Descrição de chapéu The New York Times

Cidades nos EUA abrem parques de skate no momento em que pandemia valoriza espaços abertos

Prefeitos reinventam paisagens urbanas abrindo novas pistas ao ar livre

Kevin Armstrong
Nova York | The New York Times

A primeira vez que Xavier Harris, 21, visitou o novo parque de skate em Jersey City, no estado de Nova Jersey, foi em julho, e a pista ainda estava em construção. Então ele escalou uma cerca temporária para entrar. Na segunda vez, Harris, que começou a andar de skate quando tinha 9 anos, passou por baixo de uma cerca de arame.

Logo depois que o parque foi inaugurado oficialmente, em agosto, ele rolou seu skate pelo portão aberto, desceu uma rampa, manteve o impulso e terminou saltando sobre uma lata de lixo reciclável azul.

"Eu só quero fluir por aí", disse Harris, que é coletor de lixo em East Orange, Nova Jersey.

Skatista em Venice Beach, na Califórnia
Skatista em Venice Beach, na Califórnia - Valerie Macon - 15.set.20/AFP

De Nova Jersey ao outro lado do rio Hudson, Nova York, os skatistas estão agora desfrutando muito mais lugares para rolar, num momento em que o espaço ao ar livre se tornou mais cobiçado, com o ressurgimento do coronavírus.

Em Nova York, enquanto a cidade reabria lentamente, as autoridades inauguraram dois novos parques no Brooklyn e mais dois, em Manhattan e no Queens, que receberam grandes melhorias.

No Rockaway Beach Skate Park, que fica ao longo da orla do bairro de Queens, skatistas saltavam degraus, giravam sobre corrimãos e disparavam nas calçadas de concreto ao longo dos quase 1.500 m2 do parque.

"Viemos para cá surfar, vimos que estavam trabalhando nisso e pensávamos: 'Já abriu? Já abriu?'", disse Keir Austen-Brown, um skatista ávido assim como seu filho, Ollie, 11. "Quando vimos que abriu, viemos para cá no dia seguinte."

Como o skate hoje é um evento olímpico e o número de pistas de skate vem aumentando, um esporte há muito visto como rebelde se tornou decididamente popular. Skatistas que tinham de encontrar espaços distantes para aprimorar suas técnicas, às vezes em bairros desolados ou em locais onde corriam o risco de ser expulsos pela polícia, estão encontrando novos parques de skate conforme as cidades reinventam suas paisagens urbanas.

"Se você realmente pretende ser uma cidade classe A e vai investir em recreação, precisa pensar além dos esportes tradicionais", disse Steven Fulop, prefeito de Jersey City. "Por isso investimos em nosso primeiro parque de skate, e provavelmente faremos outros."

Martin Maher, o comissário do Brooklyn no Departamento de Parques da cidade de Nova York, conhecia a tese contra os parques de skate.

"Vinte anos atrás havia esse medo de 'Oh, meu Deus, com os skatistas vamos ter brigas, barulho!'", disse ele.

Em Nova York, skatistas que eram geralmente relegados a pistas improvisadas embaixo de pontes agora têm 39 pistas de skate administradas pelo departamento, onde podem testar suas manobras ousadas.

"Posso ficar vendo durante horas, e me surpreendo com skatistas de cerca de 30 origens culturais rolando em um espaço do tamanho de uma quadra de basquete, em total harmonia", disse Maher. "É algo para se assistir."

Para Josh Goldberg, 47, e seu filho Pablo, 13, as idas a alguns dos novos skateparks foram a forma de escapar do confinamento em sua casa no Brooklyn durante o bloqueio. Goldberg levou seu filho, um skatista aplicado que pretende trabalhar na indústria crescente, alguns degraus abaixo no Riverside Park em Manhattan, onde eles passaram sob uma cerca para apreciar o skateparque reformado antes da inauguração. Notaram que as rampas de madeira foram substituídas por concreto liso.

Eles também deram uma espiada em um parque em construção em Brownsville, no Brooklyn, e em um sábado recente curtiram a nova pista no Queens com amigos.

"Ar livre, movimento constante, quase perfeito", disse Goldberg. "Para dizer a verdade, neste verão eu vi mais de Nova York do que jamais tinha visto."

Em Nova Jersey, a estreia do primeiro skateparque de Jersey City foi o ápice de anos de luta dos skatistas locais, que se acostumaram a treinar com suas pranchas nos degraus de uma agência dos correios ou em terrenos abandonados.

Um dos pontos mais populares foi apelidado de "Junk Spot", uma área remota próxima ao sistema rodoviário New Jersey Turnpike. Mas, à medida que Jersey City era reurbanizada, as empreiteiras ocuparam muitos desses terrenos, expulsando os skatistas.

Os skatistas tentaram criar seu próprio espaço, mas o financiamento era um desafio. As autoridades municipais acabaram assumindo sua causa e, com a ajuda de doações privadas, o projeto do parque de skate, que levou sete anos e quase US$ 900 mil para ser concluído, tomou forma no final de um bloco industrial não muito afastado do Liberty State Park.

Depois de aberto, um aviso em letras maiúsculas avisava: PRATIQUE SKATE POR SUA CONTA E RISCO, e uma multidão eclética apareceu, desde crianças de 4 anos aprendendo a se equilibrar em skates a maiores de 40 procurando perder peso.

Inevitavelmente, ocorreram colisões e quedas.

"Você pode se machucar, mas nunca ouvi falar de alguém morrer no skate", disse Federman Acosta, 26, um skatista habitual de Edison, Nova Jersey, que aplaudiu o aumento dos parques de skate após anos driblando os carros ao praticar na rua.

"Eu já", interrompeu Jeremy Picado.

Em 2005, Picado, 38, que mora em Plainfield, Nova Jersey, sofreu uma concussão após uma queda, foi hospitalizado durante uma semana, teve perda de memória e parou de rolar. Mas ele recomeçou em 2013 e ajudou a construir o skateparque de Jersey City como operário. Agora ensina crianças a andar de skate nos fins de semana.

"É um vício para a adrenalina", disse ele.

Harris afirmou que sempre encontrou calma e camaradagem no mundo do skate. Seu pai lhe deu uma prancha quando ele tinha 9 anos, preocupado porque Harris parecia deprimido e passava muito tempo dentro de casa depois que ele e sua mulher se separaram.

Depois de fazer uma manobra no parque de Jersey City, ele olhou para cima quando ouviu um zumbido.

"Isso é um drone?", perguntou.

Na verdade, era. Descobriu-se que Derek McRae, um rapper local que atende por Mr. Cashed Out, estava usando o ambiente industrial em torno dos skatistas como pano de fundo para um videoclipe.

O drone o gravou em pé no meio da piscina de concreto enquanto ele rimava um remix de "Whats Poppin" de Jack Harlow com skatistas girando em torno dele.

"É uma vibração totalmente diferente", disse McRae, 22. "A iluminação. Cores brilhantes. Cena de drogas."

O parque foi iluminado após o pôr do sol, mas às 21h um SUV da polícia acendeu as luzes para sinalizar o horário de fechamento.

"Basicamente, eles nos monitoram", disse Bebe Freeman, 20, estudante na Universidade Rutgers, que aprendeu a andar de skate com sua mãe. "É meio estranho."

Com o skate se tornando mais popular, Nova York planeja construir mais dois parques para o esporte no Brooklyn.

"Sem dúvida, estamos em uma fase de expansão", disse Ian Clarke, fundador da NYC Skateboard Coalition. "Sabemos que, historicamente, o skate teve altos e baixos, e não ficaremos surpresos se isso ocorrer novamente. Mas não vai desaparecer."

Em um frio domingo recente no Riverside Park, Tyler Harl, 34, usava um moletom marrom enquanto descia a paisagem em terraços. Criado no Arizona, ele começou a andar de skate quando estava na terceira série. Viajou entre o Arizona e Nova York na última década e gosta da tranquilidade de andar de skate de manhã cedo na margem do rio Hudson.

A maior parte do parque estava aberta, exceto a peça final --uma piscina de concreto de 3,5 metros de profundidade.

Harl pegou uma vassoura e varreu as folhas caídas para abrir caminho.

"Agora que as bolotas dos carvalhos acabaram de cair, é muito mais fácil rolar", disse.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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