Biden escolhe Antony Blinken, defensor de alianças globais, para chefiar diplomacia dos EUA

Selecionado por democrata foi vice-secretário de Estado durante governo Obama

Washington | The New York Times

Antony Blinken, defensor de alianças globais e o assessor de política externa mais próximo de Joe Biden, deve ser nomeado secretário de Estado, cargo no qual, segundo pessoas que acompanham o processo, ele tentará unir aliados internacionais céticos em uma nova coalizão para competir com a China.

Ex-vice-secretário de Estado sob o presidente Barack Obama, Blinken, 58, começou a carreira no Departamento de Estado durante a administração Clinton. A expectativa é a de que suas credenciais extensas tranquilizem tanto diplomatas americanos quanto líderes globais, após quatro anos das estratégias abrasivas e ásperas e da postura nacionalista arrogante da administração Trump.

Biden deve indicar outro assessor próximo, Jake Sullivan, para o cargo de assessor de segurança nacional, segundo uma pessoa familiarizada com o processo. Sullivan, 43, foi o sucessor de Blinken como assessor de segurança nacional do então vice-presidente Biden e chefe de planejamento de políticas públicas do Departamento de Estado sob Hillary Clinton, tornando-se seu assessor estratégico mais próximo.

Juntos, Blinken e Sullivan, que são amigos e compartilham a mesma visão de mundo, tornaram-se os conselheiros mais próximos de Biden e frequentemente atuaram como sua voz em questões de política externa. Eles também lideraram o ataque ao uso do slogan “America First” pelo presidente Donald Trump como princípio norteador, dizendo que isolava os EUA e criava oportunidades para seus adversários.

Biden pretende anunciar a escolhas dos dois nomes ao mesmo tempo em que Trump leva adiante seus esforços vãos para derrubar a eleição. Um número crescente de republicanos vem exortando o atual presidente a admitir sua derrota e deslanchar o processo oficial de transição.

O democrata também deve indicar Linda Thomas-Greenfield, veterana de 35 anos da diplomacia americana que já ocupou cargos em várias partes do mundo, como embaixadora dos EUA na ONU (Organização das Nações Unidas), segundo duas pessoas informadas sobre o processo.

Biden vai elevar o cargo para o nível de gabinete outra vez, depois de ter sido rebaixado por Trump, dando a Thomas-Greenfield, que é negra, um lugar em seu Conselho de Segurança Nacional.

Blinken está ao lado de Biden há quase 20 anos, incluindo como seu assessor principal no Comitê de Relações Exteriores do Senado e mais tarde como assessor de segurança nacional quando o democrata foi vice. Nesse papel, ele ajudou a formular a resposta dos EUA à turbulência e instabilidade política no Oriente Médio, com resultados desiguais no Egito, Iraque, Síria e Líbano.

Mas a maior de suas novas prioridades será restabelecer os EUA como aliado de confiança que está pronto para reingressar em pactos e instituições globais rejeitados por Trump, incluindo o acordo climático de Paris, o acordo nuclear com o Irã e a Organização Mundial de Saúde.

“Para falar em termos simples, os grandes problemas que enfrentamos como país e como planeta, quer seja a mudança climática, a pandemia, a disseminação de armas perigosas —não há soluções unilaterais possíveis para nenhum desses problemas”, disse Blinken em um fórum no Hudson Institute em julho.

“Mesmo um país tão poderoso quanto os Estados Unidos não pode enfrentá-los sozinho.”

A cooperação com outros países, disse ele no fórum, pode ter o benefício adicional de ajudar com outro desafio diplomático importante —competir com a China—, graças à escolha de esforços multilaterais para promover o comércio e investir em tecnologia e direitos humanos, em lugar de obrigar países individuais a optar entre as economias das duas superpotências.

Isso provavelmente vai exigir tempo forjando laços mais fortes com a Índia e na região do Indo-Pacífico, onde 14 países recentemente firmaram um dos maiores acordos mundiais de livre comércio com a China.

Também pode implicar um esforço para aprofundar o engajamento dos EUA com países da África, onde a China se fez presente com investimentos em tecnologia e em infraestrutura, e para reconhecer a Europa como parceira “de primeira preferência, não de última, quando se trata de trabalhar sobre os desafios que enfrentamos”, disse Blinken no fórum.

Ao assumir o cargo principal de segurança nacional na Casa Branca, Sullivan será a pessoa mais jovem a ocupar esse cargo desde a administração Eisenhower. Sullivan fez seu nome na administração Obama, encontrando admiradores até mesmo entre republicanos conservadores no Congresso, no qual desempenhou papel-chave nas negociações que desembocaram no acordo nuclear com o Irã, em 2015.

Natural de Minnesota e formado em direito na Universidade Yale, Sullivan nos últimos meses vem ajudando a comandar um projeto no think tank Carnegie Endowment for International Peace para formular uma nova visão da política externa dos EUA centrada nas necessidades da classe média americana.

Nos últimos anos, Sullivan lecionou na Escola de Direito de Yale e na universidade Dartmouth, tendo se mudado para New Hampshire com sua mulher, Margaret Goodlander, que foi assessora do senador John McCain e assistente dos juízes Merrick B. Garland e Stephen G. Breyer, este último da Suprema Corte.

Descrito por alguns como centrista com um viés intervencionista, Blinken também procurou aliviar as crises de refugiados e da migração. No último dia da administração Obama, o Departamento de Estado definiu o teto de 110 mil refugiados que poderiam se restabelecer nos EUA no ano fiscal de 2017.

Desde então esse número caiu para 15 mil no ano fiscal de 2021.

Blinken disse que vai buscar oferecer mais assistência a Guatemala, Honduras e El Salvador —os países do Triângulo Norte da América Central— para persuadir migrantes de que eles terão mais segurança e melhores condições econômicas se permanecerem em seus países de origem.

Blinken cresceu em Nova York e Paris e estudou na Universidade Harvard e na Escola de Direito da Universidade Columbia. Filho de um embaixador à Hungria na administração Clinton e enteado de um sobrevivente do Holocausto, ele já falou publicamente diversas vezes sobre o exemplo moral que os Estados Unidos representam para o resto do mundo.

“Em tempos de crise ou calamidade, é aos Estados Unidos que o mundo se volta em primeiro lugar e sempre”, disse Blinken em discurso no think tank Center for a New American Security, em 2015.

“Não somos o primeiro líder a ser escolhido porque sempre temos razão, porque somos universalmente amados ou porque podemos ditar resultados”, disse. “É porque nos esforçamos ao máximo para alinhar nossas ações com nossos princípios e porque a liderança americana possui a capacidade singular de mobilizar outros e fazer uma diferença.”

Tradução de Clara Allain

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