Onda antirracismo cresce, e polícia britânica já teme batalha das estátuas

Movimento lista 80 alvos no Reino Unido, e grupos prometem contra-ataque

Bruxelas

Apanhados na esteira dos protestos antirracismo após a morte do americano George Floyd, 80 locais em várias cidades do Reino Unido viraram tema de uma discussão que pode ganhar contornos de batalha, na avaliação da polícia britânica.

São estátuas e bustos de personagens acusados de promover escravidão e racismo, que manifestantes querem derrubar, e edifícios, ruas e praças, que eles querem ver trocar de nome.

A estátua do comerciante de escravos Edward Colston é jogada em rio por manifestantes em Bristol
A estátua do comerciante de escravos Edward Colston é jogada em rio por manifestantes em Bristol - Keir Gravil - 7.jun.20 via Reuters

O movimento, que cresceu depois que manifestantes arrancaram e jogaram no rio uma estátua do comerciante de escravos Edward Colston em Bristol no último final de semana, gerou uma contrarreação de grupos de direita e até de torcidas organizadas, que começaram a convocar seus membros para defender os locais.

O assunto acirrou os ânimos nas redes sociais e promete esquentar nas ruas, mas a discussão sobre tirar de vista personagens controversos não se limita a movimentos inflamados.

Governantes e administradores de universidades defenderam nesta semana a retirada de algumas imagens ou até mesmo se anteciparam e encaixotaram figuras antes expostas publicamente.

O Derrube os Racistas, grupo que colocou na internet um mapa interativo para marcar os seus até agora 80 alvos, diz que “estátuas são objetos de adoração pública”, o que deveria excluir proprietários de escravos e colonialistas.

"Devemos aprender com esse terrível capítulo da história colonial britânica, e não venerá-lo", afirmam.

Entre os nomes que o movimento querem ver “debatidos” estão Francis Drake (explorador do século 16), Horatio Nelson (almirante durante as Guerras Napoleônicas, no século 18) e o escocês Henry Dundas (secretário do Interior no século 18, responsável por adiar a abolição).

No topo da lista está Cecil Rhodes, supremacista branco considerado um dos mentores do apartheid na África do Sul, alvo de uma petição também na Universidade de Oxford (no país africano, suas estátuas foram derrubadas em 2015).

Como os listados pelos ativistas são muitos e com variados graus de comprometimento, cresce o espaço para que alguns vejam exagero ou considerem que os méritos dos personagens superam seus erros.

O jornal britânico Daily Mail chegou a fazer um guia para explicar os prós e contras de 16 dos nomes levantados.

Os ataques atingiram até personagens que não estão na mira dos movimentos antirracismo, como a rainha Vitória (1819-1901). Na cidade de Leeds, uma estátua dela foi pichada com a frase “proprietária de escravos”, e apoiadores da monarca saíram em sua defesa dizendo que ela chegou ao trono em 1837, quatro anos após a abolição na Inglaterra.

A maior preocupação da polícia de Londres, porém, é com o primeiro-ministro Winston Churchill (1874-1965), que também teve uma estátua pichada no norte de Londres.

Segundo a polícia, torcedores de futebol violentos, conhecidos como “hooligans”, começaram a organizar pela internet contraprotestos para defender memoriais e imagens dos que chamam de “heróis de guerra”.

Nesta terça (9), um grupo de torcedores do Millwall, time do sudeste de Londres, passou o dia guardando uma estátua de Churchill na praça do Parlamento, e torcidas do Cardiff e do Blackpool convocaram seus membros para “evitar o vandalismo com a força, se for preciso”.

Entre os que chamaram simpatizantes para defender os monumentos estão também o ativista de direita radical Tommy Robinson e o grupo Britain First.

"Está se formando uma tempestade perfeita pela frente neste fim de semana”, disse Ken Marsh, representante da Federação Metropolitana de Polícia, referindo-se a protestos planejados de um lado e trincheiras e “agitadores" do outro.

Enquanto a tempestade se forma, alguns agentes começaram a se antecipar.

O Museu da Zona Portuária de Londres retirou de sua área externa a figura de Robert Milligan (dono de escravos na Jamaica), para "reconhecer os desejos da comunidade", e os prefeitos de Londres, Sadiq Khan, e Bristol, Marvin Rees, avisaram que vão revisar todos os monumentos e locais ligados ao comércio de escravos ou à promoção do racismo.

Na Bélgica, onde ganhou força nos últimos dias uma campanha já antiga para tirar de cena o rei Leopoldo 2º, um busto do monarca que colonizou o Congo (atual República Democrática do Congo) foi para o depósito na Universidade de Mons.

“Vamos guardá-lo para sempre, para que nenhum estudante, professor ou visitante se sinta ofendido por sua presença”, afirmou a universidade numa rede social.

O secretário de Patrimônio de Bruxelas, Pascal Smet, também disse ser a favor da remoção das estátuas da capital. Ele criou uma comissão para estudar o caso com representantes da comunidade congolesa e com especialistas e, numa entrevista de rádio, disse que espera uma decisão rápida.

Os ministros da Educação das três regiões belgas também pretendem incluir no currículo a história da colonização da África. “A maioria dos nossos alunos não ouve falar dos mecanismos de exploração e dominação usados", disse à imprensa belga a ministra da região francófona, Caroline Désir.

Em Flandres, região de língua flamenga, o Ministério da Educação anunciou que vai estender para o ensino médio (e portanto cobrar nos exames para universidades) os temas imperialismo, colonialismo, neocolonialismo e descolonização.

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