Bielorussos relatam torturas e surras após protestos contra resultado de eleição

Em locais e momentos diferentes, manifestantes foram agarrados pela polícia, espancados e humilhados

Minsk (Belarus)

Sasha, 36, é jardineiro, mora com a mulher e a sogra no centro de Minsk e foi ver o protesto após a votação presidencial na Belarus, na noite do dia 9. Kirill, 27, é pintor automotivo autônomo e mora com a mãe no subúrbio de Minsk. Pedalava até seu escritório na tarde do dia 10.

Evgueny, 34, é empresário do setor de turismo e trabalhava em sua casa de campo devido à pandemia de coronavírus. Foi a Minsk na noite do dia 10 para uma reunião de trabalho na manhã seguinte.

Os três relataram à Folha o pesadelo comum que viveram na quinzena passada: em locais e momentos diferentes, foram agarrados pela polícia, espancados, humilhados, torturados e presos. Passaram fome, sede, frio, raiva e medo.

Ao deixar a prisão, todos choraram, surpresos pelo mesmo motivo.

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'Quanto mais nos baterem, mais vamos erguer nossa voz', afirma o autônomo Kirill, 27

Dois meses atrás, durante a campanha, comecei a organizar ‘correntes de solidariedade’ de bikes: pedalávamos por Minsk, seguíamos todas as leis de trânsito, tocando buzinas e levando alto-falantes com músicas.

Quando Tikhanovskaia se lançou candidata, eu e muitos amigos decidimos votar pela primeira vez. Achamos que finalmente seria possível mudar algo.

O trabalhador autônomo Kirill, 27, espancado depois de ser detido pelas forças de segurança bielorussas
O trabalhador autônomo Kirill, 27, espancado depois de ser detido pelas forças de segurança bielorussas - Ana Estela de Sousa Pinto/Folhapress

Sempre tive opiniões políticas, mas nunca falei abertamente sobre elas. Os bielorrussos são em geral pacíficos e tolerantes, foi uma surpresa para mim ver o tamanho das manifestações logo no primeiro dia.

Fomos para a rua porque vimos que realmente não haveria outra saída. Simplesmente não conseguia mais respirar.

Na tarde seguinte, a polícia me parou quando pedalava para o escritório. Prenderam meus braços nas costas e começaram a me bater na cabeça e nas costas. No camburão, continuaram a me espancar. Eu não enxergava direito, porque escorria muito sangue da minha sobrancelha.

Perguntavam quem estava me pagando e por que eu não gostava do meu país. Batiam com cassetetes e com soco inglês, nas pernas, nas costas e nas nádegas. Na delegacia, durante cinco horas ficamos com as mãos presas às costas, apanhando, e nos obrigavam a agachar e levantar várias vezes.

Fui o mais machucado dos 20 que estavam no porão, mas, comparado aos que foram para o centro de detenção de Akrestina, meus ferimentos são leves. À noite, nos mandaram para o hospital. Agradeço muito aos médicos, sinto-me muito melhor agora por causa deles.

Não tenho palavras para explicar por que fomos tratados com tanta violência. Em nenhum momento protestei, reagi. Essa era uma violência de outro tipo, gratuita, anormal. Não posso chamá-los de policiais nunca mais, só de facínoras.

Mas, quanto mais eles nos baterem, mais vamos erguer nossa voz, mais vamos nos levantar, e mais pessoas vão proteger nossa ‘santíssima trindade’ [Tikhanovskaia, Maria Kalesnikava e Veronika Tsepkalo].

Dia 9 foi o começo do fim. Depois de três noites de violência inédita, quem imaginaria que cada vez mais gente iria para as ruas? Os policiais que nos batiam diziam: ‘Querem mudanças? Então mudem de país’. Não! Queremos falar cara a cara com o governo para que ele veja que não há ninguém atrás de nós.

Pagamos os impostos e queremos ser ouvidos sobre onde o dinheiro deve ser usado.

Agora estamos organizados, sabemos que podemos contar uns com os outros, e, quando saio à rua e abraço um companheiro, ele sabe por quê.

Com a repressão, [o ditador Aleksandr] Lukachenko apenas está cavando seu próprio túmulo. Não acredito que ele seja capaz de fazer uma transição pacífica. Ou ele sai do país, ou terá que sufocar a oposição e será algo sangrento.

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'Foi para quebrar o espírito. Ouvíamos gritos e choros', conta o jardineiro Sasha, 34

Nunca participei de campanha política nem compartilhei minhas opiniões com ninguém. Fui olhar a movimentação perto de casa no domingo, e cinco ou seis policiais me jogaram no chão, batendo nos braços e nas mãos, antes de me jogar dentro do camburão, sobre muitos homens que já estavam lá.

Chamavam-nos de animais, de putos, humilhavam-nos. No centro de detenção de Akrestina, numa cela para seis pessoas, prenderam 30. Alguns sangravam, mas a médica lhes deu um pano.

O jardineiro Sacha, 34, que foi espancado e torturado após ser detido pela polícia da Belarus
O jardineiro Sacha, 34, que foi espancado e torturado após ser detido pela polícia da Belarus - Ana Estela de Sousa Pinto/Folhapress

Minhas mãos doíam muito, e ela me disse: ‘Se quiser um remédio para a dor, podemos dar’, apontando para o cassetete do guarda. Na terça, fomos julgados: em três minutos nos davam uma confissão para assinar e uma sentença, de 15 a 25 dias. Na quarta, já estávamos há três dias sem comer nada, nos deram um pequeno pedaço de pão e nos deixaram das 22h às 12h em pé num pátio interno.

Acho que foi de propósito, para quebrar nosso espírito, porque de lá ouvíamos gritos, pedidos de socorro, gente apanhando. Na quinta, nos levaram para outra cadeia, onde ao menos havia água e pão para todos, e vários guardas apenas fingiam que batiam em nós.

Nos dois dias seguintes, iam tirando os presos de dois em dois. Fui um dos últimos a ser chamados.

Quando deixei a cela, havia só mais quatro homens. Então abriram o portão, e comecei a chorar, porque nunca imaginei que tanta gente estaria ali para nos ajudar, com comida, curativos, contatos.

Só pensava em ir para casa. Agora, minha mulher e minha sogra não dormem mais, de medo que venham me buscar. Espero que haja novas eleições, que tenhamos um novo presidente e todos os presos políticos sejam soltos [exatamente neste instante, o celular de Sasha começa a tocar; a música é “Peremen” (mudanças), de Viktor Tsoi, considerada o hino dos que pedem eleição justa na Belarus].

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'Chamam os detidos de heróis, mas a nação é que foi heroica', diz o empresário Evgueni, 34

Vi os policiais da Omon na segunda à noite, mas não me preocupei, pois eles geralmente protegem quando há eventos. Prenderam meus braços e começaram a me bater, xingar e gritar que iam “me ensinar a gostar do presidente”.

Deram um golpe na minha bexiga, e ela se esvaziou, molhando minhas calças. A temperatura caiu muito, mas quem tremia de frio levava pancadas.

Pratico remo e participo de torneios medievais, estou acostumado a desafios físicos e mentais. Mas estava chocado com a brutalidade gratuita. Pode até ser que seguissem ordem, mas era evidente que vários policiais batiam por prazer. Uns poucos afrouxavam os laços ou se mantinham quietos. Mas eram exceções.

Mandaram-nos assinar confissões sem ler e nos transferiram para a prisão de Zhodino. Fiquei preso três dias, com outros 26, numa cela para 8.

Não tínhamos ideia do que estava acontecendo no país. Quando saímos e vimos o acampamento com tanta gente para nos receber, levando comida, remédio, apoio, começamos a chorar.

As pessoas nos chamavam de heróis, porque sobrevivemos, mas toda a nação é que foi heroica, porque não se imobilizou e resistiu.

Não sei aonde vão dar esses protestos. Queremos fazer tudo de forma pacífica, mas acho que pode haver sangue. Sou muito centrado, mas esses dias três dias me tornaram uma pessoa diferente.

Antes evitava me envolver em política, até achava que teria um futuro em um ministério do governo, mas agora quero ir até o fim. Eu poderia pedir asilo, mas quero ficar no meu país.

Esta é a nossa chance agora. Espero que histórias como a minha e a de tantos outros no futuro sejam parte de um momento histórico para a Belarus.


Veja as outras reportagens da série sobre Belarus:


Afinal, o que está ocorrendo na Belarus?

Quando e por que começaram os conflitos?
No dia 9, pesquisa que deu mais de 80% dos votos para o ditador Alexandr Lukachenko iniciou ato contra fraude eleitoral, reprimido com brutalidade nas três primeiras noites. Há relatos de surras, estupros e torturas, inclusive de menores de idade e pessoas que não protestavam, com centenas de feridos e ao menos 3 mortos (a ONU fala em 4 mortes).

Quem se manifesta contra o governo? 
Eleitores da oposição, mulheres de todas as idades, entidades de direitos civis, artistas, trabalhadores de algumas grandes estatais, alguns ex-militares, policiais e membros da máquina estatal que renunciaram. Cerca de 300 empresários de tecnologia ameaçaram deixar o país.

Ainda há detidos? 
Segundo a ONU, neste sábado (22) 100 dos 7.000 detidos seguiam presos, dos quais 60 acusados de crimes graves. Ao menos 8 estão desaparecidos.

O que querem os manifestantes?
O protesto não é unificado, mas há 5 reivindicações comuns: 1) a saída de Lukachenko, 2) novas eleições livres, 3) o fim da violência policial, 4) a punição dos responsáveis por tortura, 5) a libertação dos presos políticos.

Os protestos estão aumentando ou refluindo?
Houve alta até o domingo (16) e redução na última semana, mas continuam ocorrendo todos os dias em dezenas de cidades. Greves crescentes até terça (18) foram reprimidas pela polícia e por ameaças de demissão. Renúncias de militares e membros do governo continuam ocorrendo.

As manifestações são apenas contra Lukachenko?
Atos a favor do ditador começaram no dia 16, em Minsk, e em outras cidades. Parte dos participantes são trazidos de ônibus e há relatos de coerção.

A eleição pode ser anulada?
A oposição contestou o resultado na Comissão Eleitoral, mas o recurso foi negado. Nesta sexta (21), a oposição entrou com pedido de anulação no Supremo Tribunal. A resposta deve sair em até cinco dias.

Quem lidera a oposição? 
Não há liderança clara. Svetlana Tikhanovskaia, que assumiu a campanha de seu marido quando ele foi preso, representou uma frente de três candidaturas, mas se exilou na Lituânia após o pleito. Um conselho de transição foi criado, mas o governo não aceitou receber interlocutores e abriu processo criminal contra o grupo.

Qual o interesse russo na Belarus?
O país separa a Rússia das tropas da Otan situadas na União Europeia e passam por ele um quinto do gás e um quarto do petróleo exportados pelos russos para a Europa.

A Rússia pode intervir contra os manifestantes? 
É improvável, pois o apoio explícito de Putin a um líder considerado ilegítimo poderia mudar o atual quadro de simpatia dos bielorrussos por Moscou.

Lukachenko pode cumprir o 6º mandato?
Depende da força e da duração dos protestos e greves, da pressão de empresários externos, da defecção de membros do alto escalão do governo e da existência de alternativas consideradas confiáveis pela Rússia.

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