Descrição de chapéu Financial Times Coronavírus

Italianos se sentem traídos pela UE diante do descaso com situação do país

Mais afetado pela Covid-19 não compreende resistência à emissão dos chamados 'coronabonds'

Miles Johnson Sam Fleming Guy Chazan
Roma, Bruxelas e Berlim | Financial Times

Um ano atrás Carlo Calenda se candidatou nas eleições parlamentares italianas sob o slogan “somos europeus”, um grito de guerra em defesa do lugar de seu país na União Europeia em um momento de nacionalismo em ascensão.

Hoje até mesmo Calenda, 46, ex-ministro e representante italiano permanente junto à UE, passa por uma crise de fé na ideia pela qual passou a vida lutando.

“O que estamos vivendo é uma ameaça existencial –não sei se vamos vencê-la”, diz ele. “Considere que meu partido é um dos mais pró-europeus da Itália, mas hoje tem gente do partido que me escreve perguntando: ‘Para que queremos permanecer na UE? É ínútil.’”

A Itália enfrenta sua crise mais grave desde a Segunda Guerra Mundial, com mais de 15 mil mortos pelo coronavírus e sua economia a caminho da recessão mais profunda de sua história moderna.

E, mesmo entre sua elite pró-europeia, há um sentimento crescente de que o país está sendo abandonado por seus vizinhos.

O primeiro-ministro Giuseppe Conte durante videoconferência com membros do G20 sobre a pandemia de coronavírus
O primeiro-ministro Giuseppe Conte durante videoconferência com membros do G20 sobre a pandemia de coronavírus - 26.mar.20/Gabiente do Palácio Chigi via AFP

“Uma mudança imensa, imensa está ocorrendo na Itália”, disse Calenda, líder do recém-formado Partido Ação, de orientação liberal. “Milhares de pessoas pró-europeias estão adotando essa posição.”

No mês passado o presidente italiano Sergio Mattarela, 78, o homem em quem o establishment confiava para ser o fiador de sua Constituição e de suas alianças internacionais, avisou que o futuro da Europa estará em jogo se suas instituições não demonstrarem solidariedade para com seu pais.

“Espero que todos entendam plenamente a gravidade da ameaça à Europa, antes que seja tarde demais”, disse o presidente em discurso à nação transmitido pela TV a milhões de italianos.

Muitos em Roma hoje consideram que se os países do norte da Europa não adotarem ações corajosas, correrão o risco de ver a Itália dar as costas para sempre ao projeto europeu.

Já há sinais de que a confiança italiana na UE foi prejudicada. Em pesquisa conduzida no mês passado pela Tecnè, 67% dos entrevistados disseram que, para eles, o fato de seu país fazer parte da União Europeia é uma desvantagem. Em novembro de 2018, 47% haviam expressado a mesma opinião.

O ex-presidente do Conselho Europeu Donald Tusk disse ao Financial Times que a situação atual é muito mais preocupante, política e economicamente, do que o que se viu durante a crise do euro.

As expectativas que o sul da Europa tinham de uma demonstração pontual de solidariedade por parte do resto da UE no início da pandemia não foram satisfeitas, apesar de o bloco desde então ter aumentado sua assistência, incluindo ajuda financeira e equipamentos.

“Espero que tudo possa ser reparado, mas a perda de reputação é tremenda”, diz Tusk, hoje presidente da aliança política de centro-direita Partido Popular Europeu (PPE). “Precisamos salvar a Itália, a Espanha e toda a Europa e não ter medo de medidas extraordinárias. Isto é um estado de emergência.”

Tusk diz que a assistência dada pela UE à Itália e a outros países fortemente atingidos pelo coronavírus é muitíssimo mais substancial que a ajuda dada por China e Rússia, mas avisa que “na política a percepção pode ser mais importante que os fatos”.

Em 2018 a Itália tornou-se o primeiro membro fundador da UE a eleger um governo hostil ao bloco. Matteo Salvini, o líder da Liga, anti-imigração, e então vice-primeiro-ministro do governo de coalizão, fazia críticas intempestivas contra o “bunker de Bruxelas”.

No ano seguinte o governo caiu, e Salvini foi enviado para a oposição, levando os setores pró-europeus a terem a esperança de que a ameaça nacionalista perdera força. Mas muitos acreditam que a amargura sentida devido aos acontecimentos do último mês pode alterar a política italiana permanentemente em favor de Salvini.

“Havia a impressão antes que o sistema político relegara as forças anti-UE às margens”, diz Lorenzo Pregliasco, pesquisador da YouTrend. “Mas hoje, se nem sequer os ativistas e políticos do partido pró-europeu têm tanta certeza do que sentem, imagine o que pensam os eleitores.”

No centro da discussão há uma diferença amarga de opinião sobre em que grau os países da área do euro deveriam estar buscando uma resposta muito mais unificada à crise.

Os ministros financeiros europeus vão se reunir na terça-feira para tentar acordar um pacote de medidas cuja finalidade é reunir um poder de fogo fiscal maior em toda a Europa.

A Itália é um dos países membros que defendem que a área do euro seja muito mais decisiva, vendendo coletivamente títulos de dívida para ajudar a financiar os esforços maciços de reconstrução econômica que estão pela frente.

As discussões são apenas a repetição mais recente de uma disputa de longa data sobre uma ação fiscal coletiva, algo que os economistas chamam de mutualização da dívida –e que muitos enxergam como o maior elemento que faz falta à moeda única.

A União Europeia possui um fundo de resgate chamado Mecanismo de Estabilidade Europeu (MEE), ao qual os países podem recorrer.

Mas, apesar das declarações em contrário do diretor gerente do MEE, Klaus Regling, muitos italianos ainda temem que empréstimos contraídos com a instituição viriam acompanhados de condições difíceis e que estigmatizariam o país.

Para muitos italianos, a impressão seria que seu país está sendo punido por um desastre que está fora de seu controle.

Roberto Gualtieri, o ministro das Finanças italiano, disse que é provável que o PIB italiano caia 6% este ano. Para outros economistas, essa estimativa pode ser conservadora. Com o país entrando em crise com uma razão de dívida para PIB que já está em 136%, existe um risco real de a dívida italiana alcançar um nível que coloque em questão a sustentabilidade do país.

Em março, quando o vírus já estava devastando o sul da Europa, nove membros da zona do euro liderados por França, Itália e Espanha assinaram uma carta conjunta pedindo a emissão dos chamados “coronabonds” –títulos de dívida emitidos conjuntamente e garantidos por todos os países da zona do euro, incluindo a Alemanha, com seus bolsos fundos—para ajudar a pagar pelo esforço de recuperação.

A profunidade das diferenças de opinião sobre o tema foi exposta numa videoconferência intransigente entre líderes da UE no final de março em que o primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, e seus aliados fizeram pressão forte para que se abrisse a porta aos coronabonds.

Conte disse que os instrumentos de socorro da zona do euro foram desenvolvidos para a última crise e não são adequados para o atual choque simétrico que atinge o continente inteiro.

“O que diremos aos nossos cidadãos se a Europa não se mostrar capaz de uma reação unida, coesa e forte diante de um choque simétrico e imprevisível desta magnitude histórica?”, disse Conte.

Os líderes acabaram chegando a um acordo e divulgaram um comunicado formulado em linguagem vaga que, na prática, delegou as deliberações para o grupo de ministros financeiros da zona do euro que terá lugar nesta terça.

Mas a trégua durou pouco. Ursula von der Leyen, a presidente da Comissão Europeia e ex-ministra da Defesa da Alemanha, pareceu ter usado linguagem de pouco-caso em entrevista, descrevendo os coronabonds como um slogan e aparentando demonstrar apoio às ressalvas da Alemanha em torno da proposta.

A linguagem suscitou críticas imediatas de Conte e Gualtieri, forçando a comissão a divulgar um comunicado no final da noite prometendo deixar a porta aberta a todas as opções que forem compatíveis com o tratado da União Europeia.

As posições mutantes de Von der Leyen refletiram em parte as diferenças agudas entre seus comissários e também na UE como um todo em relação à ideia dos coronabonds.

Embora a discussão sobre quais instrumentos financeiros podem ser usados para ajudar a Itália seja técnica, o tom do debate ficou emocionalmente carregado tanto no sul da Europa quanto no norte, onde a Holanda tomou o partido da Alemanha, opondo-se à ideia dos coronabonds.

Na semana passada, Calenda publicou um anúncio de página inteira no jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung, assinado por ele e vários governadores e prefeitos de esquerda das regiões mais atingidas pela pandemia.

No anúncio, atacaram a posição holandesa, descrevendo-a como “um exemplo de falta de ética e solidariedade”, descreveram o país como paraíso fiscal e compararam a relutância alemã em apoiar uma dívida europeia conjunta com o cancelamento parcial das dívidas de guerra dos nazistas pelos países europeus, incluindo a Itália, após a Segunda Guerra Mundial.

“A Alemanha nunca teria conseguido pagar essa dívida”, dizia a carta. “Seu lugar é com a Europa das instituições, dos valores da liberdade e da solidariedade. Não seguindo egoísmos nacionais mesquinhos.”

“Eles não deviam utilizar argumentos emocionais desse tipo”, opinou Eckhardt Rehberg, deputado alemão da União Democrata-Cristã, o partido da chanceler Angela Merkel.

“Cada país precisa se perguntar se tem alguma responsabilidade pela situação em que se encontra. Vejam o sistema de saúde da Itália. Vocês não podem atribuir todas suas dificuldades à Europa e à Alemanha. Como político alemão, acho isso injusto.”

As tensões atuais entre Alemanha e Itália fazem parte de uma disputa que vem de mais longe, remetendo às crises da dívida soberana dos países da zona do euro entre 2010 e 2012.

Mesmo à época, muitos no sul da Europa encaravam eurobonds (títulos de dívida europeia) como uma solução potencial.

Mas Angela Merkel sempre foi contra a ideia, dizendo em 2012 que não haveria tais instrumentos “enquanto eu estiver viva”.

Para a chanceler e seu partido, a CDU, os tratados da UE são sacrossantos, e eles proibiam expressamente a mutualização da dívida. A regra era clara: os países não podem financiar uns aos outros.

Mas a reputação de Merkel na zona do euro, como um todo, saiu prejudicada. Cada vez mais os cidadãos do sul passaram a encarar a chanceler alemã como a grande disciplinadora da Europa.

Cartazes apareceram na Grécia mostrando-a com um bigodinho de Hitler. Merkel foi retratada como bruxa, como dominatrix ou madrasta malvada e foi acusada de tentar subjugar o continente inteiro.

A hostilidade contra Merkel na Itália foi alimentada intencionalmente pelo império de mídia do então primeiro-ministro Silvio Berlusconi. Vieram à tona gravações de telefonemas grampeados em que ele aludia à chanceler em termos altamente depreciativos.

Em agosto de 2012 o jornal Il Giornale, pertencente ao irmão de Berlusconi, publicou uma foto de capa de Merkel erguendo a mão numa saudação vagamente fascista, acompanhada por um artigo dizendo que a Itália “não está mais na Europa, está no Quarto Reich”.

A crise vem encorajando políticos da direita italiana que percebem que a opinião pública está indo contra Bruxelas e tornando-se mais anti-Alemanha.

“A União Europeia passou de não fazer absolutamente nada a tentar lucrar com as dificuldades que estamos enfrentando”, diz Giorgia Meloni, líder do partido de extrema direita Irmãos da Itália, que conquistou avanços importantes nas pesquisas de opinião, tornando-se o segundo partido de direita mais popular, depois da Liga, de Salvini.

“Há pessoas que tentam usar o vírus para especular. Existe um jogo que visa enfraquecer a Itália e comprar nossos ativos estratégicos”, disse ela ao Financial Times. “Enquanto contamos nossos mortos, eles contabilizam o risco de perder juros sobre seus títulos de dívida.”

Claudio Borghi, deputado da Liga que lidera uma campanha acirrada para impedir a Itália de aceitar dinheiro do MEE –argumentando que isso equivaleria a entregar a soberania do país—, postou esta semana um cartaz da era fascista italiana com um soldado alemão sorridente estendendo a mão.

O texto diz “a Alemanha é verdadeiramente sua amiga”. Borghi escreveu: “O tempo passa, mas as táticas usadas são sempre as mesmas”.

A deputada verde alemã Franziska Brantner diz que os italianos com quem conversa se veem como “um laboratório do corona”: “Eles acham que a Alemanha está acompanhando o que se passa na Itália e tentando aprender com sua experiência. O clima entre meus amigos pró-europeus na Itália é de amargura extrema".

"Eles perguntam: ‘O que foi que fizemos aos alemães para eles nos tratarem assim?’”

Os pró-europeus da Itália esperam que o choque crescente provocado pela crise da Covid-19 convença os países recalcitrantes do norte da Europa a fazerem um gesto de solidariedade suficientemente grande para reparar o dano já provocado.

Nos últimos dias os adversários da ação fiscal coletiva têm estado na defensiva, à medida que a escala enorme da queda econômica vem se evidenciando.

Na Holanda, o governo do primeiro-ministro Mark Rutte propôs na quarta-feira passada a criação de um fundo de solidariedade de € 20 bilhões (R$ 114 bilhões), com transferências em dinheiro a serem encaminhadas diretamente para os cofres de Roma e Madri para financiar gastos médicos emergenciais.

Seu ministro das Finanças, Wokpe Hoestra, foi criticado no sul depois de ter pedido que Bruxelas investigue por que algumas economias não têm proteções fiscais que lhes deem garantias durante uma crise. O primeiro-ministro português António Costa qualificou a declaração como “repulsiva”.

A proposta de Rutte cobriria apenas uma pequena parte do rombo, em vista dos desafios financeiros públicos vertiginosos enfrentados pela Itália e Espanha, mas o simples fato de um país que tradicionalmente se opôs com veemência a quaisquer transferências fiscais entre membros da zona do euro fazer tal sugestão é um indício da mudança na opinião pública.

O ministro francês das Finanças, Bruno le Maire, apresentou na quinta-feira planos para a criação de um fundo conjunto “excepcional e temporário” para ajudar os países a iniciar sua recuperação.

Esse fundo emitiria títulos de dívida com a garantia conjunta de todos os países membros da UE e seria operado pela Comissão Europeia.

“Solidariedade significa podermos juntar nossos recursos para lidar com as consequências da crise”, disse Le Maire. “Evitemos os debates ideológicos sobre eurobonds ou coronabonds. A pergunta política é uma só: vamos ficar unidos ou não?”

Para Donald Tusk, resta pouco tempo para os países mais ricos da UE proporem iniciativas positivas e ousadas e evitarem provocar qualquer sentimento de humilhação nos países que precisam de assistência.

“As pessoas estão sofrendo agora”, disse ele. “Não é um jogo político. Num momento como este, as pessoas precisam sentir que somos uma comunidade real e uma família real.”

Tradução de Clara Allain

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