Descrição de chapéu The New York Times

Explosão em Beirute tem origem em navio que estava vazando

Embarcação estava mergulhada em dívidas, com tripulantes insatisfeitos e um pequeno buraco no casco

Cairo | The New York Times

A contagem regressiva para a catástrofe em Beirute começou seis anos atrás, quando um navio cargueiro problemático alugado por um russo fez uma escala imprevista no porto da cidade.

O navio estava mergulhado em dívidas, seus tripulantes estavam insatisfeitos, e a embarcação apresentava um pequeno buraco no casco que exigia bombeamento constante para a retirada da água.

E transportava uma carga volátil: mais de 2.000 toneladas de nitrato de amônio, material combustível utilizado para a produção de fertilizantes —e também de bombas— cujo destino era Moçambique.

O navio, o Rhosus, nunca chegou a seu destino. Atolado numa disputa financeira e diplomática, foi abandonado pelo empresário russo que o havia alugado.

Área portuária de Beirute, capital do Líbano, atingida por uma grande explosão
Área portuária de Beirute, capital do Líbano, atingida por uma grande explosão - Aziz Taher/Reuters

E o nitrato de amônio foi transferido para um galpão no cais do porto de Beirute, onde ficaria parado por anos, até terça-feira (4), quando, segundo autoridades libanesas, explodiu, produzindo uma onda de choque que deixou ao menos 145 mortos e 5.000 feridos.

A história do navio e de sua carga emergiu na quarta-feira em relatos vindos do Líbano, da Rússia e da Ucrânia.

É uma história sombria sobre como disputas legais e financeiras, além de aparente negligência crônica, criaram as condições para um acidente que devastou uma das cidades mais amadas do Oriente Médio.

“Fiquei horrorizado”, comentou Boris Prokoshev, 70, o capitão russo da embarcação, aludindo ao acidente. Hoje aposentado, ele foi entrevistado por telefone de Sochi, na Rússia, cidade turística à beira do Mar Negro, perto do local do qual o nitrato de amônio partiu em sua viagem a Beirute, em 2013.

No Líbano, a população está furiosa com a negligência das autoridades, que tinham consciência do perigo criado pela presença de 2.750 toneladas de nitrato de amônio em um armazém no cais de Beirute, mas não fizeram nada.

Funcionários seniores da alfândega escreveram a tribunais libaneses pelo menos seis vezes entre 2014 e 2017, pedindo orientações sobre o que fazer com o nitrato de amônio, segundo documentos públicos postados nas redes sociais por um deputado libanês, Salim Aoun.

“Em vista do perigo grave representado pela manutenção desta carga nos armazéns em um clima impróprio”, escreveu em maio de 2016 o diretor da alfândega libanesa, Shafik Marei, “reiteramos nosso pedido, exigindo que o órgão marítimo reexporte os materiais imediatamente”.

As autoridades alfandegárias aventaram várias soluções, incluindo doar o nitrato de amônio ao Exército libanês ou vendê-lo a uma empresa privada, a Lebanese Explosives Company.

Um ano mais tarde, Marei enviou outra carta de teor semelhante. Os documentos disponibilizados sugerem que o Judiciário não respondeu a nenhum dos apelos.

Não foi possível entrar em contato com autoridades judiciárias libanesas para ouvir seus comentários.

Viajando sob a bandeira de Moldova, o Rhosus chegou a Beirute em novembro de 2013, dois meses depois de ter deixado o porto de Batumi, Geórgia, no Mar Negro.

O navio tinha sido alugado pelo empresário russo Igor Grechushkin, residente em Chipre. A polícia do país informou nesta quinta (6) que ele foi interrogado a pedido da Interpol e que suas respostas no depoimento foram enviadas ao Líbano.

Prokoshev, o capitão, chegou ao navio na Turquia, depois de uma tripulação anterior ter se amotinado em função de salários não pagos.

Segundo o capitão, Grechushkin recebera US$ 1 milhão (R$ 5,34 milhões, na cotação desta quarta) para transportar o nitrato de amônio de alta densidade para o porto de Beira, em Moçambique.

O nitrato de amônio foi comprado pelo Banco Internacional de Moçambique para a Fábrica de Explosivos de Moçambique, que produz explosivos comerciais. A informação foi divulgada em comunicado na quarta-feira pelo escritório de advocacia libanês Baroudi and Partners, que representa a tripulação do navio.

Grechushkin, que estava no Chipre na época e se comunicava com o navio por telefone, disse ao capitão que não tinha dinheiro suficiente para pagar pela passagem pelo Canal de Suez. Por essa razão, mandou o navio ir a Beirute para ganhar algum dinheiro extra, recebendo uma carga adicional de maquinário pesado.

Mas, disse o capitão, quando chegaram a Beirute, as máquinas eram grandes demais para caber no navio, que tinha 30 ou 40 anos de idade.

Em seguida, as autoridades libanesas consideraram o navio sem condições de segurança para ir ao mar e o apreenderam por falta de pagamento das taxas de uso do porto e outras.

Quando os fornecedores da embarcação procuraram Grechushkin para cobrar pelos gastos incorridos com combustível, alimentação e outros itens essenciais, não conseguiram contatá-lo. Ele havia aparentemente abandonado o navio que alugara.

Seis tripulantes voltaram para casa, mas as autoridades libanesas forçaram o capitão e três tripulantes ucranianos a permanecer a bordo até que fosse resolvida a questão da dívida.

Devido às restrições imigratórias libanesas, os tripulantes não podiam sair do navio, e, segundo seus advogados, tinham dificuldade em obter alimentos e outras provisões.

Prokoshev, o capitão, contou que as autoridades do porto tiveram pena da tripulação esfomeada e lhes entregavam comida. Mas não manifestaram qualquer preocupação com a carga altamente perigosa do navio. “Eles só queriam o dinheiro que devíamos, nada mais”, disse ele.

A difícil situação dos tripulantes virou notícia na Ucrânia, onde reportagens descreveram os marinheiros como “reféns” presos em um navio abandonado.

O capitão, cidadão russo, pediu ajuda à embaixada russa no Líbano, mas, conta ele, ouviu apenas comentários irônicos como “o senhor esperava que o presidente Putin mandasse forças especiais para resgatar vocês?”.

Em situação cada vez mais desesperadora, Prokoshev vendeu parte do combustível do navio e usou o dinheiro recebido para contratar advogados. Esses advogados também avisaram as autoridades libanesas que o navio corria perigo “de afundar ou explodir a qualquer momento”, segundo o escritório de advocacia.

Em agosto de 2014 um juiz libanês ordenou a libertação dos tripulantes por motivos humanitários, e Grechushkin, que havia reaparecido, pagou as passagens para eles retornarem à Ucrânia.

Não foi possível obter comentários de Grechushkin na quarta-feira.

A partida da tripulação deixou as autoridades libanesas responsáveis pela carga mortífera do navio. Ela foi transferida para um armazém conhecido como Hangar 12, onde ficou até a explosão na terça-feira.

Quando é misturado com combustível, o nitrato de amônio cria um explosivo potente normalmente usado na construção e na mineração.

Mas ele também já foi empregado para produzir bombas usadas por terroristas como Timothy McVeigh, responsável pela explosão em Oklahoma City em 1995, e o grupo Estado Islâmico.

As vendas de nitrato de amônio são regulamentadas nos Estados Unidos, e muitos países europeus exigem que ele seja misturado com outras substâncias para que seja menos potente.

Prokoshev, que afirma ainda ter US$ 60 mil (R$ 321 mil) em salário que lhe é devido, atribuiu a culpa pela explosão a Grechushkin e às autoridades libanesas, que insistiram em primeiro apreender a embarcação e depois em guardar o nitrato de amônio no porto, “em vez de espalhá-lo sobre seus campos”.

“Em vez de uma explosão enorme, poderiam ter tido ótimas colheitas”, disse.

Quanto ao Rhosus, Prokoshev soube de amigos que navegaram para Beirute que o navio afundou no porto em 2015 ou 2016, depois de se encher de água.

Ele disse que a única surpresa, para ele, foi que a embarcação não afundara antes.

Tradução de Clara Allain

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