Com 62% de aprovação, presidente do Uruguai encara crise econômica na retomada

Recessão foi agravada pelos meses de paralisia devido à pandemia e pelo impacto no turismo

Buenos Aires

Luis Lacalle Pou, 46, está surfando. O presidente uruguaio de centro-direita, que retomou sua atividade esportiva preferida nas praias de Maldonado na semana passada, passou da marca dos quatro meses no cargo com 62% de aprovação.

O índice, do instituto de pesquisas Factum, reflete basicamente uma gestão sob a pandemia —que chegou ao Uruguai poucos dias depois de sua posse.

Lacalle Pou foi eleito pelo Partido Nacional (blanco) em outubro do ano passado por uma diferença mínima de votos (50,7% contra 49,2% de seu opositor, Daniel Martínez, da esquerdista Frente Ampla). No primeiro turno, ele havia sido escolhido por 28,6% dos eleitores.

Lacalle Pou em comício durante o segundo turno das eleições presidenciais do ano passado - Mariana Greif - 25.nov.19/Reuters

Em seus primeiros dias de governo, o presidente estava concentrado em encaminhar ao Congresso uma Lei de Urgente Consideração focada em reforçar a segurança pública, a principal preocupação manifestada pelos uruguaios no última eleição.

A chamada LUC acabou sendo promulgada na última sexta-feira (10), representando mais uma vitória para o novo presidente.

No dia 13 de março, com o primeiro caso do novo coronavírus confirmado no país, começaram as medidas sanitárias: fechamento de fronteiras, comércios e escolas e a aplicação de uma quarentena não obrigatória.

"A rapidez com a qual agiu e a forma como chamou para si a responsabilidade lhe deram muito crédito nessa crise sanitária e fizeram com que o índice de aprovação à sua gestão crescesse muito", diz Eduardo Botinelli, diretor do Factum.

"Ninguém pôde surgir como opositor nessa hora, porque moralmente seria inviável, seria como um suicídio político."

Com essas medidas, o Uruguai ostenta hoje os menores índices de infecção da América do Sul: são 987 casos e 31 mortes, segundo a universidade norte-americana Johns Hopkins.

E o presidente tem que lidar agora com uma espécie de pós-pandemia: a economia está sendo retomada, mas a recessão presente antes da emergência de saúde foi agravada pelos meses de paralisia e, especialmente, pelo impacto no turismo, que chega a responder por 2% do PIB nas temporadas de férias (em julho e de dezembro a fevereiro).

"Não foi por acaso que, ao assumir a presidência temporária do Mercosul, Lacalle Pou tenha chamado a atenção para a importância de construir pontes com a China e com os EUA e de se abrir para outras economias", explica a cientista política Victoria Gadea.

"Ele fez isso porque sabe que Brasil e Argentina, os dois gigantes econômicos que são os principais parceiros do Uruguai, viverão problemas econômicos no futuro próximo."

A outra preocupação de Lacalle Pou neste momento é com a manutenção de sua base política. Para derrotar a então hegemônica Frente Ampla, de centro-esquerda, que governou o Uruguai de 2005 a 2020, o Partido Nacional se uniu a seu histórico adversário, o Partido Colorado, ao novato direitista Cabildo Abierto e a outros partidos menores.

Com a vitória da chamada "coalizão multicolor", Lacalle Pou ficou com a responsabilidade de manter essa aliança unida. Uma vez fragmentada, ela perderá para a Frente Ampla no Congresso.

"É uma aliança frágil, que precisa ser trabalhada a cada caso. Se Lacalle Pou perde algum dos integrantes da coalizão 'multicolor', não terá mais poder de veto, e será difícil conviver em harmonia com o Congresso", diz Gadea.

Um dos exemplos de como precisa ter cuidado com esse arranjo é que Lacalle Pou foi pessoalmente ao Senado para acompanhar a votação da LUC.

"Isso não acontece no Uruguai. O Executivo não vai ao Legislativo. E ele não foi exercer pressão direta, mas sua presença ali era um fator simbólico que, ao final, exercia pressão de alguma maneira", diz Gadea.

A fragilidade da aliança ficou clara em seu desentendimento com os colorados, na figura de seu presidente, Ernesto Talvi, que renunciou no dia 1o ao cargo de chanceler do novo governo.

Segundo Botinelli, Talvi, que disputou a Presidência pelo partido Colorado, "tinha a ilusão de que, por ser parte de uma coalizão, este seria um governo horizontal, compartilhado, em que os colorados iam co-governar".

Mas a realidade é outra. "Na verdade, Lacalle Pou tem sido o presidente mais personalista que o Uruguai já teve desde o retorno da democracia [em 1985]", completa o analista.

É diferente da Frente Ampla, uma associação de vários partidos de centro-esquerda e de esquerda com mais de 40 anos de existência, que sempre teve uma estrutura de tomada de decisões mais democrática.

"Lacalle Pou não é assim. Sua relação com os ministros é pessoal, não há mesa de negociações, não há diálogos em coletivo, isso faz com que ele mantenha o poder de decisão, e foi isso que Talvi, por exemplo, não tolerou", diz Gadea.

Segundo ela, o enfrentamento da pandemia fortalece o presidente como centralizador das decisões. "Todos estão com medo e à espera de sua palavra como líder."

A demissão do chanceler foi anunciada durante a reunião do Mercosul, por meio de videoconferência.

Embora a diplomacia uruguaia tenha por tradição se manter neutra —o que causou fricções na reunião da cúpula, na qual o Uruguai freou propostas de reprimendas abertas à Venezuela—, Lacalle Pou expressou a vontade de chamar o regime comandado por Nicolás Maduro de "ditadura". Talvi foi contra, e a questão foi parte dos problemas.

É a essa tradição de neutralidade, no entanto, que o governo deve recorrer em sua relação com os vizinhos: o centro-esquerdista Alberto Fernández, na Argentina, e o brasileiro Jair Bolsonaro.

"Lacalle Pou vai se relacionar no melhor termo possível com ambos. E, apesar de sua agenda política ser próxima à de Bolsonaro, nunca assumirá isso publicamente", diz Gadea, que afirma não acreditar em retrocesso na agenda de direitos humanos e civis.

"No Uruguai, um recuo nesse setor seria muito mal visto."

O governo trabalha num protocolo para reabrir o país para o turismo internacional no próximo verão. Nas férias de inverno, deverá haver apenas trânsito interno —não há voos nem barcos vindo de fora do país por enquanto.

Enquanto enfrenta os novos desafios, Lacalle Pou disse que espera retomar o surfe com frequência, embora esteja "devagar como uma tartaruga", por conta dos meses sem praticar, como disse à imprensa local.

O presidente uruguaio, que cultiva uma imagem de inovador com uso de redes sociais para fazer política (enquanto os dois últimos presidentes, José "Pepe" Mujica e Tabaré Vázquez, não tinham nem contas em redes sociais), aprendeu a surfar em Florianópolis e, depois, na Barra de Maldonado.

Nas férias, quando podia, ia surfar na Costa Rica, em El Salvador e no Havaí.

Agora, deve enfrentar as ondas mais turbulentas da política pós-pandemia à frente do país invejado por todos no Mercosul.

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