Coronavírus avançou na Espanha enquanto advertências eram ignoradas

País sofre por não ter aprendido com exemplos de países mais atingidos pela pandemia

Raphael Minder
Madri | The New York Times

No final de janeiro, um turista alemão tornou-se o primeiro paciente com coronavírus na Espanha.

Na época, o perigo à saúde pareceu ao país ser tão remoto quanto a ilhota espanhola de La Gomera, onde o turista recebeu atendimento médico.

Duas semanas mais tarde ele saiu do hospital, e a Espanha festejou o fato de estar novamente “sem vírus”.

A trégua durou muito pouco. Mas, mesmo enquanto novos casos começaram a vir à tona, as autoridades espanholas continuaram a insistir que o coronavírus estava sendo importado, especialmente para outra ilha, por turistas vindos da Itália, onde os hospitais já estavam sobrecarregados.

A narrativa apresentada era que a Espanha enfrentava uma ameaça externa, mas não corria o risco de sofrer uma epidemia doméstica.

Mas em 26 de fevereiro um morador de Sevilha que não havia viajado a lugar algum teve resultado positivo num exame de coronavírus.

Uma semana mais tarde, outro homem na região de Valência tornou-se a primeira vítima fatal do coronavírus no país, deslanchando uma contagem sinistra que já se aproxima dos 14 mil mortos.

Hoje a Espanha ocupa o segundo lugar no mundo em termos do número total de casos, atrás apenas dos Estados Unidos.

Funcionário de uma fábrica de caixões em Barcelona - Pau Barrena - 3.abr.20/AFP

A crise na Espanha demonstrou que um dos sintomas do vírus, que já se revelou tão persistente quanto a febre, as dores e a dificuldade respiratória provocadas pela Covid-19, vem sendo a tendência de um governo após o outro ignorar o que aconteceu nos países atingidos pelo vírus antes do seu.

Começando pela China, o vírus já percorreu o planeta, cruzando o limiar de 1 milhão de contaminados em todo o mundo na semana passada.

Mas, como na maioria dos países, as autoridades espanholas inicialmente trataram o coronavírus como uma ameaça externa, em vez de considerar que seu país poderia tornar-se o próximo dominó a cair.

A epidemia forçou os espanhóis a enfrentar o tipo de crise que só é recordada por pessoas com idade suficiente para terem vivenciado a Guerra Civil Espanhola da década de 1920.

Os sindicatos de profissionais da saúde estão levando as autoridades aos tribunais por não lhes darem proteção adequada: mais membros de sua categoria foram contaminados com o vírus na Espanha que em qualquer outro lugar do mundo.

Médicos e enfermeiros às vezes são obrigados a usar sacos de lixo no lugar de batas médicas. Pacientes dormem nos corredores de hospitais.

Em Madri, o maior rinque de patinação no gelo do mundo virou um necrotério de emergência, e o maior centro de convenções da cidade foi convertido em hospital de campo, que começou a funcionar com condições de trabalho descritas pelos sindicatos como desastrosas.

Em um dos episódios mais tenebrosos desta crise, soldados espanhóis encontraram idosos abandonados ou mortos em seus leitos em lares de idosos.

“Está sendo chocante para uma sociedade enfrentar uma situação que só foi vista antes por aqueles que se lembram da Espanha saindo da guerra”, comentou Cristina Monge, professora de sociologia na Universidade de Zaragoza.

Para muitos outros espanhóis, acrescenta ela, “um cenário deste tipo até agora não teria passado de ficção científica”.

Diante disso tudo, o governo do primeiro-ministro Pedro Sánchez vem sendo criticado por não ter proibido reuniões públicas em massa antes e por não ter formado um estoque de equipamentos médicos assim que o número de casos de Covid-19 chegou a várias centenas no norte da Itália, no final de fevereiro.

As autoridades espanholas defendem suas ações, destacando as falhas de outros países, e não há dúvida de que a Espanha não é a única a suportar uma tragédia.

Mas o avanço do vírus na Espanha não tem perdoado a resposta dada pelo governo.

Em 8 de março, ao mesmo tempo em que a Itália decretava um lockdown em suas regiões do norte, o primeiro núcleo de coronavírus na Espanha já havia emergido entre os participantes de um funeral.

Apenas em 14 de março o governo espanhol colocou o país no nível mais alto de alerta e impôs um lockdown nacional.

Políticos da oposição alegam que a medida foi tomada tarde demais.

“Tarde em comparação com que países?”, disse Sánchez, desafiando as críticas de parlamentares no Congresso.

Ele destacou que Itália, Reino Unido e França só decretaram seus lockdowns quando já tinham mais casos de coronavírus que a Espanha.

Observou ainda que o Dia Internacional da Mulher, 8 de março, quando 120 mil pessoas se reuniram em Madri, também foi comemorado nas ruas de Bruxelas, Berlim, Viena e Paris.

Esse evento é visto por muitos como tendo sido responsável por turbinar a propagação do vírus na capital.

Três ministras do governo espanhol que lideraram a manifestação do Dia da Mulher acabaram contaminadas pelo vírus, assim como a esposa e a mãe de Sánchez.

“Se tivéssemos sabido então o que sabemos hoje, é evidente que todos teríamos agido diferentemente”, disse o primeiro-ministro.

A resposta do governo ao vírus certamente foi complicada pela natureza difusa do sistema político espanhol. Desde que a Espanha adotou uma nova Constituição, em 1978, as 17 regiões do país foram progressivamente conquistando mais autonomia, incluindo no tocante à administração dos hospitais.

Outra coisa que não ajudou foi o fato de a emergência ser enfrentada por um governo de coalizão novo e frágil, o primeiro governo de coalizão que o país já teve.

Sánchez chegou a seu cargo em janeiro com maioria estreitíssima, após uma eleição nacional inconclusiva, e hoje seu Partido Socialista Operário divide o poder com sua antiga rival, a coligação de extrema esquerda Unidas Podemos.

Os parceiros da coalizão divergiram em relação a quanto apoio financeiro o país poderia dar às pessoas obrigadas a ficar ociosas se recebessem ordens de ficar em casa.

Quando Sánchez decretou o lockdown nacional, vários políticos regionais já haviam anunciado suas próprias medidas de isolamento.

Quando todas as escolas de Madri foram fechadas, a lacuna entre o processo decisório regional e nacional incentivou muitos moradores ricos da cidade a correr para suas casas de praia, correndo o risco de propagar ainda mais um vírus que já deitara raízes na capital.

“Um governo novo e fragmentado começa com uma desvantagem enorme neste tipo de situação de crise, porque a crise exige que sejam tomadas decisões prontas e fortes, sem o governo ter que se preocupar constantemente em saber se outros estão se beneficiando politicamente”, explicou o economista Toni Roldán, ex-deputado do partido Ciudadanos.

O coronavírus desencadeou uma discussão mundial sobre como cada governo mede seu impacto, especialmente porque muitos países até agora vêm testando poucas pessoas.

Os governos também diferem no modo como contabilizam os mortos por coronavírus, por exemplo ao ignorar os mortos que nunca chegaram a ser internados em um hospital.

Mas, mesmo levando essa confusão em conta, o regime de testes de coronavírus na Espanha vem sendo opaco.

Guadalupe Moreno, que trabalha para a empresa de dados alemã Statista, disse que considera os dados de testes realizados na Espanha demasiado incompletos para ser incluídos em sua pesquisa comparativa.

“Parece que as próprias autoridades espanholas não têm uma ideia clara de quantos testes estão sendo realizados no país”, disse.

Mesmo assim, estima-se que cerca de 15% da população espanhola já tenha sido contaminada. É de longe a proporção mais alta entre 11 países europeus incluídos num estudo recente realizado por cientistas do Imperial College London.

Tirando as pessoas que adoeceram ou morreram do vírus, as maiores vítimas da resposta governamental confusa são os médicos e enfermeiros da Espanha, eles próprios contaminados em número espantoso.

Eles vêm recebendo manifestações de solidariedade e sendo aplaudidos diariamente nas sacadas de apartamentos pelos 47 milhões de espanhóis confinados em casa, a imensa maioria dos quais vem respeitando o lockdown rígido previsto para durar pelo menos até 26 de abril.

“É provável que esta crise reforce os vínculos horizontais em nossa sociedade, entre os cidadãos que estão fazendo sacrifícios enormes, mas enfraqueça ainda mais o vínculo vertical com a liderança”, previu o sociólogo Narciso Michavila, presidente da GD3, uma firma espanhol de sondagens.

É possível que a desconfiança pública já tenha tido consequências negativas. Uma das pesquisas de opinião recentes da GD3, publicada no jornal ABC, revela que dois terços das pessoas acusam o governo de ocultar informações sobre a pandemia.

“Nenhum político pode ser visto como responsável por criar esta crise”, disse Michavila. “Mas alguns provavelmente serão acusados de ter derramado óleo em vez de um balde com água para apagar o fogo.”

Tradução de Clara Allain 

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