Descrição de chapéu Coronavírus

Antes comparado ao Brasil, Paquistão muda de rumo e consegue controlar pandemia

País registra queda de 80% em relação a níveis mais altos de mortos e novos casos

Saeed Shah
Islamabad | The Wall Street Journal

Dois meses atrás o novo coronavírus parecia estar saindo do controle no Paquistão, país pobre e caótico com mais de 200 milhões de habitantes, cujo sistema de saúde é fraco e que parecia estar se encaminhando para o desastre.

O Paquistão estava sendo comparado ao Brasil, outro país em desenvolvimento, com população semelhante e que está sendo devastado pela doença.

Em vez disso, porém, o país mudou de rumo, registrando uma diminuição acentuada nos casos e nas mortes por coronavírus, com queda de 80% em relação aos seus níveis mais altos.

Os maiores hospitais informam ter leitos disponíveis em suas antes superlotadas enfermarias de Covid-19, inclusive em Karachi, maior cidade do país e a mais atingida pelo vírus.

O número de pacientes usando ventiladores caiu pela metade nos últimos 30 dias.

Motociclista e criança usam máscara para se proteger do novo coronavírus, em Karachi
Motociclista e criança usam máscara para se proteger do novo coronavírus, em Karachi - Asif Hassan - 6.ago.20/AFP

Tudo isso está acontecendo ao mesmo tempo que os vizinhos a leste e a oeste, Índia e Irã, ainda informam o aumento constante dos índices de contágio.

Mais surpreendente ainda, o progresso no Paquistão se deu depois de o primeiro-ministro Imran Khan ter resistido às recomendações da Organização Mundial de Saúde, declarando em maio que "lockdowns" são onerosos demais para os pobres e reabrindo a economia.

“Traçamos um caminho difícil entre um 'lockdown' rígido e uma abertura total”, diz Faisal Sultan, médico especialista em doenças infecciosas chamado por Khan para ser seu assessor para a Covid-19.

As autoridades não declararam vitória sobre o coronavírus. Elas receiam que os avanços sejam desperdiçados, especialmente devido a dois feriados muçulmanos –o Eid al Adha, no início de agosto, e o Muharram, no final do mês— que tradicionalmente envolvem encontros públicos em todo o país.

Neste ano, o governo emitiu recomendações de segurança para o Eid al Adha, incluindo procedimentos especiais para sacrifício de animais, distanciamento social e substituição de abraços por cumprimentos.

O índice relativamente baixo de testes no Paquistão também leva a escala do declínio a ser questionada, mas especialistas médicos dizem que a tendência de recuo é inegável. As cifras oficiais indicam um fato importante: a parcela de resultados positivos em testes caiu em mais de 50%.

O Paquistão fechou sua economia em março, ainda na fase inicial da epidemia no país, e isso impediu a propagação ampla do vírus, enquanto a população ficava em casa.

Mas depois de as restrições serem suspensas, em maio, muitos paquistaneses festejaram o final do mês de jejum do Ramadã com saídas às compras e visitas a familiares.

O resultado foi uma onda de infecções. A propagação rápida do vírus assustou as pessoas e as levou a mudar de comportamento, disse Sultan.

Uso de máscaras, lavagem de mãos e manutenção de distância social aumentaram. Campanhas públicas intensificaram as mensagens preventivas. O primeiro-ministro começou a usar máscara em público.

O governo adotou uma estratégia de "lockdowns" seletivos em áreas restritas onde haviam surgido surtos, às vezes em uma rua apenas. Dados residenciais e a experiência conquistada pelas autoridades sanitárias nos últimos anos como parte de uma campanha maciça de vacinação contra a pólio foram utilizados para identificar os locais problemáticos. Escolas, restaurantes e salões de casamento permaneceram fechados. Ainda há restrições às viagens interurbanas.

No início de agosto, o dr. Faisal Mahmood, professor no hospital-escola da Universidade Aga Khan, em Karachi, diz que tem atendido em sua clínica mais pacientes com problemas para se recuperar da Covid-19 do que pessoas infectadas. “Fiquei cético inicialmente, mas a queda é real”, disse.

De um pico de quase 7.000 infecções novas por dia em junho, o país chegou a apenas 330 novas infecções em 3 de agosto, seguido de um leve aumento durante a semana, seguido de queda, nos dias 8 e 9, quando registrou apenas 15 mortes. Até esta segunda (10), 6.097 pessoas morreram do novo coronavírus no país, com 284.660 casos de contaminação registrados.

O Brasil tem quase o mesmo número de habitantes que o Paquistão, mas já ultrapassou 100 mil óbitos e conta mais de 3 milhões de casos, segundo a Universidade Johns Hopkins.

No auge do vírus no Paquistão, em meados de junho, os grandes hospitais nas principais cidades estavam sobrecarregados. O maior número de pacientes a morrer em um só dia foi 153, em 20 de junho.

“O declínio no Paquistão é promissor”, comentou Anna Vassall, professora na London School of Hygiene and Tropical Medicine. “Mas ainda não temos certeza da causa nem sabemos quanto tempo isso vai durar. A propagação do vírus é movida por comportamentos sociais, e é difícil medir como isso mudou.”

Os modelos haviam previsto que países como o Paquistão seguiriam mais ou menos as mesmas tendências vistas no Ocidente, e isso levou a algumas previsões sombrias. Uma simulação feita pelo Imperial College London apontou para 30 mil mortes por dia no início de agosto, no pior cenário possível.

Mas o Paquistão possui algumas características singulares que, para os especialistas, provavelmente vêm sendo úteis para evitar a disseminação do vírus. A população e a sociedade muçulmana conservadora, dominada por homens, teriam limitado a exposição ao vírus.

Apenas 4% da população têm mais de 65 anos, contra 16% nos EUA e 23% na Itália, segundo dados da ONU. A média de idade dos paquistaneses é de 22 anos, mais de uma década abaixo da dos brasileiros e 25 anos abaixo da média dos italianos.

Não existem bares ou boates. Tampouco há lares de idosos, que concentraram surtos intensos em outros países. As mulheres tendem a não sair de casa para trabalhar, de modo que a força de trabalho é composta quase inteiramente de homens, em sua maioria jovens.

O Paquistão tem apenas uma megacidade, Karachi, enquanto a Índia possui várias. E Karachi não é uma cidade verticalizada. Ambientes urbanos mais adensados proporcionam condições melhores para a propagação do vírus.

No Paquistão, o vírus ficou confinado não apenas às maiores cidades, mas a bolsões dentro dessas cidades, dizem autoridades.

O médico Adnan Khan, da consultoria Research and Development Solutions, disse que os círculos sociais em qualquer país são limitados a família, amigos, colegas de trabalho e outros. Algumas pesquisas econômicas sugerem que os círculos sociais são menores nos países mais pobres.

Para Khan, o vírus já contaminou boa parte da população exposta no Paquistão e pode ter ficado sem ter para onde ir, por enquanto. Mesmo assim, ele afirma ser provável que haja outras partes da população ainda vulneráveis à doença, especialmente em cidades menores e áreas rurais, embora seja mais difícil para o vírus se propagar nesses ambientes.

Para os apoiadores do primeiro-ministro, o recuo da ameaça do coronavírus constitui uma vitória política.

Críticos haviam previsto que a estratégia adotada por Khan levaria à catástrofe e a seu afastamento do poder. Para analistas, o já poderoso Exército paquistanês, que vem exercendo papel muito destacado na resposta ao coronavírus, também passou a ser mais bem visto pela população.

Mas, ao mesmo tempo em que autoridades do governo querem receber o crédito pelo que aconteceu, elas admitem que não entendem inteiramente como a virada ocorreu. Khan já disse que não previa que os números caíssem tão rapidamente.

Para as autoridades, ainda é possível que a complacência leve as pessoas a mudar de comportamento e disseminar o vírus. Escolas provavelmente vão reabrir em setembro, assim como salões de casamento.

O governo apelou ao público para agir com cautela na festa do Eid. Quando agricultores voltam para casa depois de vender seus animais para abate nas cidades, eles poderiam levar o vírus para as áreas rurais pela primeira vez, avisam especialistas.

“Agora não é hora de declarar vitória”, disse Sultan, o assessor do primeiro-ministro. “É hora de fazermos uma introspecção humilde e traçar planos para o futuro.”

Tradução de Clara Allain

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