Impacto de robôs em vitórias de Trump e brexit é questionado por pesquisador

Cientista de dados critica estudos acadêmicos que teriam identificado contas automatizadas no Twitter

São Paulo

"Robôs em redes sociais influenciaram eleições. Isso soa plausível? Sim. Isso tem consistência científica? De jeito nenhum."

A provocação foi feita pelo cientista de dados e jornalista alemão Michael Kreil, em texto publicado no fim do ano passado, que motivou discussão entre pesquisadores da área.

Kreil conta que, no começo de 2017, estava interessado em escrever uma reportagem sobre a importância dos robôs nas redes sociais após o brexit e a eleição de Donald Trump.

Diversas pesquisas acadêmicas apontaram esses robôs como peças determinantes para a vitória do "leave" (sair) no Reino Unido e da eleição do republicano nos EUA.

"Quanto mais eu pesquisava o tema, quanto mais lia pesquisas acadêmicas, mais eu passava a duvidar da teoria de que os robôs foram importantes", disse Kreil, por email.

Mural em Bristol com grafite no qual o então candidato à Presidência dos EUA, Donald Trump, beija o então deputado conservador Boris Johnson
Mural em Bristol com grafite no qual o então candidato à Presidência dos EUA, Donald Trump, beija o então deputado conservador Boris Johnson - Geoff Caddick - 24.mai.16/AFP

Os chamados robôs são perfis nas redes sociais que publicam mensagens de forma automatizada e, geralmente, massiva. Seja a trabalho de uma marca para se promover, seja para criar ambiente favorável a determinado candidato numa eleição.

Os primeiros robôs basicamente repostavam mensagens. Mas agora estão mais sofisticados e conseguem até manter diálogo com outros perfis.

Kreil identificou três estudos que defenderam a importância dos robôs nessas votações e foram amplamente citados pela imprensa, em veículos como The New York Times, The Washington Post, Forbes, The Guardian e Folha.

Por diferentes razões, ele vê inconsistência nos três trabalhos científicos. Em dois deles, um da Universidade de Oxford e outro da Universidade do Sul da Califórnia, a contestação é sobre como definir se uma conta é alimentada por um robô.

Pesquisas questionadas pelo cientista de dados

Os três trabalhos foram amplamente citados por grandes veículos de imprensa no mundo

  1. "Robôs e automação no Twitter durante as eleições americanas de 2016" (pesquisa de Oxford, Corvinius e Universidade Washington)

    Segundo o trabalho, ao longo da campanha nos EUA, a atividade automatizada pró-Trump aumentou mais rapidamente do que a pró-Hillary; a ação a favor do republicano foi mais eficiente, contaminando as hashtags que inicialmente eram favoráveis à democrata. Crítica: o critério para definir um robô é falho (na pesquisa, robôs são contas que tuitaram mais de 50 vezes num dia usando hashtags relativas à eleição); considerando contas verificadas pelo Twitter e aplicando a metodologia do estudo, haveria mais robôs entre os usuários verificados do que na amostra analisada pelos pesquisadores, o que não faz sentido.

  2. "Robôs distorceram as eleições presidenciais de 2016" (pesquisa da Universidade do Sul da Califórnia)

    Análise do comportamento de 2,8 milhões de contas identificou 400 mil robôs atuando nas eleições americanas naquele ano. Crítica: ferramenta usada pelos pesquisadores é falha, pois coloca como prováveis robôs 12% dos ganhadores do Nobel, 18% dos jornalistas da agência Reuters ou 10% das contas ligadas à Nasa.

  3. "Redes sociais, sentimentos e opinião pública: evidências do Brexit e eleições americanas" (pesquisa de Berkley e Swansea)

    Informações sobre os dois eventos se espalharam rapidamente na rede social, em até duas horas; atividade de robôs consegue influenciar, mesmo que marginalmente, os humanos. Crítica: uma das formas de validar a metodologia no estudo foi verificar que em regiões com mais votos para Trump ou pró-brexit também houve mais atividade de apoio aos dois movimentos na rede social; o cientista de dados fala que essa conclusão confunde correlação com causalidade. Pesquisadores dizem que apenas buscavam correlação entre movimentos no Twitter e outros eventos.

"Determinar se uma conta é operada por um humano ou é um robô tem se mostrado uma tarefa desafiadora", reconheceram em seus trabalhos os pesquisadores Alessandro Bessi e Emilio Ferrara, da Universidade do Sul da Califórnia.

Nessas contas suspeitas, não há uma identificação clara de que o perfil seja automatizado. O que pesquisadores fazem é fixar padrões que, segundo eles, determinam se a conta é operada por um robô ou por uma pessoa. E, a partir daí, o impacto dessas contas no debate político é analisado.

Os pesquisadores tendem a usar o Twitter como forma de estudar esse fenômeno, pois é a rede social com mais dados disponíveis sobre postagens e perfis (maior plataforma do mundo, o Facebook restringiu acesso a informações a terceiros após a descoberta de que a empresa Cambridge Analytics teve acesso a dados de 87 milhões de contas).

No trabalho em cima do Twitter da equipe da Universidade Oxford (junto com pesquisadores das universidades de Washington e Corvinus), eles classificaram como robôs perfis que postaram mais de 50 vezes num dia na rede social, citando hashtags referentes à eleição americana de 2016.

O cientista de dados alemão aplicou esse parâmetro para perfis verificados do Twitter, aqueles que a rede social atesta como contas verdadeiras. Entre 300 mil desses usuários verificados, 1,46% seriam classificados como robôs, segundo teste do jornalista.

É uma proporção maior do que a encontrada pelos pesquisadores de Oxford no universo total analisado por eles (0,11% de robôs na amostra). "Como há mais robôs entre contas verificadas? Não há outra explicação científica se não falha na metodologia", afirmou o Kreil.

Os autores do estudo não responderam a contato da reportagem para comentarem as críticas.

Kreil também testou o modelo usado pelos pesquisadores da Universidade do Sul da Califórnia (junto com a Universidade de Indiana) para detectar robôs.

Para identificar as contas automatizadas, os pesquisadores usaram modelo que considera mais de mil características das contas, como a frequência com que postam e o padrão de seguidores.

Teste com a ferramenta feito pelo jornalista alemão indica que 12% dos ganhadores do prêmio Nobel apareciam como prováveis robôs no Twitter —o que também não faz sentido, segundo o jornalista.

O professor Emilio Ferrara, um dos autores do trabalho, afirmou à reportagem que sua metodologia é consistente e foi checada por outros pesquisadores. Ele lembrou também que o estudo foi usado por comitê do Senado americano que investigou a interferência russa nas eleições americanas de 2016.

Ferrara, porém, negou-se a comentar as críticas específicas feitas por Kreil.

"Não acredito que as pessoas nas redes sociais possam ser orientadas por influência estrangeira ou contas automatizadas", afirmou o jornalista alemão. "Quem já discutiu com alguém sobre política sabe o quanto é difícil alguém mudar de opinião."

Esse ceticismo sobre a influência de contas automatizadas no debate político não parece ser uma ideia majoritária entre os cientistas políticos que analisam o tema.

"Estou de acordo que as técnicas disponíveis para identificar robôs são muito imprecisas", afirmou o professor do curso de gestão de politicas públicas da USP Pablo Ortellado, colunista da Folha.

"Mas também estou de acordo com o argumento geral de que os bots existem e influenciam o debate. Só é muito difícil saber a sua dimensão e em que medida os bots influenciam o debate."


Eleições que foram potencialmente influenciadas por bots

México, 2012
Twitter foi usado como importante fonte de informações, em grande parte porque a imprensa do norte do país sofre ameaças e represálias do crime organizado. Bots ocuparam as redes sociais para levar hashtags a favor e contra os principais candidatos aos 'trending topics'

Reino Unido, 2016
Durante a campanha do referendo sobre o brexit, contas automatizadas que promoveram mensagens pró-saída predominaram. Em 2018, seria descoberto que a empresa Cambridge Analytica usou dados captados via Facebook e os usou para direcionar propaganda política antes da votação

Estados Unidos, 2016 e 2018
O pleito que levou à eleição de Donald Trump foi marcado por uma ação coordenada de agentes russos que propagaram mensagens que pró-Trump e que incentivavam a polarização política. Nas eleições de meio mandato, embora as empresas tenham tomado algumas medidas para tentar solucionar o problema, o volume de informações falsas e bots aumentou. 

Filipinas, 2016
A campanha de Rodrigo Duterte, que foi eleito naquele ano, pagou US$ 200 mil por cerca de 500 trolls dedicados a atacar dissidentes e espalhar desinformação utilizando contas falsas, segundo estimativa da Universidade Oxford. 
 

No Brasil (2014, 2015 e 2016)
Estudo da Universidade Oxford constatou que anúncios automatizados online influenciaram as eleições presidenciais de 2014, o processo de impeachment de Dilma Roussef (2015 - 2016) e as eleições municipais de 2016 do Rio.

Durante a campanha presidencial de 2018, um texto publicado pela Folha no Twitter que continha a palavra "bolso" no título e outro com o termo "bolovo" foram alvos de dezenas de comentários pró-Bolsonaro vindos de contas automatizadas.

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