Após resistência, médicos russos autorizam transferência de opositor de Putin para Alemanha

Alexei Navalni está em coma induzido e deve deixar a Rússia na manhã de sábado

Moscou e Omsk | AFP e Reuters

Os médicos russos responsáveis pelo atendimento a Alexei Navalni, internado na quinta (20) sob suspeita de envenenamento, voltaram atrás e autorizaram que uma equipe médica alemã o transfira para Berlim.

Os russos disseram que nem eles nem os alemães encontraram traços de veneno nos exames do ativista anti-Kremlin, e afirmaram que Navalni está em coma induzido. O hospital em Omsk, na Sibéria, onde ele está internado disse ainda que pode auxiliar no transporte do advogado até o aeroporto.

A ONG Cinema for Peace fretou um voo para levar a equipe alemã à cidade e transportá-lo para Berlim, como havia pedido sua esposa, Iulia Navalnaia. Segundo Kira Yarmysh, porta-voz de Navalni, ele deve deixar a Rússia no sábado (22) de manhã.

O diagnóstico, segundo o chefe do hospital na Sibéria, é uma doença metabólica causada pelo baixo nível de açúcar no sangue. Vestígios de uma substância química industrial, entretanto, foram encontrados nas roupas e nos dedos de Navalni.

Aliados do opositor acusam o governo russo de tentativa de assassinato em decorrência de suas atividades políticas. O advogado de 44 anos é um dos principais nomes da oposição ao presidente da Rússia, Vladimir Putin, e seu trabalho como blogueiro anticorrupção tem destaque nacional.

Alexander Murakhovski, chefe do hospital em que Alexei Navalni está internado, durante entrevista em Omsk, na Rússia - Dimitar Dilkoff - 21.ago.20/AFP

Navalnaia escreveu nesta sexta uma carta com um pedido formal a Putin para que o advogado recebesse autorização para ser levado à Alemanha.

Ela também tem usado as redes sociais para apontar problemas de infraestrutura no hospital russo e questionar o quadro clínico apresentado pelos médicos. Segundo ela, o distúrbio metabólico é uma condição, não um diagnóstico válido.

"Mais uma vez, eles acham que somos idiotas: falam palavras difíceis, mas não conseguem estabelecer a causa do coma e o diagnóstico."

A Comissão Europeia também reforçou o pedido por uma transferência, expresso na quinta-feira pela chanceler alemã, Angela Merkel, e pelo presidente francês, Emmanuel Macron.

Durante uma entrevista coletiva, a porta-voz da comissão disse que espera que "as autoridades russas cumpram suas promessas de permitir que Navalni seja transferido com segurança e rapidez para o exterior, a fim de receber tratamento médico de acordo com os desejos da família".

O Kremlin afirmou que as autoridades estariam prontas para considerar essa demanda, mas que a decisão cabia aos médicos responsáveis pelo tratamento. Estes, por sua vez, haviam dito que o estado de saúde de Navalni ainda era "muito instável" para uma transferência, mas voltaram atrás.

Antes da autorização, a equipe médica alemã já havia dito que Navalni estava em condições de ser transportado.

"Estamos em contato com a equipe alemã, que nos disse estar preparada para transportar Navalni de avião para Berlim, e que este é o desejo da família", disse a ONG em comunicado horas antes.

"É uma decisão puramente médica", havia afirmado Dmitri Peskov, porta-voz de Putin, acrescentando que a equipe do hospital havia convidado os médicos alemães "a participarem de uma reunião e obterem todas as informações sobre os exames".

A equipe alemã é dirigida pelo ativista de direitos humanos Jaka Bizilj, que já ofereceu o mesmo tratamento a outros adversários do Kremlin.

O braço direito do opositor, Leonid Volkov, havia denunciado "uma decisão política e não médica". "Eles esperam que as toxinas se dissolvam no corpo e não possam ser detectadas. Não há diagnóstico ou análise. A vida de Alexei está em perigo."

Depois de se reunir em Tomsk, na Sibéria, com candidatos oposicionistas que concorrerão nas eleições regionais russas em setembro, Navalni passou mal durante um voo quando voltava para Moscou. Segundo a porta-voz, a principal suspeita é que ele tenha tomado uma xícara de chá envenenado.

De acordo com relatos de testemunhas em redes sociais, ele foi ao banheiro do avião e estava gritando de dor. A aeronave fez um pouso de emergência em Omsk, e Navalni foi levado inconsciente ao hospital. Nesta sexta, ele permanece em coma na UTI e respira com a ajuda de aparelhos.

A escassez de informações e as divergências entre elas reforçam o discurso dos aliados do opositor de que o suposto envenenamento tenha sido uma ação do governo de Putin.

A atenção que o ativista atrai e as circunstâncias de sua internação levam inevitavelmente à memória do destino de outros opositores e desafetos do governo russo.

Ele mesmo foi vítima anteriormente. Em 2018, durante um protesto, foi atingido com uma substância tóxica verde que o deixou parcialmente cego de um olho por um tempo.

O Kremlin sempre negou qualquer associação a ataques contra opositores. A lista, contudo, acumula episódios —com um mórbido destaque à modalidade envenenamento.


OUTROS DESAFETOS DE PUTIN ALVOS DE ENVENENAMENTO

Iuri Shchekochikhin, 2003
Jornalista investigativo, teve sintomas de forte alergia e morreu dias antes de se encontrar com investigadores do FBI.

Anna Politkovskaia, 2004
Jornalista investigativa, passou mal após tomar chá em um voo. Ela sobreviveu, mas foi assassinada a tiros dois anos depois, em frente de casa.

Viktor Iushchenko, 2004
Candidato à presidência da Ucrânia contra um rival apoiado por Moscou, foi envenenado em meio à campanha. Ele sobreviveu, venceu a eleição e assumiu o cargo, mas ficou com cicatrizes no rosto.

Alexander Litvinenko, 2006
Ex-espião russo, se tornou crítico de Putin. Passou mal após tomar um chá com outro ex-agente russo em Londres, e morreu três dias depois, em novembro de 2006

Serguei Skripal, 2018
Ex-agente duplo russo, foi encontrado caído em um banco na praia no Reino Unido, junto com a filha. A polícia suspeita que veneno foi colocado na porta de sua casa. Recuperou-se após semanas no hospital.

Piotr Verzilov, 2018
Ativista e porta-voz do grupo Pussy Riot, foi levado a um hospital de Moscou depois de perder subitamente a visão, audição e movimentos. Ele foi levado depois para a Alemanha, onde os médicos apontaram que os sintomas eram indicativos de envenenamento. Ele sobreviveu.

Leia aqui mais detalhes sobre os casos acima.

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