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Coronavírus

Reunir rivais para debater reação ao vírus parece impossível, mas não no Chile

Sebastián Piñera convocou ex-presidentes para discutir estratégias do governo durante pandemia

Buenos Aires

Em meio à crise de coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro resolve se reunir com Michel Temer, Dilma Rousseff, Lula e FHC para debater as estratégias no combate à pandemia no Brasil.

Impossível, certo? Não para o Chile. Na última sexta-feira (15), o presidente Sebastián Piñera realizou um encontro virtual com os ex-mandatários Eduardo Frei Ruiz-Tagle, Ricardo Lagos e Michelle Bachelet.

O atual líder chileno, à direita no espectro ideológico do grupo, escutou com atenção os antecessores, todos eleitos pela aliança de centro-esquerda Concertación.

Além de oferecer conselhos à gestão do governo na pandemia, a reunião serviu para tratar da recessão econômica que vem a reboque da crise sanitária e da necessidade de atender os mais vulneráveis.

Encontro de Sebastián Piñera (acima, à direita) com os ex-presidentes Ricardo Lagos (abaixo, à direita), Michelle Bachellet (abaixo, à esquerda) e Eduardo Frei Ruiz-Tagle (acima, à esquerda) - Twitter / @sebastianpiñera

O Chile vinha em um movimento de reabertura da economia, quando, na semana passada, foi surpreendido por um aumento no número de infecções, o que levou o governo a decretar "lockdown" de uma semana na capital Santiago e em seis municípios da área metropolitana.

Num contexto de polarização extrema na região, em que, na última transição argentina, a atual vice Cristina Kirchner fez até careta ao cumprimentar o agora ex-presidente Mauricio Macri —que sequer olhou para a rival—, o encontro representa a civilidade e a deferência dos chilenos ao Estado de Direito.

O respeito à oposição, às instituições e à liberdade de expressão, porém, não são novidades no país e remontam ao século 19. Basta lembrar que intelectuais argentinos que lutavam contra o autoritarismo do caudilho Juan Manuel de Rosas (1793-1877) só conseguiam publicar seus manifestos no Chile.

A ditadura militar (1973-1990) foi uma interrupção dessas práticas de boa conduta política e diplomática. Logo depois, nos governos da aliança Concertación, foram recuperadas.

Mais formais que os uruguaios, que também prezam pela civilidade política, os chilenos cumprem alguns rituais. Bachelet mais de uma vez convocou ex-mandatários para tratar de questões sensíveis do Estado, assim como Piñera fez na sexta-feira.

Nas transições, tal civilidade é exibida em cadeia nacional, como importante símbolo de elogio a uma relação boa e pacífica entre opositores.

Na última eleição, Bachelet, como fizeram seus antecessores da época pós-ditadura, telefonou na própria noite da votação para o vencedor, Sebastián Piñera, para cumprimentá-lo.

O diálogo, em que trocaram palavras amistosas e marcaram um café da manhã no dia seguinte para discutir a transição, foi transmitido ao vivo pela TV para todo o país.

Na primeira eleição de Piñera, em 2010, seu rival, Eduardo Frei Ruiz-Tagle, também o cumprimentou na sequência, mesmo que a diferença entre os dois tenha sido de apenas 2 pontos percentuais.

Vale lembrar, também, que o atual presidente chileno já defendeu Bachelet quando Jair Bolsonaro fez comentários ofensivos sobre o pai da ex-presidente, vítima de tortura na ditadura militar.

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