Bush pede fim de disputa partidária na crise e é atacado por Trump, também republicano

Ex-presidente participou de projeto para pedir união nacional durante a pandemia

Washington | The New York Times

O ex-presidente dos EUA George W. Bush pediu aos americanos neste sábado (2) que deem um fim às diferenças partidárias, respeitem a orientação de profissionais de saúde e mostrem empatia pelos atingidos pela pandemia de coronavírus e pela devastação econômica resultante da crise.

Em um vídeo de três minutos, Bush, que raramente se manifesta sobre acontecimentos atuais, imprimiu tom de unidade que contrasta com a abordagem mais combativa adotada pelo atual presidente do país, Donald Trump, assim como fez ao evocar o sentimento de solidariedade nacional após o 11 de Setembro.

"Vamos nos lembrar o quão pequenas são as nossas diferenças diante dessa ameaça que atinge todos", disse Bush no vídeo produzido profissionalmente, com trilha sonora e fotografias de profissionais da área médica ajudando vítimas do vírus e de cidadãos americanos usando máscaras.

O ex-presidente dos EUA George W. Bush, refletido em um espelho, durante evento na Casa Branca, em Washington
O ex-presidente dos EUA George W. Bush, refletido em um espelho, durante evento na Casa Branca, em Washington - Shawn Thew - 26.out.01/AFP

“Em última análise, não somos combatentes partidários. Somos seres humanos, igualmente vulneráveis e igualmente maravilhosos aos olhos de Deus. Crescemos ou caímos juntos e estamos determinados a crescer.”

No Twitter, em resposta a um apresentador do canal Fox News, Trump escreveu que gostou da mensagem do ex-presidente, mas perguntou "onde ele [Bush] estava durante o impeachment para pedir que o partidarismo fosse deixado de lado".

"Ele estava em algum lugar onde não poderia ser encontrado para se posicionar contra a maior trapaça na história dos EUA!"

A mensagem de Bush faz parte de uma série de vídeos exibidos online dentro do projeto The Call to Unite (a chamada para se unir), transmitido durante 24 horas ao vivo, que também incluiu a participação de Oprah Winfrey, Julia Roberts, Martin Luther King III, Sean Combs, Naomi Judd, Andrew Yang e outros.

O ex-presidente Bill Clinton também deixou uma mensagem, aparentemente de sua casa. "Precisamos um do outro e fazemos melhor quando trabalhamos juntos", disse ele.

“Isso nunca ficou tão claro para mim, pois tenho visto a coragem e a dignidade dos socorristas, dos profissionais de saúde, de todas as pessoas que estão ajudando a fornecer nossa comida, nosso transporte, nossos serviços básicos para outros trabalhadores essenciais."

Trump se recusou a convidar seus antecessores para ajudar a unir o país durante a pandemia, que já matou mais de 66 mil pessoas nos EUA e deixou mais de 30 milhões de pessoas desempregadas.

Ex-presidentes fizeram questão de convidar ex-ocupantes da Casa Branca de ambos os partidos em tempos de crise para demonstrar determinação e unidade nacional.

Bush recrutou seu pai, o ex-presidente George Bush, e Clinton para pedir ajuda nas respostas a um tsunami devastador na Ásia e, depois, ao furacão Katrina. O ex-presidente Barack Obama pediu a Bush e Clinton que o ajudassem após um terremoto no Haiti.

Trump, por sua vez, descartou a ideia de chamar antecessores em busca de ajuda, seja para participar ou mesmo para oferecer conselhos. "Acho que não vou aprender muito", disse ele, em março, quando questionado sobre a ideia. "Você poderia dizer que provavelmente há uma inclinação natural a não ligar".

Bush nunca gostou de seu colega republicano. Trump derrotou seu irmão, Jeb Bush, na disputa pela indicação do partido em 2016 e já criticou diversas vezes o ex-presidente.

Bush se recusou a apoiar o atual líder dos EUA naquela eleição, dizendo que havia votado em "nenhuma das opções acima". Embora não aprove a gestão Trump, Bush ficou em silêncio desde então, com algumas exceções notáveis, como durante um discurso em Nova York e quando fez um elogio ao senador John McCain (1936-2018), ocasiões vistas como repreensões implícitas ao presidente.

Na mensagem de vídeo exibida no sábado, Bush lembrou os dias difíceis após o 11 de Setembro. "Lembre-se, já enfrentamos tempos desafiantes antes", disse ele, enquanto imagens do ex-presidente confortando parentes mortos nos ataques apareciam na tela.

“Depois do 11 de Setembro, vi uma grande nação surgir como uma homenagem aos corajosos, para sofrer com os que sofrem e para abraçar novos deveres inevitáveis. E não tenho dúvida nenhuma de que esse espírito de serviço e sacrifício está vivo e bem na América.”

Bush também pediu compaixão, uma característica que Trump evitou amplamente durante a pandemia para demonstrar o que considera força e otimismo.

"Lembremos que empatia e gentileza simples são ferramentas poderosas e essenciais para a recuperação nacional. Vamos lembrar que o sofrimento que experimentamos como nação não se vai uniformemente."

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