Chefe da diplomacia dos EUA faz visita sem precedentes às Colinas de Golã

Mike Pompeo também anunciou que Washington considerará movimento BDS antissemita

Jerusalém | AFP e Reuters

Naquela que pode ser sua última viagem ao Oriente Médio no final do governo Trump, Mike Pompeo foi a uma colônia israelense na Cisjordânia e às Colinas de Golã nesta quinta (19), tornando-se o primeiro secretário de Estado americano a visitar um assentamento no território palestino ocupado desde 1967.

Ele visitou o vinhedo de Psagot, na área industrial de Shaar Binyamin, entre Jerusalém e a cidade palestina de Ramallah. A vinícola exporta a maior parte de sua produção, principalmente a EUA e Europa, e batizou um de seus vinhos com o nome do secretário para agradecê-lo pelo apoio aos assentamentos.

Desde que Donald Trump chegou à Casa Branca, em 2017, os EUA demostraram apoio inabalável a Israel: reconheceram Jerusalém como capital, ao mover a embaixada americana de Tel Aviv para a cidade, além da soberania israelense nas Colinas de Golã, tomadas da Síria na guerra de 1967 e anexadas em 1981.

O secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, ao centro, com máscara estampada, visita as Colinas de Golã
O secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, ao centro, com máscara estampada, visita as Colinas de Golã - Jalaa Marey/AFP

"O simples reconhecimento [das Colinas de Golã] como parte de Israel foi uma decisão de importância histórica do presidente Trump", disse Pompeo em entrevista coletiva ao lado do primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu.

Em março de 2019, os EUA se tornaram o primeiro país a reconhecer a soberania israelense sobre o território, localizado na fronteira com o Líbano e a Síria. A decisão provocou críticas da comunidade internacional, e a ONU afirmou que o status da região, como área ocupada, permaneceria o mesmo.

Durante os governos de Netanyahu e Trump, a colonização da Cisjordânia e de Jerusalém Ocidental —parte palestina da cidade ocupada e anexada por Israel— registraram um avanço sem precedentes.

Pompeo disse que, além de EUA e Israel, discutiu com Netanyahu nesta quinta a situação do Irã, cuja ameaça mudou as divisões políticas na região, unindo israelenses e árabes do Golfo com medo de Teerã.

Ele também emitiu diretrizes para que produtos israelenses feitos em assentamentos, quando exportados para os Estados Unidos, sejam rotulados como "fabricado em Israel" ou "produto de Israel", removendo a distinção entre produtos feitos em Israel e aqueles produzidos em territórios ocupados.

De acordo com as diretrizes da União Europeia, produtos agrícolas produzidos em colônias israelenses e exportados para países membros do bloco europeu devem ser claramente rotulados como provenientes dos assentamentos, que a UE considera ilegais de acordo com a lei internacional.

Hoje, mais de 450 mil israelenses residem nesses assentamentos na Cisjordânia, onde também vivem 2,8 milhões de palestinos. Há, ainda, cerca de 200 mil israelenses na parte oriental de Jerusalém.

Ainda que essas colônias sejam consideradas ilegais aos olhos do direito internacional, em novembro de 2019 Pompeo afirmou o contrário. Naquele dia, várias garrafas foram abertas em Psagot em homenagem ao chefe da diplomacia americana.

"Durante muito tempo, o Departamento de Estado manteve um ponto de vista errado sobre as colônias, sem reconhecer a história deste território especial. Hoje, o Departamento de Estado americano defende com vigor o reconhecimento de que as colônias podem ser legais", disse Pompeo nesta quinta, em Jerusalém. Ele não se reunirá com nenhum líder palestino nesta viagem.

Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Nacional Palestina, reduziu ao mínimo os contatos com o governo americano após as decisões dos últimos anos, consideradas favoráveis a Israel.

Na quarta-feira, dezenas de palestinos protestaram em Al-Bireh, perto da colônia de Psagot. "Pompeo, vá para casa!", dizia um cartaz. "A visita de Pompeo a uma colônia se opõe a todas as resoluções internacionais", afirmou Munif Treish, membro do governo de Al-Bireh. "O vinhedo [de Psagot] está localizado em terras privadas palestinas. Temos os documentos que comprovam isso", acrescentou.

"Se as relações internacionais agora se baseiam em garrafas de vinho, a diplomacia morre", criticou nesta semana o primeiro-ministro palestino, Mohammad Shtayyeh.

A Síria também expressou descontentamento com a visita. De acordo com uma fonte do governo, ouvida pela mídia estatal do país, a visita, descrita como um "ato de provocação", deve ser condenada pela comunidade internacional e pela ONU (Organização das Nações Unidas), pois viola as resoluções internacionais.

Os palestinos indicaram a intenção de retomar relações com Washington assim que o presidente eleito Joe Biden assumir o cargo, um gesto visto como de boa vontade com seu futuro governo. No entanto, não está claro quantas decisões de Trump serão revertidas pelo governo do democrata.

Durante a visita, Pompeo também anunciou que os EUA considerarão "antissemita" o movimento BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções), que visa isolar Israel devido ao tratamento reservado aos palestinos. "Queremos nos alinhar a outras nações que reconheçam o BDS como o câncer que é", afirmou.

Em fevereiro, o secretário acusou a ONU de ser "anti-israelense" após a divulgação de uma lista de empresas que operam nas colônias israelenses em território palestino.

O BDS é uma campanha internacional de boicote econômico, cultural e científico que busca o fim da ocupação e da colonização dos territórios palestinos. Os que apoiam ou incentivam o movimento seguem o exemplo da África do Sul, onde, segundo eles, o boicote do país contribuiu para o fim do apartheid.

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