No feriado de Independência, argentinos vão às ruas contra quarentena e governo

Diversas cidades do país viram protestos, buzinaços e gritos contra libertação de condenados por corrupção

Buenos Aires

Protestos antiquarentena marcaram a tarde desta quinta-feira, feriado de 9 de Julho, Dia da Independência da Argentina, em várias cidades do país.

Em Córdoba, Santa Fé, Rosário, Avellaneda, Mar del Plata e na capital, Buenos Aires, manifestantes saíram às ruas com bandeiras nacionais para pedir democracia, liberdade e o fim da "infectadura", ou seja, o que alguns grupos afirmam ser uma ditadura comandada por infectologistas.

A Argentina, em especial a região metropolitana de Buenos Aires, está sob medidas de restrição contra o coronavírus há 113 dias, o que provocou o fechamento de milhares de comércios e pequenas empresas. A previsão é de que o PIB do país caia ao menos 10 pontos percentuais até o fim do ano, segundo o FMI.

Manifestante com bandeira da Argentina protesta contra governo de Alberto Fernández em Buenos Aires
Manifestante com bandeira da Argentina protesta contra governo de Alberto Fernández em Buenos Aires - Juan Mabromata/AFP

Os protestos foram convocados pela internet e começaram ainda na noite anterior, na cidade de Pilar, ao norte de Buenos Aires. Ali, uma localidade nobre, manifestantes reagiram à libertação de Lázaro Báez, condenado por lavagem de dinheiro em caso ligado ao casal Néstor e Cristina Kirchner, presidentes entre 2003 e 2015. O empresário, que vive em Pilar, irá para a prisão domiciliar nos próximos dias.

Os cartazes com os dizeres "ladrões na cadeia, povo democrático livre" e os gritos contra a libertação de Báez também se referiam à saída da prisão do ex-vice de Cristina, Amado Boudou, e do ex-ministro Julio De Vido, todos presos por corrupção.

Assim como o empresário, ele receberam o benefício da prisão domiciliar nos últimos meses.

Além de pedir o fim da quarentena, a marcha tinha tom anti-governo e fazia referências à crise econômica e à dificuldade do governo em renegociar a dívida externa. Havia também cartazes em referência à falta de trabalho e de dinheiro, além do fechamento de empresas e o fim de empregos.

Em Buenos Aires, muitas pessoas ficaram dentro de seus carros, fazendo um "buzinaço". Eram cercados por fileiras de manifestantes a pé, muitos deles sem máscaras, e o distanciamento social não foi respeitado.

Um grupo também se aglomerou diante da residência oficial da Presidência, em Olivos, onde estão Alberto Fernández e sua família. Ali, agitavam bandeiras e gritavam "queremos liberdade" e "democracia".

Houve conflitos entre manifestantes no Obelisco, no centro da capital. Repórteres da rede C5N, emissora alinhada ao governo, foram atacados verbalmente por ativistas contrários ao kirchnerismo. Quando os profissionais subiram em sua van, o veículo foi apedrejado, e os jornalistas deixaram o local.

Outro desentendimento ocorreu entre pessoas que se dizem apenas contra as medidas de restrição e os que foram protestar contra a libertação de kirchneristas condenados por corrupção. Um rapaz levou um soco no rosto e ficou com o nariz sangrando.

Cartazes de manifestantes pregavam "não ao comunismo", "por uma República sem corruptos" e "queremos trabalho, dignidade e respeito a nossos direitos". Carros passavam com o som alto, tocando o hino nacional —um deles, com a música que embalava as campanhas do ex-presidente Mauricio Macri.

"Lembro de como foi difícil recuperar a democracia e a República depois da ditadura. Agora estamos perdendo tudo de novo, com a desculpa desse vírus. Não dou um passo atrás por meus direitos", diz Aníbal Tarro, 67, com a mulher, ambos com máscaras e bandeiras da Argentina, na avenida Corrientes.

Catarina Guerrini, 54, dona de um comércio de sapatos, diz que foi protestar porque sua loja teve de voltar a fechar após o recuo na flexibilização da quarentena em Buenos Aires.

"Não temos como seguir com as portas fechadas, vamos falir. Não nego o vírus nem quero que ninguém da minha família fique doente. Mas temos de aprender a conviver com ele, ou então milhares de negócios, como o meu, vão fechar."

Na parte da manhã, Fernández havia comandado, por videoconferência, as comemorações do Dia da Independência, com todos os governadores e uma declaração à população, reafirmando que sua escolha de priorizar a saúde antes da economia era a mais correta.

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