Mitos cercam a 2ª Guerra, encerrada há 75 anos na Europa

Visões antagônicas de vencedores do conflito com o Eixo distorcem realidade

São Paulo

O evento culminante do século 20, responsável pela arquitetura do mundo que hoje está em desarranjo devido à pandemia da Covid-19, completa 75 anos de seu fim nesta sexta (8).

Bom, isso se você achar que o fim da Segunda Guerra Mundial deve ser marcado pela capitulação da Alemanha nazista, poucos dias depois do suicídio do ditador Adolf Hitler.

A guerra em si seguiu seu curso até 2 de setembro, quando os japoneses entregaram os pontos por medo de aniquilação atômica. Ou não, dado que essa assertiva sobre o fim da guerra no Pacífico é objeto de contestações.

Funcionário prepara memorial em Londres para celebração do fim da guerra - Daniel Leal-Olivas/AFP

Mitos acerca dos rumos da guerra mais mortífera da história, com talvez 70 milhões de fatalidades, existem desde que as fake news não se chamavam assim.

Muito vem da produção cultural dos vencedores: a ideia de que o Dia D foi realmente o dia D da guerra é coisa do cinema norte-americano —que credita aos EUA, e não aos mais importantes britânicos, a operação.

Russos nem sequer chamam a Segunda Guerra por esse nome, ciosos de sua leitura sobre as origens do conflito e do preço pago em sangue (27 milhões de mortos).

Tomos inteiros foram dedicados, ao longo dos anos, a tentar colocar ordem na casa. Abaixo, a Folha elenca algumas dessas versões.

Quem deixou Hitler agir?

Se Hitler (1889-1945) é o vilão da história, por sua política expansionista que levou à invasão da Polônia em 1939, os vencedores têm suas parcelas de culpa. Russos apontam para o Acordo de Munique (1938), quando o Ocidente deixou Hitler com rédea solta. Na mão contrária, o pacto nazi-soviético de 1939 abriu caminho para a guerra.

Hitler era um líder militar brilhante

Hitler era titubeante. Seu sucesso inicial, muito decorrente de táticas de seus comandantes, como Heinz Guderian, o lançou em aventuras suicidas, como a insistência em tomar Stalingrado.

Os poloneses lutaram com cavalos contra tanques

Havia regimentos de cavalaria em todos os exércitos europeus, mas a ideia de que cavalos foram usados contra tanques era parte da propaganda alemã para inferiorizar os poloneses.

Aliás, ninguém usava cavalos

Ao contrário. A Alemanha usou 2,75 milhões de animais e tinha três vezes mais cavalos do que veículos no começo da guerra. Os soviéticos usaram ainda mais: 3,1 milhões.

A França caiu por fraqueza

Paris caiu em seis semanas pelos nazistas por uma questão tática: não estavam preparados para a Blitzkrieg (guerra-relâmpago) alemã.

Londres repeliu a invasão

Versão amparada na bravura do comando de Winston Churchill (1874-1965) e na Batalha da Inglaterra, travada nos ares. Mas a Alemanha não tinha, em 1940, meios navais suficientes para efetuar a invasão. Em 1941, já estava engajada com a União Soviética.

O atraso na invasão fez Hitler perder na União Soviética

É comum dizer que a invasão da Iugoslávia e da Grécia, para salvar os aliados italianos, atrasou o ataque aos soviéticos em 1941, levando o duro inverno russo a parar os nazistas. A invasão só ocorreu em junho porque antes é o período de chuvas no país, que virava um lamaçal. O inverno afetou os alemães, mas muito porque tinham avançado demais e enfraquecido suas linhas de suprimento.

Stálin só reagiu por causa da ajuda americana

O ditador soviético Josef Stálin (1878-1953) recebeu aviões, jipes e caminhões. Mas o grosso da ajuda começou a chegar na virada de 1943 para 1944, quando suas tropas já estavam às portas da Polônia.

EUA deixaram o Japão atacar

Teoria popular que não se sustenta em evidências.

A Suíça era totalmente neutra

No papel, sim, mas houve bastante colaboração com nazistas, que protegiam seu ouro em cofres suíços e contavam com a proibição do uso do espaço aéreo por aviões aliados.

A máquina de guerra alemã era eficiente

As memórias de Albert Speer, arquiteto de Hitler e seu ministro dos Armamentos, mostra uma máquina confusa e cheia de sobreposições mesmo em tempos de paz.

Os soviéticos sempre foram mais numerosos

Nas principais batalhas da guerra até 1943, não. O maior engajamento militar da história, a Batalha de Moscou, opôs 1,4 milhão de soviéticos a 2 milhões de alemães.

Perder o Norte da África foi fatal para Hitler

A ideia de que os alemães queriam conquistar o Egito para tomar o petróleo do Oriente Médio é história alternativa: a opção poderia ter dado a vitória a Berlim. Na prática, Hitler só interveio com recursos mínimos no Norte da África para evitar a humilhação do aliado Benito Mussolini (1883-1945). Mesmo a consequente invasão aliada da Itália foi secundária para a derrota nazista.

O Dia D foi decisivo

Antes de 6 de junho de 1944, as grandes derrotas alemãs ante os soviéticos, como Kursk e Stalingrado, selaram o destino de Hitler. No dia 22 de junho, uma operação soviética três vezes maior acelerava rumo a Berlim. O Dia D certamente acelerou as coisas, mas hoje parece ter tido papel mais importante para evitar que os soviéticos tomassem toda a Europa Ocidental.

Os americanos lutavam com 'soldados cidadãos'

Outro mito hollywoodiano. Dois terços dos soldados dos EUA na guerra foram convocados, não se alistaram para defender a democracia.

A Resistência Francesa foi vital para os aliados

Romantização dos tempos de “Casablanca”, o papel da Resistência foi mais de ajudar a reunir dados de inteligência do que para fulminar nazistas.

Churchill era unanimidade

Ele era tão polêmico entre seus aliados e eleitores que foi escorraçado do poder em 1945, quando os canhões mal tinham esfriado. Seu brilho em 1940 foi o que ficou para a história, mas sua carreira foi marcada por fracassos.

A bomba atômica forçou o fim da guerra

Se os artefatos que mataram 200 mil pessoas tiveram impacto, a campanha de bombardeio já havia tornado a posição nipônica insustentável. Além disso, a invasão soviética dos territórios japoneses na China, no mesmo dia da bomba de Nagasaki, prenunciou um conflito sem chance para o império. Isso enfraquece o argumento de que a bomba evitou milhões de mortes numa invasão americana.

Só os nazistas fizeram atrocidades na guerra

O Holocausto é o crime mais inominável do período. Mas a lista pode incluir a obliteração de cidades alemãs pelos aliados, a brutalidade japonesa em suas ocupações e os estupros em série e a violência soviética na Alemanha, entre muitos outros.

O podcast Café da Manhã desta sexta trata da participação do Brasil no conflito, com a participação de Anastácio Dédea, ex-pracinha da Força Expedicionária Brasileira, e do historiador Francisco César Ferraz, doutor pela USP. Ouça abaixo:

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