Kits de registro de eleitores se espalham em centros médicos nos EUA

Profissionais de saúde fazem campanha para que mais pacientes se cadastrem para votar

Farah Stockman
Boston | The New York Times

A placa pode facilmente passar despercebida na sala de espera do departamento de emergências do Hospital Geral do Massachusetts, ao lado da mesa da recepção e de um dispenser de álcool em gel.

“Cadastre-se aqui para votar”, diz a placa, fixada acima de um iPad. O quiosque está no local desde novembro passado, antes de a pandemia começar, e continuou ali durante as piores semanas de abril, quando ventiladores foram ligados a 12 pacientes ofegantes em um único turno exaustivo de 12 horas.

.
Dr. Alister Martin a caminho do Hospital Geral de Massachusetts, em Boston - Tony Luong/The New York Times

Agora que o número de pacientes com coronavírus diminuiu muito, o dr. Alister Martin, 31, médico da sala de emergências que montou o quiosque, está determinado a continuar tentando cadastrar eleitores.

“Haverá em tempo em que, em meio à confusão do sofrimento, vamos perguntar ‘como podemos usar isto para melhorar nossa situação?’”, afirmou o médico, que sempre anda com um crachá pendurado ao pescoço com a frase “você está preparado para votar?”.

Intitulado VotER (eleitor + sala de emergência, ou sala de emergência dos eleitores, na sigla em inglês), seu projeto adquiriu nova urgência pelo fato de a pandemia ter limitado os esforços presenciais tradicionais de cadastramento de novos eleitores, e isso num momento em que a ligação entre falhas de políticas públicas e mortes tem ficado especialmente clara. Nos EUA, o voto não é obrigatório.

Agora, a despeito da pandemia global –ou possivelmente por conta dela—, o projeto está se disseminando pelos EUA. Desde maio, mais de 3.000 clínicas e hospitais em todo o país solicitaram kits para cadastrar seus pacientes como eleitores, incluindo hospitais de referência em Kansas, Arizona e Pensilvânia.

O VotER faz parte de um movimento mais amplo que incentiva os profissionais médicos a discutir as condições sociais subjacentes que levam seus pacientes a adoecer em primeiro lugar –fatores como fome, dependência de drogas e falta de moradia.

Trata-se essencialmente de um esforço para transformar a cultura da medicina, levando médicos e enfermeiros a enxergar a “saúde cívica” de seus pacientes como parte de seus deveres profissionais.

Os apoiadores do movimento dizem que o sistema de saúde tende a funcionar melhor em comunidades que votam, de modo que incentivar a participação em pleitos é uma estratégia que leva à melhora da saúde dos pacientes no longo prazo.

Jonathan Kusner, estudante do quarto ano de medicina e co-presidente da iniciativa Med Out the Vote, lançada pela Associação Americana de Estudantes de Medicina para incentivar a participação eleitoral, disse que sua organização está encorajando clínicos gerais a incluir a pergunta “você está cadastrado para votar?” nos questionários que os pacientes preenchem para fazer parte de sua ficha médica.

É algo semelhante às perguntas sobre violência doméstica incluídas nos questionários.

“Do mesmo modo em que pedimos que as pessoas adotem mudanças comportamentais relativas à alimentação, exercício físico ou saúde, podemos pedir que modifiquem seus hábitos cívicos”, diz Kusner, cuja organização formou uma parceria com a VotER para promover o cadastramento de eleitores em hospitais em todo o país.

Mas alguns profissionais de saúde desaprovam os esforços de cadastramento de eleitores, temendo que possam ser vistos como partidários. Depois de os médicos serem majoritariamente republicanos durante anos, hoje há chances maiores de serem democratas.

Outros acham que cadastrar eleitores foge do escopo do que os profissionais médicos devem pedir de seus pacientes. Poucos médicos foram ensinados a discutir o cadastramento eleitoral de modo não partidário, e muitos médicos de UTIs já se sentem sobrecarregados pelo trabalho, mesmo sem isso.

“Há uma voz muito forte que brada ‘isso não é da nossa alçada’”, disse o dr. Harrison Alter, diretor executivo fundador do Centro Andrew Levitt de Medicina Emergencial Social, que ajudou a popularizar um novo campo médico chamado “medicina emergencial social”, que ensina os médicos a discutir condições sociais que levam seus pacientes a adoecer.

Mas médicos recém-formados tendem a ser mais francos sobre a necessidade de se envolverem no esforço para promover a participação eleitoral dos pacientes e tentar consertar um sistema de saúde falido.

“No passado, a ideia de médicos tomarem uma posição política era visto como possivelmente antiprofissional”, disse a estudante de medicina Kelly Wong, fundadora da Patient Voting, campanha baseada em Rhode Island para fornecer informações a pacientes hospitalizados que os ajudem a superar as dificuldades de votar a partir do leito hospitalar.

“O engajamento cívico de nossos pacientes e nossas comunidades é realmente importante para a modificação de resultados de saúde.”

No ano passado, poucos meses depois de Alister Martin ser contratado como médico de UTI em tempo integral e membro do corpo docente do Centro de Justiça Social e Igualdade de Saúde da Harvard Medical School, ele pediu permissão à administração do hospital para montar quiosques de cadastramento de eleitores.

A administração concordou, desde que o esforço fosse apartidário e não prejudicasse o atendimento aos pacientes.

Martin instalou um software TurboVote em alguns iPads e os afixou a pódios que comprou online. E afixou cartazes com QR codes que os pacientes podem escanear com seus celulares, abrindo automaticamente um site no qual podem se cadastrar para votar.

O projeto havia começado havia pouco tempo, com cerca de um paciente por dia se cadastrando para votar e uma dúzia de hospitais manifestando interesse nos quiosques, quando a pandemia começou. As salas de emergência se encheram de pessoas apavoradas pedindo testes de coronavírus.

As telas dos iPads viraram fontes possíveis de contaminação. Os hospitais que haviam encomendado quiosques deixaram de retornar as ligações de Martin.

O Hospital Geral do Massachusetts adquiriu a aparência de acampamento militar, com uma tenda para pessoas sem-teto que aguardavam seus resultados.

Em abril, no pico da epidemia, Martin observou que a maioria das pessoas mais doentes eram de baixa renda e falavam espanhol –trabalhadores essenciais, que não podiam se isolar em casa. O vírus estava expondo claramente as disparidades no sistema de saúde que Martin já estava tentando combater.

Em lugar de colocar o VotER de escanteio, a pandemia apenas fez crescer o interesse pelo projeto. Depois de meses assistindo à má gestão da resposta e temendo a própria morte, além das vidas dos pacientes, muitos médicos e enfermeiros hoje enxergam mais claramente a ligação entre seu trabalho e a política.

“Há mais enfermeiros, mais médicos interessados”, comentou Aliza Narva, diretora de ética do Hospital da Universidade da Pensilvânia, sobre os esforços de seu próprio sistema hospitalar para cadastrar eleitores.

“Eu diria que as pessoas passaram a enxergar claramente as consequências que a política pode ter sobre o atendimento que somos capazes de oferecer.”

Até agora, neste mês, cerca de 500 pessoas se cadastraram para votar usando o QR code nos cartazes e crachás da VotER usados pelos hospitais –mais ou menos o dobro do número dos três meses anteriores.

Martin recebeu tantas encomendas que não sabe como sua pequena equipe de voluntários vai poder atender a todos. A pandemia deixou sua expressão normalmente otimista mais tensa. Martin disse que, se os hospitais querem um sistema que funcione, eles precisam “fazer sua parte”.

“A hora de sermos imparciais, apolíticos e ficarmos passivos nos bastidores já ficou para trás”, disse.

O vírus lhe deu um novo gancho com o qual puxar o assunto do voto com seus pacientes. Ele aconselha a seus pacientes, especialmente os de saúde mais frágil, que é mais seguro votar de casa em novembro.

“Você já recebeu sua cédula de voto postal?”, pergunta ele aos pacientes, apontando para o QR code em seu crachá. “Pode pedir um aqui mesmo.”

Tradução de Clara Allain

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.