Trump critica fala de Macron sobre Otan e ameaça aumentar taxas para a França

Presidente francês afirmou que aliança militar, em Londres para cúpula, está em 'morte cerebral'

Londres | Reuters

A troca de farpas entre os presidentes Donald Trump e Emmanuel Macron foi o destaque do primeiro dia da cúpula da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), em Londres, nesta terça-feira (3).

Pela manhã, em um encontro com Jens Stoltenberg, secretário-geral do órgão, Trump disse que Macron foi "muito insultante" ao dizer que a aliança militar liderada pelos Estados Unidos se encontra em "morte cerebral".

A declaração do líder americano ocorreu antes de ele se encontrar com o presidente francês na reunião que marca o aniversário de 70 anos da organização criada em 1949 como resposta à expansão da presença militar da ex-URSS na Europa Central e do Leste.

Em meio a dúvidas sobre seu futuro, o órgão confirmou logo no primeiro dia de cúpula o risco de que o encontro de chefes de Estado se converta em uma exibição pública de discordâncias.

"Foi uma declaração forte. Quando você diz algo assim, é uma declaração muito, muito desagradável aos 28 países", disse Trump, em referência ao total de integrantes da Otan.

Os presidentes Emmanuel Macron e Donald Trump, durante entrevista coletiva em Londres - Ludovic Marin/AFP

A fala polêmica do líder europeu a que Trump reagiu foi dada em uma entrevista à revista The Economist no início de novembro. 

Na ocasião, Macron criticou a contestada ofensiva militar da Turquia no nordeste da Síria para expulsar da região milícias curdas como a YPG, que o governo turco considera terroristas.

"O que estamos vivendo atualmente é a morte cerebral da Otan. Não há nenhuma coordenação na tomada de decisões estratégicas entre Estados Unidos e seus aliados da Otan. Nenhuma", afirmou o presidente francês à época.

Nesta terça-feira, Trump não só criticou as declarações de Macron sobre a Otan como ameaçou taxar produtos franceses, sem especificar quais. ​ 

O presidente americano, que um dia já teve relações cordiais com o francês, disse que o país europeu enfrenta uma taxa de desemprego muito alta, não vai bem na economia e começará em breve a taxar produtos de outros países. "Então logo nós vamos taxá-los", afirmou o republicano.


​O QUE É A OTAN?

  • A Organização do Tratado do Atlântico Norte é uma aliança de defesa regional criada em 1949 como uma resposta à expansão da presença militar da URSS na Europa Central e do Leste
  • Sua função mais importante é garantir que, caso um membro seja atacado, os demais saiam em sua defesa
  • Com o fim da URSS em 1991, a aliança perdeu seu objetivo principal e se tornou fórum de cooperação militar 
  • Durante o governo de Bill Clinton (1993 - 2001), os EUA lideraram iniciativa para aumentar o número de membros como forma de integrar ex-soviéticos, como a República Tcheca, a Hungria e a Polônia
  • Estônia, Letônia e Lituânia entraram na Otan em 2004. A adesão ao bloco recebe grande apoio entre elas, que buscam na aliança garantias contra uma eventual pressão russa

Ainda que siga acima da média da União Europeia (UE), a taxa de desemprego na França vem caindo e terminou o primeiro semestre de 2019 no menor percentual em dez anos, com 8,5% —o índice médio do bloco europeu é de 6,3% 

Se Trump não foi preciso sobre os dados de desemprego no país, acertou ao falar sobre taxações, uma vez que a França debate a criação de uma cobrança sobre serviços digitais, que atingiria gigantes de tecnologia dos EUA.

Pouco depois da fala do presidente americano, a UE disse que responderá à ameaça de aumento de taxas para a França "a uma só voz". O bloco negocia as tarifas comerciais de seus países de modo conjunto. 

Horas depois, Trump e Macron ficaram lado a lado, em entrevista coletiva conjunta. Lá, voltaram a se estranhar, tanto sobre a Otan quanto sobre as visões para o combate ao terrorismo.

Enquanto Macron disse que tinha consciência do teor de suas declarações sobre a organização e que as sustentava, o presidente americano afirmou que a maioria dos combatentes do grupo terrorista Estado Islâmico (EI) capturados no Oriente Médio é formada por europeus que se radicalizaram —e que muitos deles são franceses. 

Em tom de brincadeira, perguntou a Macron: "Gostaria de alguns ótimos guerreiros do EI? Eu posso dá-los a você". O francês rebateu: "Vamos ser sérios: a maioria dos combatentes em solo veio da Síria, do Iraque e arredores. É verdade que há combatentes estrangeiros vindos da Europa, mas são uma minoria". 

Macron prosseguiu e deu uma resposta longa, na qual disse que combater o EI é a prioridade número 1, ao que Trump disparou: "É por isso que ele é um grande político. Essa foi uma das maiores não respostas que já ouvi —e tudo certo".

​Macron, por sua vez, sugeriu que a Europa não pode mais assumir um apoio incondicional aos Estados Unidos, para então ouvir de Trump que "ninguém precisa [da Otan] mais do que a França".

"E é por isso que, quando a França faz uma declaração como aquela sobre a Otan, é uma declaração muito perigosa para eles."

A defesa que o presidente americano agora faz da aliança militar contrasta com as críticas feitas por ele no passado. Trump havia sido tão desestabilizador em reuniões anteriores do órgão que chegou a provocar um encontro de emergência.

O líder americano acusou outros países-membros de ludibriar os EUA em relação a gastos militares e questionou se a organização ainda servia a seu propósito.

Nesta terça, ao comentar questões paralelas à estrutura do órgão, Trump também falou que a Rússia quer chegar a um acordo de controle de armas militares com os EUA e que ele pretende incluir a China nesse acerto.

Em agosto, Washington e Moscou confirmaram o fim do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF, na sigla em inglês), um acordo de 1987 que limitava a expansão dos arsenais nucleares dos dois países. 

Trump também disse que um acordo para colocar fim à guerra comercial com a China pode ser adiado até o fim das eleições norte-americanas, em novembro de 2020. "Eu não tenho prazo. De certa forma, eu penso que é melhor esperar." 

Ainda que tenha reduzido o valor das verbas dos EUA ao orçamento do órgão, Trump voltou a cobrar os outros países a dar mais dinheiro para a Otan e disse que muitos aumentaram suas contribuições depois que ele chegou ao poder.

Na entrevista, ainda disse que não apoia os manifestantes iraquianos, que protestam contra o governo. A declaração contraria uma fala do secretário de Estado, Mike Pompeo, que afirmou na semana passada que os EUA apoiavam os atos.

O líder americano também disse que analisa impor sanções à Turquia, por causa da compra de um sistema de mísseis da Rússia.

A ofensiva militar na Síria também foi discutida no encontro. Líderes da Inglaterra, França, Alemanha e Turquia concordaram que todos os ataques contra os civis devem terminar, incluindo aqueles na área de Idlib, controlada pelos rebeldes. 

Os mandatários disseram que "trabalharão para criar condições para o retorno seguro, voluntário e sustentável dos refugiados", segundo o gabinete do primeiro-ministro Boris Johnson.

O grupo de países apoia o enviado da ONU à Líbia, Ghassan Salame, nos esforços para tentar pôr fim ao conflito no país.

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