Descrição de chapéu

Londres reabre debate sobre politicamente correto ao revisar estátuas de racistas

Critérios para definir quem merece permanecer homenageado sempre foram e serão políticos

São Paulo

Os antigos faraós egípcios consideravam a inscrição de seus nomes em pedra, os chamados cartuchos, essencial para garantir a eternidade. Tenha seu nome repetido, viva para sempre.

As ruínas em Luxor ou Karnak dão exemplos múltiplos de como governantes às vezes tentavam apagar a memória do antecessor: raspando cartuchos e destruindo estátuas. O caso mais clássico talvez seja o de Akhenaton, que reinou por volta de 1352-1335 antes de Cristo.

Estátua de Edward Colston é jogada no rio Avon, em Bristol
Estátua de Edward Colston é jogada no rio Avon, em Bristol - Giulia Spadafora - 7.jun.20/NurPhoto via AFP

Impopular por ter instituído o primeiro monoteísmo no país, eliminando 2.000 deuses e castas de sacerdotes no processo, Akhenaton sofreu uma enorme campanha de cancelamento, para usar um termo moderno, após sua morte.

Nesta terça (9), o prefeito de Londres, Sadiq Khan, anunciou que revisará a conveniência de se ter estátuas ou nomes de logradouros públicos em homenagem a pessoas ligadas à escravidão.

Foi uma resposta rápida ao crescimento dos protestos contra racismo, que eclodiram em vários pontos do mundo na esteira da morte do segurança negro George Floyd (1973-2020) sob o joelho asfixiante de um policial branco em Minneapolis.

Khan se adiantou ao inevitável. No domingo (7), manifestantes atacaram estátuas por todo o Reino Unido. O caso mais famoso foi a derrubada e o afundamento num rio da efígie de Edward Colston (1636-1721), um mercador de escravos de Bristol.

Ele, que dificilmente seria defendido em um fórum moderno, não foi o único. Em Londres, a estátua do premiê Winston Churchill (1874-1965) ganhou um adendo pichado: "Era um racista".

Em entrevista à rede Sky News, Khan disse que não iria tão longe a ponto de classificar grandes figuras da história, como Churchill ou o líder indiano Mahatma Gandhi (1869-1948), como racistas —eles o foram, mas também desempenharam papéis enormes e importantes.

Funcionário lava inscrição 'era um racista' do pedestal de estátua de Churchill, em Londres
Funcionário lava inscrição 'era um racista' do pedestal de estátua de Churchill, em Londres - Justin Tallis - 8.jun.20/AFP

O prefeito não está sozinho. A decisão sobre considerar quem merece ser lembrado e quem não merece transcende questões raciais, um claro crime contra a humanidade, e, em última análise, sempre é política.

Nos EUA, onde a atual onda revisionista começou, discute-se há anos a retirada de estátuas de generais da Confederação, o lado derrotado na guerra civil de 1861-65, associados ao Sul escravocrata.

Um monumento que será desvelado neste ano em homenagem às sufragistas americanas que lutaram pelo direito a voto, no Central Park de Nova York, teve de ser redesenhado para incluir uma ativista negra.

Inicialmente, seriam estátuas das duas líderes mais famosas do movimento, apontadas por historiadores como elitistas e racistas.

Se a escravidão é central na psiquê política americana, na Europa o tema é agudizado devido ao passado colonialista. A questão da devolução de artefatos retirados de antigas possessões na Ásia e na África tem provocado revisão de exposições em museus e fechamento de coleções.

Na Bélgica, o monstruoso legado da exploração do Congo garantiu um capítulo à parte nas manifestações deste ano ao rei Leopoldo 2˚ (1835-1909) e suas estátuas.

Na tarde desta terça, manifestantes foram à Universidade de Oxford, no mesmo Reino Unido, pedir a retirada da estátua de Cecil Rhodes, que criou um império de extração de diamantes na África do Sul e é considerado um dos pais do antigo apartheid que reinava no país.

Oxford, onde ele estudou, já havia tido esse debate em 2016, após a Universidade da Cidade do Cabo se livrar da estátua de Rhodes.

Os britânicos concluíram que seria mais válido instruir estudantes sobre o papel das pessoas que por lá haviam passado —os feitos e os desmandos— do que simplesmente apagá-las.

Historiadores menos apaixonados tendem a adotar essa solução, embora haja sempre o argumento "lacrador": se fosse assim, por que destruíram as estátuas de Adolf Hitler (1889-1945), o símbolo máximo do mal no Ocidente?

A resposta rápida é porque ele perdeu a Segunda Guerra Mundial (1939-45). Mas mesmo isso é sujeito a conveniências: um dos grandes vencedores, o também ditador e sanguinário Josef Stálin (1878-1953), viu suas estátuas desaparecerem da União Soviética à medida que o regime revelava os horrores cometidos.

Assim, ainda há várias ruas Stálin e pelo menos uma grande estátua em sua homenagem em sua natal Geórgia, mas não se vê nada disso em Moscou —exceto em seu túmulo e no Parque das Esculturas, que abriga diversas efígies soviéticas ao sul do Kremlin.

Estátua do comerciantes de escravos Robert Milligan é removida da parte externa do museu da região das docas de Londres
Estátua do comerciantes de escravos Robert Milligan é removida da parte externa do museu da região das docas de Londres - John Sibley/Reuters

"Em compensação, ainda há um número considerável de Lênins por aqui. Se ele foi poupado, não foi por falta de violência em seu governo", recorda o historiador Nikolai Sokolov, de Iekaterinburgo, em referência ao fundador da União Soviética, Vladimir Lênin (1870-1924).

O Brasil passou por esse debate recentemente. Logradouros em São Paulo que homenageavam figuras da ditadura militar foram renomeados, e o Minhocão deixou de ser elevado Arthur da Costa e Silva (1899-1969) para homenagear o derrubado João Goulart (1919-1976).

A discussão sobre a homenagem a racistas por ora só chegou à internet brasileira, com um alvo fácil: o bandeirante Borba Gato (1649-1718), cuja horrenda estátua na avenida Santo Amaro assombra paulistanos há anos.

Manifestantes antirracismo atacam estátua do rei belga Leopoldo 2˚, no domingo
Manifestantes antirracismo atacam estátua do rei belga Leopoldo 2˚, no domingo - Yves Herman - 7.jun.2020/Reuters

Noves fora questões estéticas, há questões identitárias envolvidas. A política de São Paulo sempre promoveu a imagem do bandeirante como desbravador destemido de interiores, enquanto revisionistas só os viam como genocidas aproveitadores de índios e negros escravos.

A historiografia das conquistas portuguesas no século 16 deixa claro que havia brutalidade e engenho em iguais medidas, que se refletiram no processo colonizatório nos anos a seguir.

Há também uma questão subjacente. Não é descabido associar os exageros do politicamente correto, em especial em sua vertente norte-americana dos anos 1990, à ascensão do reacionarismo cultural que deságua na eleição de Donald Trump, em 2017.

O embate se espraia e amplifica a discussão atual, com discípulos de Trump como Jair Bolsonaro dizendo que estão em guerra contra o politicamente correto, como o brasileiro fez em seu discurso inaugural em 2019.

Não é uma discussão nova e diz respeito a relações de poder, como o faraó Akhenaton poderia atestar.

De sua parte, restaram a fama de ser pai do famoso Tutancâmon e pouquíssimas estátuas, e a mais tocante delas é na verdade apenas um vestígio: sua mão dada à da mulher, Nefertiti, que flutuam numa sala do Neues Museum de Berlim.

Por sinal, é um dos vários artefatos que o governo no Cairo exige que sejam devolvidos por seus saqueadores imperialistas, demonstrando a perenidade do debate.

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