Descrição de chapéu The New York Times

Da Polônia, blogueiro de 22 anos coordena protestos na Belarus

Stepan Svetlov usa canal no Telegram para driblar censura e orientar manifestantes

Patrick Kingsley
Varsóvia (Polônia) | The New York Times

O computador de Stepan Svetlov fica sobre uma mesa em Varsóvia, a quase 500 quilômetros de Minsk, capital da Belarus. Mas quando os bielorrussos invadiram as ruas nas horas e dias após a reeleição fraudulenta do ditador Aleksandr Lukachenko, em 9 de agosto, foi em boa parte graças a Svetlov, 22, e seu computador.

O acesso à internet esteve frequentemente bloqueado naquela semana, importantes ativistas de oposição estavam presos ou escondidos e a mídia independente há muito tempo é fortemente reprimida em Belarus. Mas os bielorrussos se mantiveram informados, e até orientados, por uma conta de Svetlov em uma das poucas plataformas de rede social —Telegram— que conseguiram manter um serviço esporádico durante a suspensão da internet.

Stepan Svetlov, fundador do canal Nexta, que vive em Varsóvia como refugiado - Wojtek Radwanski - 27.ago.20/AFP

Do outro lado da fronteira, Svetlov e sua equipe de cinco bombearam informações sobre fraude eleitoral e violência policial —além de dicas sobre onde, quando e como protestar, escapar da polícia, defender-se de espancamentos da polícia, tratar a exposição a gás lacrimogêneo e localizar remédios e esconderijos.

"Vão às ruas", escreveram Svetlov e sua equipe depois do anúncio dos resultados preliminares em 9 de agosto, "e defendam seus votos!"

O jovem de feições e voz suaves, formado em cinema, que trabalha em um escritório apertado e escuro no centro de Varsóvia, não parece de início o porta-estandarte de uma revolução. Mas sua página no aplicativo de mensagens Telegram, chamada Nexta —palavra bielorrussa que significa "alguém"—, tornou-se uma espécie de Rádio Europa Livre da era da internet. Na época da eleição, o perfil tinha várias centenas de milhares de seguidores, número que desde então chegou a mais de 2 milhões.

"Stepan é sem dúvida uma das figuras mais importantes nos acontecimentos atuais", disse Anton Shpak, 47, ilustrador que aderiu aos protestos depois de ver provas da brutalidade policial publicadas no Nexta.

Logo depois da eleição, Nexta foi "em primeiro lugar, uma fonte de informação", acrescentou Shpak. "E até certo ponto uma fonte de inspiração."

Um colega de Svetlov, Roman Protasevich, edita o Nexta diariamente, junto com outros três exilados bielorrussos. Outros canais do Telegram enfocados na Belarus enviam mensagens semelhantes, muitas vezes em coordenação com Svetlov, para centenas de milhares de críticos do governo bielorrusso.

Os próprios manifestantes são a chave da mobilização e da mudança no nível da rua. Durante as rebeliões árabes em 2011, observadores externos às vezes se apressaram a apresentar as redes sociais como o motor principal de rebelião, em vez de meramente um acelerador de sua disseminação.

Embora orgulhoso de seu papel, Svetlov teme fazer afirmações semelhantes hoje. "São as pessoas que estão começando todo esse processo contra Lukachenko e o regime", disse Svetlov em entrevista na quarta-feira (2) em Varsóvia. "Estamos apenas ajudando-as a conseguir isso."

Mas na verdade Svetlov e Nexta são mais que um mero veículo para os sonhos de outras pessoas. Nos dias anteriores à eleição, o Nexta emitiu instruções detalhadas sobre como os críticos do governo deviam se organizar e protestar no dia da votação.

Para garantir a unidade entre os manifestantes, a equipe do Nexta coordenou esses planos com membros de páginas rivais no Telegram e importantes ativistas, segundo Svetlov.

"Existe uma boa cooperação com outros canais do Telegram, para tentar ter a mesma mensagem", disse ele. "Está acontecendo em uma base constante, dia e noite."

Tendo chegado a um consenso, a equipe do Nexta publicou horários e locais de reunião dos manifestantes. Eles sugeriram caminhos que os manifestantes poderiam usar para chegar aos pontos de encontro e propuseram alternativas caso essas rotas estivessem bloqueadas. Ofereceram conselhos sobre como obstruir os veículos policiais e instruíram os manifestantes a se manter calmos.


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Nas horas seguintes ao fechamento das urnas, eles também pediram uma greve geral, explicaram como os manifestantes podiam ajudar as pessoas a escapar da detenção e sugeriram comprar capacetes, óculos, máscaras antigás e escudos para proteger-se da violência policial.

Ao divulgar informações no Telegram, eles ofereceram um meio pelo qual os bielorrussos puderam se manter informados durante a interrupção da internet.

Nascido em 1998 como Stsiapan Putsila, Svetlov teve como primeira mídia preferida seu jornal escolar, que ele editou em 2013. Seu pai é jornalista esportivo e sua mãe, professora, e o mandaram estudar no Liceu de Ciências Humanas da Belarus, uma conhecida escola dissidente. O liceu foi tecnicamente proibido em 2003, mas teve permissão tácita para funcionar quase em sigilo nos arredores de Minsk.

Foi lá que Svetlov desenvolveu sua linha independente, disse Franak Viacorka, importante analista e jornalista e um de vários ativistas de oposição e escritores que também estudaram nessa escola.

"A escola é o princípio de tudo", disse Viacorka. "A escola se tornou o símbolo da resistência jovem a Lukachenko."

Svetlov se mudou para a Polônia em 2015 para estudar produção de cinema. Inicialmente ele fundou o Nexta como um canal do YouTube para difundir vídeos satíricos sobre a política bielorrussa. Mas depois começou a fazer documentários, incluindo um filme de uma hora sobre Lukachenko.

Isso chamou a atenção do regime, cujos asseclas se queixaram ao YouTube de que os filmes de Svetlov infringiam a lei de direitos autorais porque utilizavam gravações de arquivo. Enquanto o YouTube investigava a reclamação, bloqueou o acesso ao trabalho de Svetlov, levando-o a passar ao Telegram em 2018.

No mesmo ano, as autoridades bielorrussas abriram processos legais contra ele por "insultar o presidente", obrigando-o a ficar na Polônia como exilado político (recentemente ele obteve o status formal de refugiado).

Nos dois anos seguintes, seu canal no Telegram continuou ganhando popularidade, especialmente depois que se tornou um repositório para autoridades insatisfeitas que queriam vazar material comprometedor sobre más práticas do governo, como a misteriosa morte de um policial de trânsito.

O enorme público do Nexta lhe dá um amplo alcance, mas também constitui um banco de fontes que podem coletivamente fornecer um fluxo constante de conteúdo e informação.

Na época da eleição no mês passado, foi o principal canal no Telegram sobre a política bielorrussa, uma página que fornecia a mais de um milhão de pessoas uma rara imagem sem censura da vida em Belarus.

Segundo Viacorka, seu sucesso é em parte o resultado da própria habilidade de Svetlov, em parte seu tom estridente —e também sorte.

"Ele é supertalentoso", disse Viacorka. "Mas também estava no lugar certo na hora certa."

Apoiadores do regime acusaram Svetlov e seu canal de ser financiados ou dirigidos pelo Ocidente. Mas Svetlov disse que suas receitas derivam totalmente de publicidade no Telegram e no YouTube, e que os custos são baixos porque eles usam de graça o escritório no centro comunitário bielorrusso que funciona no edifício.

Os parentes de Svetlov pagaram um alto preço por seu trabalho. Sua mãe e seu pai foram assediados em casa por policiais depois que ele se recusou a voltar à Belarus, e também fugiram para a Polônia para preservar a segurança. E recentes ameaças de bomba ao centro comunitário, que hoje tem dois policiais guardando sua porta, são um lembrete de que a família não está completamente segura, nem na Polônia.

Apesar da tensão constante, Svetlov disse que ele é sustentado pela virtude da tarefa que lhe coube.

"Para nós, o mais importante é ajudarmos a estabelecer a democracia em nosso país", afirmou. "E podermos voltar ao país de onde somos."

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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