Macron vai a Beirute e encontra cidade destruída e tomada pela raiva

Para presidente francês, Líbano 'continuará a afundar' sem reforma política e econômica

BAURU (SP)

O presidente da França, Emmanuel Macron, foi o primeiro chefe de Estado a visitar o Líbano, depois da grande explosão na terça-feira (4) que destruiu a capital, Beirute. Nesta quinta, o número de vítimas subiu para ao menos 145 mortos e 5.000 feridos.

Ao chegar à cidade, o líder francês se posicionou como um articulador para organizar a cooperação internacional enviada ao Líbano, mas defendeu a necessidade de reformas políticas e econômicas e pediu que reforço no combate à corrupção.

"A prioridade hoje é ajuda, apoio incondicional à população. Mas há reformas indispensáveis ​​em certos setores que a França exige há meses, anos", disse Macron. "Não podemos fazê-las sem apontar algumas verdades inconvenientes. Se essas reformas não forem feitas, o Líbano continuará a afundar."

O presidente da França, Emmanuel Macron, durante visita à zona portuária de Beirute, devastada pela explosão - Thibalt Camus - 6.ago.20/Reuters

O governo da França, antiga potência colonial que administrou o Líbano no início do século 20, começou a enviar assistência médica e profissional a Beirute no dia seguinte à explosão.

"Quero organizar a cooperação europeia e, mais amplamente, a cooperação internacional", disse Macron.

Além da França, países como Alemanha, Rússia, Austrália, Qatar e Irã (rival histórico do Líbano) enviaram profissionais de saúde, hospitais de campanha e toneladas de suprimentos médicos.

No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) disse, nesta quarta-feira (5), que seu governo fará "um gesto concreto" para ajudar os libaneses.

Enquanto caminhava por Beirute, Macron foi acompanhado por grupos de libaneses que entoavam palavras de ordem pedindo "revolução" e a "queda do regime".

"Eu vejo a emoção no rosto de vocês, a tristeza, a dor. É por isso que estou aqui", disse ele a um grupo, apertando as mãos dos presentes. "Mas o que também é necessário aqui é uma mudança política. Essa explosão deve ser o início de uma nova era."

Macron prometeu à multidão que a ajuda da França não irá para "mãos corruptas" e disse que sua visita ao Líbano tem o objetivo de pedir "um novo pacto" com as forças políticas locais. "Eu entendo a raiva de vocês. Não estou aqui para passar um cheque em branco ao regime."

Aos gritos, uma mulher interrompeu a caminhada de Macron para acusá-lo de estar se encontrando com "os senhores da guerra", em referência ao presidente do Líbano, Michel Aoun, e ao premiê, Hassan Diab.

"Não estou aqui para ajudá-los, estou aqui para ajudar você", respondeu Macron, que abraçou a mulher.

A atitude contrasta com a postura do presidente francês ao desembarcar no aeroporto de Beirute e ser recebido pela comitiva do governo libanês. Usando máscaras e mantendo distância física, os líderes dos dois países se cumprimentaram apenas com um gesto de mãos e um aceno de cabeça.

Devido às relações históricas recentes entre os dois países —o Líbano foi administrado pela França de 1923 a 1943—, qualquer movimento de Macron em Beirute gera repercussão entre os franceses, segundo Gunther Rudzit, coordenador do Núcleo de Estudos em Negócios do Oriente Médio da ESPM.

Para o professor, as ações de Macron no Líbano indicam a tentativa de melhorar a própria imagem entre os franceses e de assumir uma "liderança simbólica num contexto geopolítico tradicionalmente complexo". "Macron, mais do que outras lideranças mundiais, sabe que simplesmente jogar dinheiro nas mãos de um governo tumultuado pode não resultar em benefícios para a população."

Parte da assistência internacional consiste no envio de equipes especializadas em busca e salvamento. Dezenas de pessoas ainda estão desaparecidas, e as autoridades estimam que 300 mil estejam desabrigadas.

A explosão destruiu mais da metade da capital libanesa, de acordo com o governador de Beirute, Marwan Abboud, que classificou a situação como "apocalíptica" e a comparou às explosões nucleares em Hiroshima, 75 anos atrás.

Equipes continuam procurando vítimas e sobreviventes entre os escombros dos prédios e de outras construções devastadas pela explosão. O cenário é de luto, mas também de otimismo.

"Acreditamos que há boas chances de encontrar pessoas vivas", disse o coronel francês Vincent Teissier, que trabalha na busca de desaparecidos, ao presidente Macron nesta quinta-feira (6).

Entre os sobreviventes, familiares das vítimas e outros moradores da capital libanesa, em meio ao luto, os sentimentos variavam da solidariedade à indignação. Nas redes sociais, diversos usuários têm feito publicações para ajudar a localizar os desaparecidos e oferecer moradia aos desabrigados.

Centenas de voluntários se uniram para retirar os escombros, e outros colocaram mesas de plástico nas ruas com bebidas e alimentos. Empresários e comerciantes oferecem serviços gratuitos para reparar portas, pintar paredes ou substituir janelas.

Muitas publicações nas redes sociais, entretanto, culpam o governo libanês e o acusam de negligência. Nesta quarta-feira (5), o país determinou que 16 autoridades do porto onde ocorreu a explosão sejam colocadas em prisão domiciliar.

O governo atribuiu a tragédia ao armazenamento incorreto de 2.750 toneladas de nitrato de amônio, substância geralmente usada em fertilizantes e que tem alto poder explosivo.

A principal hipótese investigada é que essa carga estaria armazenada em um galpão junto ao porto havia mais de seis anos. O material teria chegado ao Líbano em setembro de 2013.

Em outros países, população e autoridades começaram a expressar preocupação com suas próprias reservas de nitrato de amônio, que já causou tragédias semelhantes à ocorrida em Beirute.

No Iraque, uma comissão de emergência formada nesta quinta tem 72 horas para fazer um inventário de materiais potencialmente perigosos em terminais terrestres, aéreos e portuários. O objetivo é "evitar o que aconteceu no Líbano".

Na Austrália, moradores e ativistas de Newcastle, a 163 km de Sydney, pediram a realocação de uma planta que armazena nitrato de amônio em quantidade quase quatro vezes maior do que a que havia em Beirute. A empresa australiana que administra o estoque do composto químico disse que adota uma abordagem rigorosa em relação à produção e ao armazenamento do material.

"Você precisa ser extremamente negligente com o nitrato de amônio para que ele exploda", afirmou, em comunicado.

O chefe da diplomacia libanesa, Charbel Wehbe, anunciou nesta quinta-feira a criação de uma comissão de investigação "que tem quatro dias para apresentar um relatório detalhado sobre as responsabilidades".

Também nesta quinta, o Banco Central do Líbano instruiu as instituições financeiras do país a concederem empréstimos a juros zero a pessoas e empresas afetadas pela explosão.

"Nós absolutamente não confiamos nessa gangue que está no poder", disse Walid Jumblatt, líder do Partido Socialista Progressista e da comunidade drusa libanesa. Para ele, sem ajuda externa, "o Líbano desapareceria".

A ONG Human Rights Watch expressou sérias preocupações com a capacidade do Judiciário libanês para conduzir uma investigação crível e transparente por conta própria. "Grupos de direitos humanos libaneses e internacionais documentam há anos interferência política no Judiciário e criticam sua falta de independência", diz um comunicado da entidade.

Rabee Azar, um trabalhador da construção civil ouvido pela agência de notícias Reuters junto aos destroços da zona portuária de Beirute, afirma acreditar que o governo libanês quer encontrar culpados para não admitir a própria negligência. "Vão usar alguém de bode expiatório para fugir da responsabilidade."

Uma voluntária que trabalha na limpeza de escombros questiona as ações das autoridades. "Se tivéssemos um Estado de verdade, eles estariam nas ruas desde ontem limpando", diz Melissa Fadlallah. "Onde estão?"

Outra voluntária, Tala Masri, enquanto ajudava a retirar a enorme quantidade de vidro quebrado nas ruas de Beirute, diz ter perdido a esperança no Líbano. "Mesmo com o coronavírus e tudo o que aconteceu no país, eu sempre mantive a esperança. Mas agora acabou, não tenho mais."

Marcel Ghanem, jornalista que tem um programa de televisão de grande audiência no país, classificou os líderes políticos do Líbano como "corruptos, negligentes, destrutivos, imorais".

"Saiam todos! A covardia e a negligência de vocês foi o que matou as pessoas."

Em redes sociais, usuários subiram o tom contra o governo libanês e têm compartilhado uma hashtag em árabe que pode ser traduzida como "prepare a forca".

"Parem as orações. Vocês sabem o que fazer", disse um usuário no Twitter que compartilhou a hashtag acompanhada de fotos de líderes políticos do país.

Outra usuária, utilizando a mesma hashtag, expressou descontentamento com a classe política libanesa. "Como você ainda consegue apoiar um líder político? Como você ainda acredita no que eles têm a dizer?", escreveu. "Não tenho nenhum respeito por alguém que ainda esteja defendendo qualquer um desses desgraçados. Eles são todos criminosos e todos têm que pagar."

Com informações de AFP e Reuters

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