Com passeio de carro e artilharia em rede social, infectado Trump tenta demonstrar força

A menos de um mês das eleições, presidente americano busca evitar esfriamento da campanha

Bauru

Contaminado pelo coronavírus e no centro de uma série de informações confusas e contraditórias sobre seu real estado de saúde, o presidente dos EUA, Donald Trump, 74, tem feito o que pode para demonstrar força e vender a imagem de que seu empenho para tentar a reeleição em 3 de novembro não esmoreceu.

Usuário assíduo das redes sociais, o líder republicano fez quase 20 novas publicações na manhã desta segunda-feira (5), reforçando algumas das principais bandeiras de seu projeto político e estimulando sua base a ir às urnas —o voto nos Estados Unidos não é obrigatório.

Por meio de frases curtas em letras maiúsculas, Trump falou sobre defesa da Segunda Emenda (trecho da Constituição que garante o acesso às armas), retorno dos soldados americanos (promessa não cumprida de sua última campanha), liberdade religiosa e Força Espacial, entre outros temas.

Também reiterou os discursos de "lei e ordem", amplamente utilizado para reprimir atos antirracistas que se espalharam por todo o país, e de crítica à imprensa, a quem se referiu como "mídia fake news corrupta".

O presidente americano, Donald Trump, durante chamada telefônica com o vice Mike Pence, de dentro do hospital Walter Reed, em Maryland
O presidente americano, Donald Trump, durante chamada telefônica com o vice Mike Pence, de dentro do hospital Walter Reed, em Maryland - 4.out.20/Casa Branca via Xinhua

Trump ainda se dirigiu diretamente aos eleitores da Virgínia, dizendo que está "trabalhando duro" pelo estado, e acusou o governador democrata, Ralph Northam, de tentar "obliterar a Segunda Emenda". "É melhor vocês votarem no seu presidente favorito ou dar adeus aos impostos baixos e direito às armas!"

O presidente esteve um pouco afastado das redes sociais desde que anunciou o diagnóstico de Covid-19, na última sexta (2), mas, nesse período, publicou mensagens nas quais disse, por exemplo, que estava "ansioso para terminar a campanha da maneira como ela foi iniciada" e que nunca esqueceria as "demonstrações de amor" que ele tem recebido de seus apoiadores.

Trump também afirmou que estava se sentindo "muito bem", a despeito do conjunto de informações nebulosas e desencontradas que cercaram seu quadro clínico durante todo o final de semana.

No domingo (4), horas depois da entrevista coletiva em que o médico da Casa Branca, Sean Conley, enfim admitiu que Trump precisou de oxigênio suplementar após receber o diagnóstico de Covid-19, o presidente saiu do hospital militar Walter Reed para fazer uma visita surpresa a seus apoiadores reunidos na região.

Entre bandeiras americanas, cartazes expressando apoio e declarações de amor ao líder republicano, o carro blindado guiado por agentes do Serviço Secreto americano circulou pelos arredores do centro médico. No banco de trás, usando uma máscara de proteção, Trump acenou aos seguidores e, mais tarde, voltou à suíte presidencial que lhe serve de leito hospitalar.

Pouco antes, agradeceu aos "fãs e apoiadores" por meio de uma publicação no Twitter. "Eles realmente amam nosso país e estão vendo como estamos fazendo nossa nação mais grandiosa do que nunca", disse o presidente, parafraseando o slogan de sua campanha.

De acordo com a Casa Branca, o passeio de Trump foi autorizado pela equipe médica, e todos os envolvidos adotaram precauções sanitárias. Para especialistas, entretanto, a saída do hospital foi imprudente e desnecessária.

"Cada pessoa no veículo durante o 'passeio' presidencial completamente desnecessário agora tem que ser colocado em quarentena por 14 dias", disse James Phillips, médico assistente no hospital Walter Reed, em uma rede social. "Eles podem ficar doentes. Eles podem morrer. Para teatro político. Comandados por Trump para colocar suas vidas em risco pelo teatro. Isto é loucura."

O presidente dos EUA, Donald Trump, acena a apoiadores de dentro do veículo blindado conduzido por agentes do Serviço Secreto - Cheriss May - 4.out.20/Reuters

A médica Leana Wen, especializada em atendimentos de emergência e colunista de veículos como o jornal Washington Post e a emissora CNN, questionou a sanidade mental do presidente americano.

"Se Trump fosse meu paciente, em condição instável e com uma doença contagiosa, e de repente saísse do hospital para um passeio de carro que põe a si mesmo e a outros em perigo, chamaria seguranças para contê-lo e, em seguida, faria uma avaliação psiquiátrica para examinar sua capacidade de tomar decisões."

O principal especialista em doenças infecciosas e conselheiro da Casa Branca, Anthony Fauci, que já entrou em conflito com Trump em diversas ocasiões desde o início da pandemia, preferiu se abster, em entrevista à CNN, e não comentou o passeio do presidente. Fauci reforçou, entretanto, a necessidade de isolamento durante pelo menos os primeiros dez dias após o surgimento dos sintomas.

Nesta segunda, Trump se defendeu das críticas pelo passeio fora do hospital e voltou a atacar a imprensa em mais uma publicação inflamada nas redes sociais.

"A mídia está chateada porque entrei em um veículo seguro para agradecer aos muitos fãs e apoiadores que estiveram do lado de fora do hospital por muitas horas, e até dias, para prestar homenagem ao seu presidente. Se eu não fizesse isso, a mídia diria [que sou] RUDE!".

A infecção por coronavírus mergulhou a campanha republicana em incertezas, mas ainda é cedo para afirmar seu impacto nas urnas. O que se sabe sobre o tratamento de Trump indica que seu caso pode ser grave, na contramão dos boletins oficiais divulgados pela equipe médica e das declarações de funcionários da Casa Branca.

Questionado sobre o desencontro entre as informações sobre a real condição do líder americano, Conley, o chefe da equipe médica que atende Trump, disse que "estava tentando refletir uma atitude otimista da equipe e do presidente" sobre a evolução da doença.

"Eu não queria dar nenhuma informação que pudesse levar o curso da doença em outra direção e, ao fazê-lo, pareceu que estávamos tentando esconder algo, o que não é necessariamente verdade."

O chefe de gabinete do presidente, Mark Meadows, também contribuiu para a confusão que deixou o mundo sem saber como Trump estava reagindo à Covid-19.

No sábado (3), Meadows contrariou a equipe médica e disse que Trump estava passando por um período "muito preocupante". Depois da repercussão do caso, ele falou novamente com os jornalistas e adotou um tom mais otimista. "Os médicos estão muito satisfeitos com os sinais vitais [de Trump]. Eu o encontrei por diversas vezes [para debater] vários assuntos", disse à agência de notícias Reuters.

Mais tarde, à Fox News, o chefe de gabinete admitiu que o estado de saúde do presidente era muito pior do que o inicialmente informado por funcionários da Casa Branca, ele incluso.

​Nesta segunda, à mesma emissora, Meadows disse que a Casa Branca está bastante otimista com a possibilidade, anunciada na entrevista coletiva de domingo, de que Trump retorne à residência oficial.

“Falei com o presidente nesta manhã”, disse o chefe de gabinete. “Ele continuou a melhorar durante a noite e está pronto para voltar a um horário normal de trabalho.” Acrescentou que o presidente “se encontrará com seus médicos e enfermeiras nesta manhã para fazer novas avaliações de seu progresso”.

De acordo com o que foi divulgado pela equipe médica, Trump está sendo submetido a três diferentes tratamentos. O primeiro utiliza o remdesivir, um antiviral criado para combater o ebola e autorizado para uso emergencial em pacientes infectados pelo coronavírus.

Os médicos também deram a Trump o coquetel conhecido como REGN-COV2, uma combinação de cópias sintéticas de anticorpos humanos. O medicamento emula a função do sistema imunológico para combater os vírus e vem sendo estudado para uso em pacientes nos estágios iniciais da Covid-19.

Mais recentemente, o líder americano também começou um tratamento com a dexametasona, esteroide recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) apenas para casos graves de Covid-19.

Em um boletim sobre a saúde do presidente divulgado na noite do sábado (3), a Casa Branca informou que Trump continuava "indo bem", mas não estava fora de perigo. De acordo com o documento, ele passou a maior parte da tarde "conduzindo negócios" e cumprindo "seus deveres presidenciais".

Nas redes sociais, o governo divulgou imagens do presidente na sala de conferências do hospital militar. Segundo a publicação, Trump, que aparece segurando papéis e uma caneta, estava trabalhando.

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