainda não ser recuperou nas suas duas mãos quebradas.

Tudo isso ocorreu na tarde do dia 29 de setembro. Ho, que trabalha como líder comunitário na região de Sai Kung, em Kowloon (parte continental de Hong Kong), estava decidido a disputar a vaga de conselheiro local.

De boina azul, o conselheiro eleito Stanley Ho está sentado de frente para uma mesa de escritório. Ele tem um dos dedos indicadores engessado
O conselheiro eleito Stanley Ho, que teve as mãos quebradas e a cabeça ferida durante ataque em Hong Kong - Igor Gielow/Folhapress

“Durante anos, os candidatos pró-Pequim eram os únicos aqui. Essa eleição deu opções à população”, disse. Filiado havia quatro anos ao Partido Trabalhista, do chamado campo democrático, ele estava a caminho de pegar a balsa para um protesto na ilha de Hong Kong quando o celular tocou.

“Eu não conhecia a pessoa, mas eu não conheço muitos aqui. Ele pediu para eu voltar para pegar um presente que a vizinhança havia deixado para mim em um playground em Man Yee”, disse.

Ho voltou de carro, estacionou e procurou o interlocutor misterioso na pracinha. Foi quando sentiu um baque e o calor do sangue jorrando de sua cabeça.

“Acho que eram três, ou quatro, atacantes. Eles batiam com pedaços de ferro e eu protegi minha nuca com as mãos. Acabei com a cabeça machucada e com as duas mãos quebradas. Foi muito rápido, alguém parou para me ajudar”, disse.

O alguém era um turista estrangeiro, que também foi atacado e disse à polícia que os homens estavam vestidos de branco —o uniforme informal das milícias pró-Pequim no auge da violência que se arrastou desde junho na cidade, após protestos enormes contra uma lei de extradição que acabou arquivada tomarem as ruas.

Ho, que anda com uma muleta por causa de um problema ósseo, passou uma semana internado. “Eu pensei se deveria concorrer. Moro com meus pais, tenho irmãos. Temi por eles”, disse o jovem político de 35 anos.

Acabou eleito com 2.805 votos. Disse que “nem sabe quem é e nem se preocupa com” o candidato que derrotou, apenas que era do campo pró-establishment.

Novato em cargos públicos, ele concorda com a tese de que os jovens eleitos neste ano precisarão de ajuda para evitar um fracasso ante seu eleitorado, mas reconhece que todos foram eleitos na esteira dos protestos, num voto de desconfiança contra o governo da executiva-chefe Carrie Lam e contra Pequim.

A ditadura comunista controla o encrave capitalista e, teoricamente, só poderá mudar o sistema político se quiser a partir de 2047.

Curiosamente, contudo, Ho diz que não se interessou pela agenda contra Pequim na hora de decidir concorrer. “Eu acredito que só conseguiremos manter nossa autonomia se melhorarmos a vida das pessoas”, disse.

“Agora Hong Kong tem uma voz, precisamos aproveitar isso”, disse ele, um entusiasta da chamada “economia amarela”, o fomento de negócios locais visando afastar o controle de empresas do continente na região.

Sua região é particularmente uma linha de frente para essa iniciativa. Ho conversou com a Folha em um prédio na movimentada rua comercial Nathan, na qual agência após agência de bancos chineses viraram pequenos bunkers, com portas de metal e placas no lugar de vitrines.

Eles foram vandalizados durante o auge da violência na região. Isso não gera um abismo maior entre as populações chinesas e honconguesas, em vez de uma conciliação?

“É muito difícil avaliar isso. Quem é chinês e quem é daqui? Qualquer um com sete anos de residência vira cidadão. Não vejo um problema”, disse.

Pode ser, mas, ao tropeçar no pedaço que falta da calçada na frente do edifício em que Ho trabalha, usada como matéria-prima para combates com a polícia, o visitante se pergunta sobre a capacidade de acomodação entre as comunidades.

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