Campanha antirracismo com quadrados pretos viraliza nas redes e gera críticas

'Blackout Tuesday' foi vista por músicos como ação que tira foco de informações úteis sobre movimento negro

São Paulo

Os usuários do Instagram que utilizaram a rede social nesta terça (2) notaram que as tradicionais selfies e fotos de pães feitos na quarentena deram lugar a quadrados pretos.

Sob o nome de “Blackout Tuesday” (apagão da terça-feira), as postagens se tornaram a versão virtual —e silenciosa— dos protestos que tomaram as ruas dos EUA na última semana.

O motivo das manifestações é a morte de George Floyd, homem negro de 46 anos cujo pescoço foi prensado no chão pelo joelho de um policial branco por quase nove minutos. As mensagens também criticam, de maneira geral, a violência da polícia dos EUA contra negros.

Tela de celular mostra peril do Instagram com postagens da campanha "Blackout Tuesday"
Tela de celular mostra peril do Instagram com postagens da campanha "Blackout Tuesday" - Eric Baradat/AFP

Criado por duas executivas negras da indústria da música, as americanas Jamila Thomas e Brianna Agyemang, a iniciativa virtual quer “perturbar intencionalmente a semana de trabalho”, explicam elas no site do manifesto, intitulado #TheShowMustBePaused (o show tem que ser pausado).

“A segunda-feira sugere um fim de semana prolongado, e não podemos esperar até sexta-feira para a mudança. [2 de junho] é um dia de pausa para uma conversa honesta, reflexiva e produtiva sobre quais ações precisamos tomar, coletivamente, para apoiar a comunidade negra”, afirmam.

O manifesto explica que há uma longa história de racismo na bilionária indústria da música, que fez boa parte de seus lucros a partir da arte produzida por negros, segundo as autoras.

Na prática, a iniciativa se converteu em ações de grandes corporações. A plataforma de streaming Spotify colocou intervalos de 8 minutos e 46 segundos em algumas de suas playlists, em referência ao tempo em que o policial pressionou o joelho no pescoço de Floyd.

Grandes gravadoras como Warner Music e Atlantic não trabalharam na terça. A ideia se espalhou para diversos setores, e seu significado original de um dia de pausa no trabalho para pensar em questões raciais foi ampliado.

Alguns ativistas, no entanto, criticaram a iniciativa. Muitos usuários das redes incluíram a hashtag "black lives matter" (vidas negras importam), frase que dá nome ao movimento antirracismo, e quem pesquisasse a hashtag via, em sua grande maioria, apenas quadrados pretos.

"Quando você busca #BlackLivesMatter, não aparecem mais vídeos, informações úteis, registros de casos de injustiça. Só filas de telas pretas", escreveu a cantora de R&B Kehlani numa rede social.

O rapper Lil Nas X disse acreditar que deixar de postar por um dia era a pior ideia do mundo.

"Acho que este é o momento de demonstrarmos força. Penso que o movimento nunca foi tão poderoso. Não faz sentido desacelerarmos e ficarmos sem publicar nada. Precisamos espalhar informações e fazer barulho como nunca fizemos antes", escreveu ele numa rede social.

Internautas e ativistas também alertaram para o risco de que as publicações fossem usadas como forma de autopromoção.

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