Rússia e EUA vivem cena de 'Mad Max' em estrada na Síria; veja vídeo

Disputa na pista acaba mal para russo, em cena que resume tensão entre potências

São Paulo

Rivais desde os tempos da Guerra Fria, Estados Unidos e Rússia quase foram às vias de fato na Síria, país árabe imerso em uma guerra civil desde 2011. No caso, numa inusitada disputa entre dois carros de combate em alta velocidade, com bandeiras dos países rivais desfraldadas ao vento.

A cena, digna da série de "road movies" distópicos "Mad Max", ocorreu nesta semana em Qamishli, uma cidade junto à fronteira da Turquia no nordeste da Síria. Ela foi filmada por um consultor de serviços humanitários que se identifica no Twitter como Mohammad.

Ele passava com seu carro por um comboio militar russo, que incluía um veículo pesado de transporte de tropas. O grupo encontrou à sua frente dois Oshkosh, uma espécie de superjipe 4x4 blindado americano para operação em áreas minadas, e teve de reduzir.

De repente, um furgão 4x4 blindado russo Tigr ultrapassa pelo acostamento o primeiro Oshkosh, mas o segundo o fecha, o tirando da estrada. Felizmente, os motoristas não decidiram resolver suas diferenças com mais ênfase: ambos os veículos são armados com metralhadoras de calibre 7.62 mm.

 
Um comboio militar americano atrás de veículos russos na M4, estrada do nordeste da Síria
Um comboio militar americano atrás de veículos russos na M4, estrada do nordeste da Síria - Delil Souleiman - 20.jan.2020/AFP

O veículo russo serve basicamente para transporte de tropas e atinge até 140 km/h. Já o americano é um animal de outro porte, pesando o dobro (14,7 toneladas) do que o produto de Moscou, rodando no máximo a 105 km/h.

Num mundo que passou 40 anos sob o temor de um conflito entre russos e americanos que potencialmente levaria à extinção da humanidade, o entrechoque soa quase surreal. Mas simboliza bem as confusões potenciais inerentes à presença de potências estrangeiras na Síria.

Apesar de os EUA terem retirado o grosso de suas tropas do país, ainda há unidades como a filmada por Mohammad nas regiões ao norte. Já os russos patrulham as áreas fronteiriças junto à Turquia em um frágil acordo com Ancara, que está em desintegração devido ao risco de guerra aberta entre turcos e sírios.

A Turquia tem mais de 5.000 homens na província rebelde de Idlib, que está sob ataque pelas forças de Damasco e é o último bastião de revolta contra a ditadura de Bashar al-Assad. Os russos apoiam os sírios com ataques aéreos, o núcleo de sua presença militar na Síria, mas também têm tropas espalhadas em pontos da região norte do país.

O embate recrudesceu bastante nesta quinta (20). Um ataque aéreo atribuído inicialmente à Síria, embora seja a Rússia a potência dominante no setor neste conflito, matou dois soldados turcos. Em retaliação, as forças de Ancara bombardearam posições síria perto da cidade de Idlib, capital da província homônima, matando 50 militares de Assad.

Na quarta, o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, havia ameaçado uma nova ofensiva militar contra a Síria caso Idlib não fosse poupada de ataques. Seu plano é transformar a região num santuário para repatriar parte dos 3,3 milhões de refugiados sírios que estão em seu país.

Segundo relatos, os turcos estão avançando em direção à estratégica cidade de Saraqeb, considerada uma porta de entrada para a capital de Idlib, que foi retomada pelo governo sírio no começo do mês.

O incidente filmado é o mais recente de uma série de desentendimentos entre russos e americanos, usualmente em postos de controle e estradas da região.

"A intenção da coalizão [de forças lideradas por americanos] é de-escalar qualquer encontro não planejado com outras forças", afirmou o porta voz Myles Caggins, coronel do Exército americano, ao site Military Times. Ele afirmou que o incidente está sob investigação.

Segundo a agência russa Tass, o porta-voz do Kremlin não quis comentar o episódio. Russos e americanos, além de israelenses, franceses e britânicos, tentam coordenar há anos suas ações no espaço aéreo sírio, para evitar acidentes —Moscou já perdeu um caça-bombardeiro, abatido pela Turquia, e um avião de reconhecimento, derrubado por forças de Damasco que buscavam afastar um ataque de Israel.

Os desenvolvimentos em Idlib colocaram à prova a recente aliança entre o Kremlin e Erdogan, que havia se afastado dos EUA devido à negativa de Donald Trump sobre a extradição de um clérigo acusado de fomentar o golpe de Estado contra o turco em 2016.

Antes da atual crise, Ancara havia até comprado uma briga grande com os EUA ao adquirir sistemas antiaéreos S-400 dos russos, algo que os americanos dizem que ameaçam segredos militares de seus aviões mais avançados —a Turquia faz parte da Otan, a aliança comandada por Washington.

A primeira bateria de S-400 já foi entregue, mas ainda não está operacional. Isso levou a uma situação irônica: segundo a agência Bloomberg, os turcos requisitaram que os EUA desloquem duas baterias do sistema americano Patriot para sua fronteira sul, para se proteger justamente contra eventuais intrusões aéreas dos russos.

O vazamento da informação, não confirmada oficialmente, pode ser só um estratagema para Erdogan pressionar o colega Vladimir Putin, mas não deixa de mostrar o grau de complexidade das relações entre os países envolvidos no atoleiro político sírio.

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